Gilberto Gil exalta alegria do povo brasileiro: "Brasil tem um gosto pela bondade, pela celebração"
Na obra monumental do compositor, espiritualidade, tecnologia e natureza coexistem em harmonia orgânica
Gilberto Gil está paramentado como filho de Gandhy, subindo junto à massa rumo à praça Castro Alves, em Salvador. É carnaval de 2011, a cidade está repleta. Mas o símbolo cosmopolita de nossa arte segue no chão, humano, com os outros irmãos. “Gandhy é isso”, diz com um deboche quase bairrista. Há outro Gil, então ministro da cultura brasileira, que está na ONU, em 2003, propondo uma curiosa jam session com o ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan. A música ali levanta as autoridades globais e é televisionada para o mundo todo.
O magnetismo de Gil nas duas cenas, embora tão diferentes, também aparece em uma frase de Dona Canô, mítica mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia. Conta a história que ela chamava o filho para ver na TV “aquele preto bonito de quem ele gostava”. Nos anos 1950 e começo dos 1960, aqueles jovens artistas ainda não sabiam que se tornariam irmãos por afeto e mudariam os rumos da cultura brasileira. E, mesmo com tantas revoluções nesses mais de 60 anos, algo não se abalou: o Brasil e o mundo ainda param o que estiver fazendo para ver — na TV ou onde for — aquele preto bonito que veio da Bahia cantar.
Atualmente, Gil tem viajado pelo Brasil com Tempo Rei, que se convencionou chamar de “a última turnê”. Afirma que a ideia de descanso tem sido sedutora, inclusive para pensar melhor na criação. Tudo no mundo, segundo ele, anda ocupado demais, uma reflexão profunda de como a sociedade também deveria pensar em diminuir a velocidade.
Somos propositivos na maneira de encarar tudo com positividade. Isso é exemplar para o resto do mundo. Brasil tem um gosto pela bondade, pela celebração, por estar juntos em nome de coisas bonitas como as artes.
O futuro já era ancestral
Desde que era um rapaz tocando violão na TV de Dona Canô, Gil já unia a tecnologia com o saber de nossos antepassados em verso e melodia. Mas não basta antever, é preciso ainda acreditar. “Essa expectativa ou esperança é baseada no modus operandi da nação. Temos sido despertados para a necessidade de agir. Todos os povos estão esperando que a sociedade humana cresça, se desenvolva e adote valores da solidariedade”, ele diz a Victor Cremasco no podcast “Futuro Vivo”. O brasileiro, segundo Gil, já carrega uma “herança de solidariedade, de alegria, de preferência pela bondade e capacidade de utilizar o bem como força propulsora ainda nas dificuldades de enfrentamento da maldade”.
Essa força está na poética humana que se espalha nos versos do compositor, mesmo quando eles tratam de avanços tecnológicos. Em 1966, estávamos a três anos daquele pequeno passo para o homem que se tornaria um grande passo para a humanidade — o homem ainda iria pisar na Lua.
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Gilberto Gil, visionário, falava sobre a visita ao satélite em “Lunik 9”: “Nos jornais, manchetes, sensação. Reportagens, fotos, conclusão. A lua foi alcançada afinal. Muito bem, confesso que estou contente também. A mim me resta disso tudo uma tristeza só. Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção. O que será do verso sem luar?”, ele indaga na canção, convocando poetas, seresteiros e outros artistas a escrever sobre a magia do luar antes que a ciência o tornasse tão concreto a ponto de ser pisado. Valorizar o que sempre tivemos, frente às promessas do novo, era vanguarda do Gil há seis décadas.
Carlos Rennó, autor do livro “Todas as Letras” (Cia. das Letras), que chega à sua terceira edição com uma ampla revisão das composições escritas por Gil desde os anos 1960, concorda. “Lunik 9”, segundo o estudioso, é a primeira canção que vai cronologicamente refletir a preocupação do que acontece no campo científico. “É de certa forma ainda reativa e até conservadora. Mas é algo novo no repertório da canção brasileira apresentar uma reflexão sobre o avanço tecnológico do homem”, ele conta.
Deus, máquina e homem
Rennó garante que sempre houve um futurismo em Gil. “Isso se reflete numa série de canções, nos versos e nas melodias, às vezes também nos arranjos. Aí há uma interseccionalidade entre a reflexão sobre o avanço tecnológico e as preocupações de ordem religiosa e espiritual”, diz. Se na visão comum ambos os conceitos andam separados, no espírito e na alma poética de Gil estão associados e ainda são acompanhados de clamor por democratização. “Ele quer que tudo isso que a ciência vem criando através das décadas vá para o sertão, para as famílias pobres”, observa.
Enquanto a Nasa rompia as fronteiras do espaço, quem se preocuparia com o luar? E como nos manteríamos conectados com o mistério do que sempre tivemos como divino — ou celestial — enquanto voávamos cada vez mais alto? Enxergar essa espiritualidade também é perceber a importância da terra, da natureza, do que vem debaixo do barro do chão. Caminho para o qual a humanidade branca só percebeu que precisa se voltar agora, quando as crises ficaram extremas.
Essa intersecção “gente versus máquina” tem seu ponto alto em “Quanta”, o álbum duplo lançado em 1997 em referência à física quântica. O avanço da ciência e a dimensão humanitária são campos contíguos nas letras — é desse disco “Pela Internet”, quando ele já queria “entrar na rede e promover um debate”. “Sei que a arte é irmã da ciência, ambas filhas de um deus fugaz que faz num momento e no mesmo momento desfaz”, ele diz na canção que tem o nome do disco. E exemplifica no verso que abre “Átimo de pó”, com letra do próprio Rennó: “Entre a célula e o céu, o DNA e Deus.” O antagônico anda grudado nos futuros compostos por Gilberto Gil. Ele afirmou recentemente que “Quanta” é um de seus trabalhos favoritos. “Aprecio muito pelo que significa, por essa presunção e pretensiosidade de retratar um campo muito misterioso da vida científica que é a teoria quântica e todos os reflexos disso na poética da composição musical e literária do disco”, afirmou.
Mas nem tudo traduz os tempos atuais para sempre. “Pela Internet”, aliás, mereceu nova versão, tamanha a velocidade das mudanças digitais desde que a primeira letra foi criada: “Eu tô preso na rede que nem peixe pescado. É zapzap, é like, é Instagram, é tudo bem bolado (...). Agora é terabytes que não acabam mais, por mais que se deseje”, ele canta. Parece que a fadiga digital não poupou nem o poeta.
Globalizado desde que o mundo era pequeno
Os versos de “Parabolicamará”, de 1991, viraram símbolo do que era o mundo antes de nos conectarmos como agora (“antes o mundo era pequeno porque Terra era grande, hoje o mundo é muito grande porque a Terra é pequena, do tamanho de uma antena parabolicamará”). Mas Gil conecta tudo dessa maneira desde antes, arriscando-se na chamada arte universal. “Ele já traz no espírito, na personalidade, a propensão a ser aberto ao novo. O tropicalismo é uma demonstração dessa abertura para o mundial, o internacional e, indo além, o cósmico”, afirma Rennó, que lembra que foi durante a prisão, na ditadura, que começou a expansão da consciência de Gil.
O aprofundamento em questões espirituais e tecnológicas resultou em canções como “Cérebro Eletrônico”, aquele que faz tudo, quase tudo, mas é mudo. E usou a mesma parabólica para espalhar-se em onipresença — da TV na casa de Caetano ao palco da ONU, passando pelo reality “Em casa com os Gil” (Prime Video, 2022 e 2023) e pelo palco tecnológico em que seus versos desfilam em 3D na turnê Tempo Rei. Agradeçamos aos terabytes.
Esse aprofundamento em tecnologia prossegue nos tempos atuais. Gil não vê o avanço da inteligência artificial de maneira alarmista. Acredita, inclusive, que é isso que pode permitir ao ser humano mais tempo livre para entretenimento construtivo. “Eu penso e posso”, já dizia em 1969. “Recentemente, usei a IA de maneira fragmentada e experimental para tomar conhecimento de como ela opera. Acho que pode trazer benefícios novos para a sociedade humana. Apesar de achar que devemos coibir os abusos, não acredito que precise ser alarmista, não”, pondera. O segredo, segundo ele, é almejar o bem das ferramentas para encontrar a cura do que precisa ser consertado. E manter em mente aquilo que só o homem pode saber e sentir, como nos lembra também em “Cérebro Eletrônico”: “Só eu posso pensar se Deus existe. Só eu. Só eu posso chorar quando estou triste.”
Quando Gil entrava na casa de Dona Canô, no comecinho dos anos 1960, pelo aparelho que seria precursor da Parabolicamará, já estava acenando ao novo. “Eu sentia a alegria por Gil existir. Era evidentemente um grande acontecimento a aparição dessa pessoa, e minha mãe festejava comigo a descoberta”, conta Caetano no livro “Verdade Tropical” (1997).
Entretanto, mesmo com tanta vanguarda no histórico, Gil teme não ter forças para resistir aos ataques atuais, que chama de caprichos da própria natureza. “Tenho medo de perder a coragem para responder às descrenças, aos ceticismos que nos ameaçam frequentemente”, diz, aos 83 anos, emendando na intocável esperança na continuidade de tudo.
Como a Lunik de Gil avisou em 1966, a ciência nos deixa contentes, mas um pouquinho preocupados que percamos a poesia daquilo que não compreendemos muito bem. Resumindo: “Se a noite inventa a escuridão, a luz inventa o luar. E a gente precisa ver o luar”. A TV de Dona Canô segue ligada.
A arte são as várias formas de tradução que a gente faz sobre o viver. Ela dá significados de forma doce e tranquila.