Lideranças femininas: o escritório é o único caminho para liderar?
As histórias de mulheres que são liderança em suas comunidades, quilombos e movimentos sociais
A palavra 'liderança' é descrita como 'a habilidade de inspirar e motivar pessoas positivamente'. A capacidade de gerir momentos de crise e saber lidar com outras pessoas que compõem a estrutura coletiva, de forma sensível e assertiva, também é igualmente importante. À primeira vista, a palavra pode ser naturalmente associada ao empreendedorismo, porém, nem sempre uma boa gestão acontece no âmbito empresarial. No caso das mulheres, sobram exemplos de lideranças em movimentos sociais, comunidades quilombolas, regiões de assentamento, espaços de saúde e ações de fomento à cultura.
Um levantamento realizado em 2021 pela McKinsey & Company, uma consultoria norte-americana, concluiu que mulheres possuem uma capacidade maior de liderar e servir como modelo de conduta. Outra pesquisa internacional, realizada no mesmo ano pela Universidade de Harvard, constatou que as mulheres em cargos de liderança mostraram maior eficiência e conseguiram apresentar mais resultados positivos, contribuindo de maneira expressiva para o envolvimento dos trabalhadores.
Apesar dos olhares positivos, é importante não romantizar a capacidade das mulheres de liderar. A sensibilidade tão aclamada, assim como instinto 'natural' de cuidado, são resultado de uma construção histórica dolorosa, que socializa mulheres para serem protetoras e suportarem violências de forma silenciosa. Sobre isso, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, declarou: "Temos um mundo cheio de mulheres que não conseguem respirar livremente porque estão condicionadas demais a assumir formas que agradem aos outros. Imagine como seríamos mais felizes, o quão livres seríamos para sermos nós mesmos, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero. Meninas são ensinadas a ficar caladas e sorrir quando discordam".
A reflexão é um excelente ponto de partida para analisar a situação no cenário das empresas, por exemplo. Na prática, mulheres ainda são subalternizadas — o que reflete um nítido distanciamento entre o que se prega na teoria e o que acontece na realidade. De acordo com a ONU, as mulheres servem como chefes de Estado ou de Governo em apenas 22 países, enquanto 119 países nunca tiveram uma líder mulher. Apenas 25% dos assentos parlamentares nacionais são ocupados por mulheres e os dados de 133 países indicam que as mulheres representam apenas 36% dos membros eleitos dos órgãos deliberativos locais.
"Quando as mulheres estão sub-representadas nas tomadas de decisão públicas, as políticas podem não refletir suas necessidades e prioridades. Se não tomarmos medidas decisivas para empoderar e permitir que mais mulheres reivindiquem a liderança na política e na tomada de decisões públicas, não alcançaremos a igualdade nos níveis mais altos por mais de 130 anos" afirmou o órgão, em nota.
Em busca de ilustrar a gestão de mulheres para além das empresas, listamos quatro mulheres baianas que atuam na gestão de comunidades quilombolas e regiões de assentamento. Juntas, elas inspiram milhares de mulheres e promovem mudanças significativas nos coletivos.
Patrícia Oliveira
À frente do Instituto Santa Cruz, que compreende os assentamentos Caimã, Taubinhas, Riacho da Onça, Guarujá, Riacho e Quixaba, na Recôncavo Baiano, Patrícia Oliveira, 40, soma anos de atuação em projetos sociais e ações de fortalecimento cultural.
Ao todo, Patrícia atua com mais de 60 famílias, que se organizam durante o ano inteiro para receber os visitantes. Eles oferecem, principalmente, uma experiência de turismo religioso. O trabalho da líder também consiste em resgatar as histórias do cangaço - e, principalmente, fomentar a capacitação intelectual e criativa da população.
"Meu trabalho é, principalmente, ajudar a melhorar a vida da minha comunidade", comenta.
Além disso, o grupo disponibiliza alfabetização de crianças, adultos e idosos. Por semana, 300 pessoas por semana passam pelas oficinas ofertadas pelo Instituto, que tem aulas de teatro, dança, música e até uma biblioteca própria, a Aristides Fraga Lima.
Raynara Gomes
Ao contrário de muitas líderes comunitárias que iniciaram em movimentos sociais só na idade adulta, Rainara Gomes, 22, já nasceu em território de reforma agrária. Natural de Itaetê, município localizado a cerca de 386 km de Salvador, Rainara é do assentamento Caimã, que hoje integra a rota turística Em Cantos da Chapada, que fomenta o turismo local de base comunitária. A jovem também é chefe do departamento de turismo da Secretaria da Cultura local e, diariamente, ajuda a transformar a vida de 570 famílias.
Idealizado em 2017 e colocado em prática em 2018, três comunidades fazem parte do grupo: Roseli Nunes, Baixão e Europa - que faz parte do povoado de Colônia.
"A proposta do meu trabalho é adicionar experiências voltadas ao turismo através do dia a dia das pessoas que moram em cada assentamento, preservando todo o patrimônio cultural e histórico. Oferecemos hospedagem, alimentação, passeios locais e contação de histórias. Todo o dinheiro é revertido para as famílias", afirma.
Josiane Santana
Coordenadora da Grota quilombola, um grupo de de turismo de base comunitária criada por jovens quilombolas, Josiane Santana, 32, é lavradora e trabalha em Coqueiro, uma das remanescentes da região. O quilombo fica em Mirangaba, a cerca de 10 km de Salvador.
"Estamos aqui e estamos na luta. Não vamos nos enfraquecer. O futuro dos nossos descendentes, de nossas crianças, vai ser melhor. Quero que eles possam contar as histórias que estou contando e aprendi com meus ancestrais. Não somos apenas um mito", reflete Josy.
Tudo na comunidade é feito coletivamente, e a Grota foi fundada para trabalhar o reconhecimento identitário e o enfrentamento do preconceito racial, e também para reduzir o êxodo. "Tudo que precisamos fazer é na cidade, então, muita gente vai embora. Os jovens param de estudar, porque não tem mais escolas próximas. A juventude é quem mais sofre, por isso nos articulamos", finaliza.
Andreza Viana
Empreendedora social do assentamento Caimã, localizada em Cachoeira, a cerca de 121 km de Salvador, Andreza Viana tem 27 anos e está à frente da comunicação da Rota da Liberdade, um núcleo de turismo étnico de base comunitária que surgiu com o propósito de valorizar e fortalecer a cultura quilombola. Atuando nos quilombos Kaonge, Dendê, Kalemba, Engenho da Ponte e Santiago do Iguape, a Rota tem forte conexão com espaços acadêmicos e realiza muitas excursões universitárias.
Andreza nasceu em Salvador, mas se mudou para o quilombo Kaonge aos sete anos, para morar com a avó. Por lá, foi criada por ela até os 18. "Minha família é toda de lá. Por se tratar de uma comunidade tradicional, não tinha água, não tinha energia, foi chegando de 2005 para a frente. Eu lembro de muito conhecimento e experimentos, sou quem sou por causa do meu aprendizado de lá. Atuo na Rota da Liberdade em todos os projetos, todo fim de semana estou lá, sempre envolvida. Meu porto seguro é lá", revela a jovem, que acabou retornando à Salvador para estudar. Ela se formou em jornalismo, e atua na linha de frente da comunicação da Rota.