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Cineasta Audrey Diwan recria a França dos anos 1960, quando aborto significava cadeia

Diretora de 'O Acontecimento' levou para o cinema o desconforto presente no livro homônimo de Annie Ernaux

13 jul 2022 - 05h11
(atualizado às 13h55)
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Ganhador do Leão de Ouro de Veneza de 2021, O Acontecimento, dirigido pela francesa de origem libanesa Audrey Diwan, está em cartaz nos cinemas. Com base na literatura memorialista da romancista Annie Ernaux, o longa recria a França do início dos anos 1960, quando o aborto era ilegal e poderia levar mulheres à cadeia.

Escritora e roteirista de thrillers, Audrey só havia dirigido um filme, Mais Vous Êtes Fous (2019), quando enveredou pelas memórias de Annie. Em sua adaptação, ambientada em 1963, a estudante de Letras Anne (Anamaria Vartolomei) tenta abortar uma gravidez indesejada, mas encara os riscos da ilegalidade, deixando sua própria saúde em perigo. Na entrevista a seguir, concedida ao Estadão, via Zoom, a realizadora de 42 anos traça um panorama crítico da sociedade europeia que condenou o gesto de Ernaux sem compreender seus sentimentos.

Cena do filme 'O Acontecimento', de Audrey Diwan, baseado no romance homônimo de Annie Ernaux
Cena do filme 'O Acontecimento', de Audrey Diwan, baseado no romance homônimo de Annie Ernaux
Foto: Zeta Filmes

O que o livro ofereceu como cartografia afetiva da França dos anos 1960?

A narrativa literária de Annie não se expressa por meio de rubricas intelectuais de tom político sobre o aborto. Ela dispensa isso ao se abrir e compartilhar conosco sua jornada pessoal, com a coragem de falar de desejo, do flerte que leva ao sexo e da solidão inerente ao desamparo de um Estado que julga, mas não ajuda. Há 60 anos, a ausência de uma perspectiva humanista nas legislações sobre o aborto, ou seja, sobre o corpo feminino, levou muitas jovens ao desespero. A universalidade do filme que eu construí a partir da leitura das páginas de O Acontecimento não está no aborto, em si, mas em toda a trajetória de alguém que compartilha seus sentimentos conosco. A sequência do urro de dor de Anamaria Vartolomei não é uma síntese. É mais uma vivência. Uma vivência cruel.

Em que aspecto o filme, que remonta à Nouvelle Vague, dialoga com a tradição cinematográfica de seu país?

Para quem vive na França, a Nouvelle Vague não é um fenômeno nacional e, sim, um evento intelectual de Paris que reverberou pelo mundo, mas não impactou todo o nosso país em nível proletário. O que mais me interessava aqui era retratar o momento inicial de empoderamento discursivo de uma juventude na qual as mulheres tiveram voz ativa.

Sandrine e Anamaria vivem mãe e filha numa relação de sorrisos, de poucos gestos, em que se divertem juntas. Como é o desenho de maternidade que você construiu?

É um desenho carregado de conflitos sociais, pois existe um abismo em termos de formação intelectual entre as duas, uma vez que a personagem de Anamaria teve a chance de estudar, e numa metrópole, cursando universidade. Sua mãe, não. Existe, portanto, na figura da protagonista uma culpa social que vem do sentimento de não trair a mãe, ao quebrar com as expectativas dela. A mãe esperava que a filha vencesse socialmente. A gravidez e o aborto ilegal poderiam, na cabeça dela, prejudicar sua trajetória acadêmica.

Sua relação com o cinema começa por uma trajetória pela palavra, como roteirista. Como essa experiência edificou a sua formação como realizadora?

Não esperava iniciar uma carreira como realizadora. A ideia era seguir escrevendo. Fui dirigir por necessidade, para poder viabilizar projetos. Sinto que levei da minha vivência como roteirista o apreço pelo silêncio, mais do que pela palavra. Sem ruídos, as personagens embarcam num monólogo interno onde se entendem mais e onde nós podemos entendê-las melhor.

Estadão
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