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Coligay: torcida LGBT agitou o Grêmio e desafiou a Ditadura Militar

Torcida do Grêmio, grupo gaúcho foi o único reconhecido oficialmente pelo time em toda a história do futebol brasileiro

14 jun 2022 20h06
| atualizado em 20/6/2022 às 05h00
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Coligay
Coligay
Foto: Reprodução

O ano é 1977, em um Brasil sob a Ditadura Militar. Na literatura, Jorge Amado lança 'Tieta do Agreste', um de seus maiores sucessos. Na política, Ernesto Geisel sanciona a lei que regulamenta o divórcio. No esporte, Pelé vence o Santos pelo New York Cosmos e se despede da carreira no futebol. Em meio a esse panorama, no mínimo marcante para a história, nasce a primeira e única torcida organizada LGBT reconhecida do Brasil: a Coligay

Volmar Santos foi a grande mente por trás da iniciativa. Na época, ele gerenciava a boate Coliseu, casa noturna destinada ao público LGBT, que ficava localizada a exatos dois quilômetros da Arena do Grêmio, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Amante de futebol e mais ainda do Tricolor Gaúcho, o gerente se organizou com amigos e frequentadores para fundar a torcida. 

Apesar de ter feito história com a fundação da Coligay, orgulho não foi uma motivação para Volmar, mas segurança. É o que diz Léo Gerchmann, escritor do livro 'Coligay: Tricolor e de Todas As Cores'.

"Ele queria que os LGBTs pudessem frequentar estádios sem ter medo", explica.

Independentemente da intenção, o cenário político era pouco favorável para tal movimentação. Para se ter noção, em 2014, após receber o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), a presidente Dilma Rousseff (PT), deu destaque inédito à perseguição e torturas ocorridas contra gays, lésbicas, bissexuais e transexuais durante o regime. As informações escancararam um tempo em que a violência contra o público era maior e mais cruel.

"Assumir a sexualidade naquela época era ser considerado um pária social. Significava perder amigos, família e correr muitos riscos", analisa o autor.

Coligay
Coligay
Foto: Reprodução

Torcida LGBT nos estádios

O primeiro jogo oficial da Coligay foi em 10 de abril de 1977, e, para nenhuma surpresa, a presença de LGBTs assumidos na arquibancada incomodou, virou alvo de hostilidade entre torcedores gremistas, dirigentes tricolores e torcedores adversários. As agressões verbais viraram rotina, tanto em partidas na Arena do Grêmio, quanto em outros estádios pelo país. 

Na tentativa de garantir que os LGBTs pudessem se defender, Volmar Santos colocou os integrantes da torcida, cerca de 150 pessoas, para aprender karatê. De acordo com Léo Gerchmann, eles só precisaram usar as habilidades marciais uma vez.

"Foi em Passo Fundo, homofóbicos armaram uma emboscada e tentaram atacá-los no percurso para o jogo, mas a Coligay revidou. Foi pancada para todo o lado, mas venceram os agressores", conta.

Alguns jogos depois, Volmar agendou conversas com o presidente do Grêmio da época, Hélio Dourado, para tentar reconhecer a torcida e preservar a integridade física dos torcedores. A partir desses diálogos, ele conseguiu algo inédito: formalizar a Coligay como torcida organizada reconhecida pelo time - ato jamais alcançado por outro grupo LGBT.

Coligay
Coligay
Foto: Reprodução

A carta verde de Hélio Dourado e o acesso a uma sala própria no estádio e a uma área exclusiva na arquibancada não pouparam a Coligay dos episódios de preconceito. Mas em menos de um ano, a torcida passou a cair no gosto dos atletas, principalmente após a conquista do Campeonato Gaúcho. A vitória foi atribuída à presença constante dos "coliboys", como eram chamados, nos estádios. 

Torcedores pé-quente

A fama de "pé-quente" da Coligay se espalhou. Em 1977, o Corinthians convidou a torcida para um jogo na intenção de interromper um jejum de títulos que já superava 20 anos. O time arcou com os custos da viagem e, numa partida acirrada contra o Ponte Preta, alcançou a vitória e encerrou a temporada como campeão do Campeonato Paulista. 

O respeito conquistado pela torcida organizada LGBT em meio a um cenário tão inóspito pode até parecer um milagre, considerando que a capital gaúcha tinha uma Delegacia de Costumes - algo comum para a época. A unidade monitorava as ações da Coligay através do setor de "meretrício e vadiagem". Segundo o escritor Léo Gerchmann, qualquer "desmunhecada" na arquibancada ou comportamento dado com subversivo poderia gerar problemas. 

Coligay
Coligay
Foto: Reprodução

Presença de gays nas arquibancadas

Até, então, não há registros de prisão de algum "coliboy". Para manter a integridade dos torcedores, Volmar estabeleceu um padrão de comportamento e regras, que incluíam um protocolo rígido de como agir em diversas situações. Nessa ata, constava até uma proibição expressa a respeito do consumo de álcool no estádio. Gerchmann explica o motivo:

"Ele não queria dar motivos para os opressores", disse.

Volmar Santos, fundador da Coligay
Volmar Santos, fundador da Coligay
Foto: Reprodução

A Coligay chegou ao fim em 1983. A mãe de Volmar Santos adoeceu e ele voltou a Passo Fundo, sua cidade natal, para cuidar dela. Longe de seu comando, a torcida perdeu forças e encerrou as atividades, mas inspirou outras agremiações como a Flagay, do Flamengo (1979), e a Galo Queer (2013), do Botafogo.

Apesar do movimento, até hoje nenhuma torcida conseguiu o reconhecimento de seus respectivos times. Além disso, o medo de pessoas LGBTs no estádio voltou a ser uma realidade constante. 

Em 2021, o perfil do Grêmio no Twitter celebrou os 40 anos do primeiro jogo com a presença da Coligay. Em memória, o time também incluiu um painel em homenagem aos "coliboys" no Museu do Grêmio. Volmar Santos, fundador da torcida, segue vivo, em idade avançada, mas frequentando estádios esporadicamente. 

*Com edição de Estela Marques

Fonte: Redação Terra
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