Os Estados Unidos ganharam pacificamente a guerra fria. Em conseqüência, e com o fim da União Soviética, converteram-se na única superpotência mundial apta a atuar simultaneamente no campo da paz e da guerra, no econômico-financeiro e no dos valores. Por isto estão razoavelmente à vontade neste mundo globalizado em que vivemos e dele se beneficiam sem maiores custos para a sua sociedade. Neste contexto, o governo americano, com a concordância explícita ou implícita de sua vigorosa e pluralista sociedade civil, vem explorando as descontinuidades existentes no sistema internacional para afirmar os seus interesses com base num dado de fato: hoje, o êxito de qualquer iniciativa importante no plano mundial requer a participação dos Estados Unidos.
Compreende-se assim que o sucessor do presidente Clinton terá como um de seus objetivos conservar e consolidar esta situação.
Este objetivo requer competência e liderança no exercício do poder presidencial. No quesito competência o problema reside em como lidar com a imensa complexidade do mundo contemporâneo. Com efeito, lidar com a complexidade é indispensável para um país que aspira, recorrendo às clássicas palavras de Campanella, "alla somma delle cose umane", mas não tem condição para modelar o mundo por meio do exercício solitário e simplificador da unipolaridade.
Assim, por exemplo, a política americana em relação à América Latina é complexa e não pode ser reduzida a um só tema, que se prestaria ao exercício concentrado do poder (por exemplo as negociações da Alca). Como aponta Abraham Lowenthal, nesta virada do século, o foco dos Estados Unidos é variado, tendendo a ser, em relação ao México, à América Central e ao Caribe, o econômico (50% do investimento americano na região, 70% do comércio, 60% da exposição bancária) e o demográfico (85% da imigração latino-americana para os Estados Unidos). Já em relação aos países andinos (dos quais provêm praticamente a totalidade da cocaína e da heroína importada pelos Estados Unidos), os temas fortes são o do narcotráfico, o da violência política e da guerrilha (Colômbia), o da governança democrática (Peru), o da gestão macroeconômica (Equador), o de estratégia de desenvolvimento e de suas implicações internacionais (Venezuela).
No que tange ao Mercosul, a agenda básica concentra-se nos fluxos financeiros, nos investimentos e no comércio (mais de 40% do investimento americano na América Latina, mas menos de 15% do seu comércio).
Lidar com a complexidade requer, além do seu apropriado entendimento, capacidade para agir, que tem entre seus quesitos o exercício de liderança.
Seja no plano do Legislativo, seja no do Executivo, as eleições americanas revelaram um eleitorado antes fragmentado e indefinido do que polarizado.
Do ponto de vista de política externa, esta fragmentação não significa um questionamento dos objetivos voltados para a manutenção dos EUA como a única superpotência mundial. Significa dúvidas sobre os modos de torná-lo cada vez mais efetivo e com menor custo.
Esta fragmentação adquiriu um novo significado para o novo presidente que enfrentará um relevante problema de liderança no plano interno da sociedade americana. Com efeito, esta liderança requer a legitimidade que é a diferença entre o maior ou menor prestígio e influência do presidente e os seus poderes constitucionais.
Neste contexto, o inesperado das eleições americanas é o impacto político de suas leis eleitorais que trouxeram uma indefinição dos seus resultados.
Numa democracia as leis eleitorais são fundamentais para a legitimidade das instituições. Definem as "regras do jogo" do sempre delicado processo de transmissão do poder. É por meio delas que as preferências da cidadania explicitam-se por meio do voto que, em função do princípio da maioria, se traduz na escolha dos governantes. Suspeitas sobre a lisura do processo eleitoral, recontagem de votos, possíveis discrepâncias entre o voto popular e a definição conclusiva a ser dada pelo Colégio Eleitoral (cujas regras de procedimento não são inequívocas) são temas que vêm sendo debatidos com vigor nos Estados Unidos à luz da experiência concreta destas eleições presidenciais.
O conteúdo e o impacto desta discussão poderão afetar a capacidade de liderança do futuro presidente, num sistema como o americano, baseado na divisão de poderes, com um Legislativo forte, mas dividido, dotado de competências em matéria de política externa.
A isto cabe acrescentar o papel da liderança presidencial na agregação dos múltiplos interesses particularistas existentes na sociedade americana (empresas, sindicatos, trabalhadores, ONGs ambientalistas, de direitos humanos, bancos, fundos de pensão, etc.) e sua capacidade de converter esta multiplicidade numa vontade nacional, direcionada para um curso comum de ação no plano internacional.
Em síntese, à vista do "déficit" democrático das leis eleitorais, que aflorou com contundência este ano, o novo presidente iniciará sua gestão sem o tradicional crédito de confiança que usualmente caracteriza o início de um novo mandato presidencial e abre espaço para a consolidação de uma liderança. Corre o risco da paralisia decisória e de vir a ser um lame duck que terá que aprender a voar no início do seu percurso e não como saber planar no final do seu mandato.
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