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Quem é a feminista 80+ que ainda incomoda os homens?

Gloria Steinem, ícone da segunda onda do feminismo, fez aparição em "Sex and the City" e segue engajadíssima no movimento

28 ago 2023 - 05h00
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Premiada diversas vezes, a jornalista de 89 anos segue discursando sobre a importância da igualdade de gênero na sociedade
Premiada diversas vezes, a jornalista de 89 anos segue discursando sobre a importância da igualdade de gênero na sociedade
Foto: Wikimedia Commons

Num dos episódios da segunda temporada de "Sex and the City - And Just Like That" (HBO Max), Carrie (Sarah Jessica Parker) se sente ligeiramente ofendida ao ser convidada por Enid (Candice Bergen) para participar de uma revista digital para voltada "às mulheres da nossa idade". Enid já passou dos 70 anos; Carrie tem 55. É uma boa diferença de idade? Sim, mas não justifica a reação etarista da protagonista - afinal de contas, na prática, as mulheres 50+ estão praticamene no mesmo barco. Carrie só se dá conta do próprio etarismo quando, no lançamento do projeto de Enid, se depara com a participação mais do que especial da feminista Gloria Steinem, que discursa sobre "o poder das mulheres mais velhas". 

Aos 89 anos de idade, Gloria mostrou na série que não só segue na ativa como se orgulha do caminho que construiu para si mesma e para tantas outras mulheres, num legado que permanece firme e forte até hoje. Até porque, convenhamos, sem o trabalho dela e de tantas outras feministas uma série pontuada pelo empoderamento feminino como "Sex and the City" jamais teria matéria-prima para ir ao ar. 

Em cena de "Sex and the City - And Just Like That": participação como ela mesma e fala potente sobre etarismo
Em cena de "Sex and the City - And Just Like That": participação como ela mesma e fala potente sobre etarismo
Foto: Divulgação/HBO Max

"Precisamos lembrar através das gerações que há tanto para aprender quanto para ensinar" é uma das frases mais citadas de Gloria Steinem e nunca perde a força nem o sentido. Nascida em 1934 em Toledo, Ohio (Estados Unidos), ela formou-se em administração pública pela Smith College e acabou seguindo a carreira de jornalismo. A escolha a levou a ter um trabalho no ativismo mais prático e "pé no chão": Gloria não enveredou pela performance teórica de nomes como Simone de Beauvoir ou Angela Davis, mas pela escuta ativa de gerações de mulheres e a consequente busca de soluções para suas questões.

Revista femininista

Gloria foi o principal nome da segunda onda do feminismo, movimento marcante que surgiu nos Estados Unidos e ganhou o mundo entre os anos 1960 e 1970. A segunda onda foi, depois da reivindicação pelo direito de votar das sufragistas no século 19, a mais relevante historicamente em termos de busca pela igualdade.

Se hoje ainda há tanta luta por salários iguais aos dos homens em cargos equivalentes e por liberdade reprodutiva, entre outros direitos, sem Gloria Steinem e suas contemporâneas a nossa realidade seria ainda mais sombria.

"Não há muitos empregos que realmente exijam um pênis ou uma vagina. Então, todas as outras ocupações devem estar abertas a todos", disse certa vez. Em 1971, juntou-se a 300 outras integrantes e formou o Fórum Político Nacional de Mulheres. Mais tarde, envolveu-se com o Partido Democrata.

Capa da "Ms.", revista criada por Gloria Steinem nos anos 1970: pioneira em assuntos tabu como a violência doméstica
Capa da "Ms.", revista criada por Gloria Steinem nos anos 1970: pioneira em assuntos tabu como a violência doméstica
Foto: Reprodução/Ms. Magazine

Sua principal contribuição à imprensa foi a fundação da célebre revista feminista "Ms.", em 1972, cuja redação era formada 100% por mulheres. Está previsto para setembro deste ano o lançamento do livro comemorativo "50 Years of 'Ms.': The Best of the Pathfinding Magazine That Ignited a Revolution", cujo prefácio é assinado por Gloria.

Entre seus artigos mais famosos e provocadores estão "Se os Homens Menstruassem", "Por que as Jovens São Mais Conservadoras" e "Marilyn Monroe: A Mulher Que Morreu Cedo Demais". Com Gloria no comando, a "Ms." foi a primeira revista a alertar sobre a violência doméstica - um, entre tantos outros temas como aborto, assédio sexual e prazer feminino, que provocaram escândalo nos seus anos iniciais.

NÓS Explicamos: dados chocantes sobre o aborto que talvez você não saiba:

A revista enfrentou diversos percalços ao longo das décadas, principalmente em relação a conflitos com anunciantes, mas segue firme e forte e desde 2001 é publicada pela Feminist Majority Foundation, com sede em Los Angeles e Arlington, Virgínia (EUA). 

Coelhinha da "Playboy"

Seu texto mais memorável, porém, é "Eu Fui Coelhinha da Playboy", publicado em 1963 na revista "Show", no qual conta a experiência de se infiltrar no bar da marca da famosa revista masculina como garçonete. Seu intuito foi relatar as situações abusivas e degradantes enfrentadas pelas moças, como o estímulo a sair com os clientes VIP, o exame ginecológico admissional (desnecessário para a profissão) e o desconforto do "uniforme".

Entre processos e telefonemas ameaçadores, Gloria enfrentou muito preconceito e machismo por conta da publicação do artigo. Como tinha participado de uma sessão de fotos como "funcionária" do clube, o empresário Hugh Hefner, criador da "Playboy", frequentemente colocava a imagem na seção de "coelhinhas" da revista para irritá-la.

Em 1975: dificuldade de falar para o público foi superada com o apoio de outras mulheres
Em 1975: dificuldade de falar para o público foi superada com o apoio de outras mulheres
Foto: Wikimedia Commons

Dona de uma beleza considerada padrão, Gloria teve vários problemas no início da carreira por causa da aparência. Quando cobria campanhas políticas, por exemplo, tinha de lidar com o desprezo dos colegas jornalistas. Nos anos 1970, alçada ao posto de feminista-ícone, ouvia piadas e sugestões sobre "arrumar um homem" ou fazer um "melhor uso" de seu rosto bonito. A vantagem é que acabava recebendo mais destaque da mídia da época que outras feministas por causa de sua aparência e soube fazer bom uso disso.

Gloria sempre teve pavor de falar em público, mas se aliou a ativistas fortes e desinibidas que a ajudavam nessa função. Com o tempo, foi perdendo e fez discursos memoráveis, como o da Marcha de Washington, em janeiro de 2017, evento em repúdio à eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e que acabou se transformado em uma grande manifestação em prol dos direitos humanos e das mulheres. 

Em uma de suas muitas viagens pelos Estados Unidos: escuta ativa de mulheres diversas
Em uma de suas muitas viagens pelos Estados Unidos: escuta ativa de mulheres diversas
Foto: Reprodução/Instagram/@gloriasteinem

Aborto aos 22, casamento aos 66

Durante suas andanças, sobretudo pelos Estados Unidos, Gloria Steinem sempre buscou ouvir o que as mulheres tinham a dizer. Taxistas, comissárias de bordo, presidiárias, vítimas de abuso, universitárias, atendentes de lanchonete... Histórias de vida a interessavam. Parte dessa experiência é narrada em um de seus diversos livros, "Minha Vida na Estrada" (Ed. Bertrand Basil), dedicado ao médico que lhe fez um aborto na Inglaterra, aos 22 anos de idade, quando a prática ainda era ilegal no país.

Cena do documentário "Gloria: In Her Own Words": defensora ferrenha do direito de abortar
Cena do documentário "Gloria: In Her Own Words": defensora ferrenha do direito de abortar
Foto: Reprodução

Entre suas várias realizações, Gloria Steinem produziu um documentário sobre abuso infantil para a HBO, um longa-metragem sobre a pena de morte para a Lifetime e uma série de episódios sobre a violência doméstica em vários países para a Viceland. Foi co-fundadora do Women's Media Center e premiada diversas vezes. Em 2013, recebeu das mãos do então presidente dos EUA Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil concedida a um cidadão no país.

Tema de peças de teatro, do documentário "Gloria: In Her Words" e de filmes como "As Vidas de Gloria" (2020), com Juliane Moore como sua "versão" dos anos 1970, a feminista mais famosa do mundo segue na ativa discursando e participando de movimentos com mulheres de todas as faixas etárias - inclusive adolescentes, com quem adora trocar ideias. "As mulheres têm duas escolhas: ou elas são feministas ou são masoquistas", já chegou a dizer. Outra de suas tiradas famosas, estampada em em camisetas com frequência, é "uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta". 

Ao lado de um grupo de garotas da ONG Tools & Tiaras: incentivo ao empoderamento das novas gerações
Ao lado de um grupo de garotas da ONG Tools & Tiaras: incentivo ao empoderamento das novas gerações
Foto: Reprodução/Instagram/@gloriasteinem

Ela não teve filhos por opção própria e se casou pela primeira vez aos 66 anos, porque foi o único momento da vida em que viu sentido em fazer isso. Ela se uniu em 2000 ao ativista ambiental David Bale, pai do ator Chrstian Bale, que morreu três anos depois.

Ver Gloria Steinem casada formalmente foi um choque para muita gente na época, mas ela simplemente respondeu que a ideia de matrimônio, felizmente, havia mudado para as mulheres. Nas entrelinhas, sinalizou que as mulheres podem fazer escolhas sem abrir mão de seus valores e que jamais deixaria de viver como bem entendesse. Como faz até hoje.

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Fonte: Redação Nós
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