Simea: carro nacional de 1986 poluía 136 vezes mais do que um carro atual
Simpósio Internacional de Engenharia Automotiva debate caminhos da mobilidade mais limpa, conectada e eficiente
A 32ª edição do Simea (Simpósio Internacional de Engenharia Automotiva), reuniu em São Paulo, nos dias 13 e 14 de agosto, especialistas, executivos, engenheiros e representantes do poder público e da academia para discutir tecnologias e estratégias que vão moldar o futuro da mobilidade no Brasil.
O evento promovido pela AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva) abordou desde políticas públicas para a descarbonização até soluções digitais, inteligência artificial e novos combustíveis, conectando diferentes elos da cadeia automotiva e energética. Um dos dados que chamaram atenção foi o da poluição de um carro de 1986 (40 anos atrás) comparado com um de hoje.
A abertura contou com as falas de Marcus Vinicius Aguiar, presidente da AEA; Claudio Sahad, presidente do Sindipeças; Gilberto Martins, diretor de Assuntos Regulatórios da Anfavea; Marcelo Godoy, presidente da Abeifa; Luciana Giles, diretora de Comunicação da AEA e coordenadora do Simea 2025, e de Ricardo Gondo, Presidente de Honra do Simea 2025. As lideranças ressaltaram a pluralidade de rotas tecnológicas e a importância da engenharia brasileira para o cumprimento das metas de sustentabilidade, produtividade e inovação.
Carro de 1986 poluía 136 vezes mais
A primeira palestra do dia foi de Thaianne Resende, diretora de Qualidade Ambiental da Secretaria Nacional de Meio Ambiente e Qualidade Ambiental (MMA). A executiva destacou o papel histórico dos programas de controle de emissões Proconve e Promot que, segundo ela, são instrumentos do Pronar – Programa de Qualidade do Ar e já estão em vigor há 39 e 23 anos, respectivamente.
Thaianne destacou os resultados desses dois programas que já contribuíram para a redução de 99% de monóxido de carbono, 98% de hidrocarbonetos e 96% de óxidos de nitrogênio, mesmo com o aumento da frota nacional. Na prática, um carro em 1986 poluía o equivalente a 136 veículos atuais. Ela apresentou as novas fases previstas até 2030, a integração das metas com compromissos climáticos do Acordo de Paris e a necessidade de avançar em inspeção veicular e renovação da frota para garantir ar mais limpo e ganhos diretos à saúde pública.
Transição energética eclética requer integração
Na sequência, Fernanda Rezende, diretora executiva adjunta da CNT – Confederação Nacional de Transporte –, fez um paralelo histórico da transição do cavalo para o automóvel no início do século XX, destacando como fatores de mudança – novas tecnologias, fontes energéticas e pressão ambiental – voltam a ser determinantes no presente. Segundo ela, a agenda de descarbonização do transporte exige ação coordenada em três frentes principais.
A primeira é a transição energética, com a diversificação de fontes como biometano, hidrogênio renovável, eletromobilidade, diesel verde e combustíveis sustentáveis de aviação. Fernanda ressaltou que cada alternativa tem vantagens e limitações em autonomia, custo, emissões e infraestrutura de abastecimento, exigindo planejamento integrado para garantir viabilidade técnica e econômica.
Caminhões ainda transportam 65% das cargas no Brasil
O segundo pilar é a infraestrutura, que no Brasil ainda apresenta gargalos significativos: 64,85% das cargas são transportadas por rodovias, das quais apenas 12,4% são pavimentadas. Essa deficiência gera desperdício de 1,18 bilhão de litros de combustível e emissões adicionais de 3,13 milhões de toneladas de CO₂ por ano. Para ela, investir na recuperação e modernização da malha é fundamental para reduzir custos logísticos e emissões.
Heloisa Loureiro Escudeiro, do Centro de Estudos das Cidades do Laboratório Arq. Futuro do Insper, por sua vez, trouxe uma visão sistêmica para a mobilidade urbana sustentável, defendendo políticas que integrem matriz energética limpa, conectividade, integração modal e segurança viária, sempre mitigando custos ambientais e socioeconômicos. Esse painel teve a mediação da jornalista Cleide Silva.
Experiência digital vai guiar futuro dos carros
Na parte da tarde, na sessão de palestras especiais, Fabio Ferreira, diretor de Produto da Bosch, apresentou as megatendências na mobilidade e seus impactos diretos na tecnologia automotiva. Segundo ele, eletrificação, direção automatizada e a experiência digital do usuário dentro dos veículos vão guiar o desenvolvimento dos próximos anos. Essas demandas impulsionam a adoção de arquiteturas centralizadas, veículos definidos por software e ciclos de atualizações contínuas, exigindo uma infraestrutura tecnológica mais integrada e flexível.
Ferreira destacou que essa transformação se apoia em pilares como comunicação móvel, computação em nuvem, novas tecnologias de software, inteligência artificial com mineração e engenharia de dados e semicondutores de alta performance. Esse ecossistema é essencial para entregar funções avançadas, conectividade total e integração entre veículo e ambiente externo. Ele também mostrou a evolução dos sistemas embarcados, que ampliaram exponencialmente seu valor no veículo, e projetou que, até 2030, o mercado global de eletrônica e software automotivos deve movimentar US$ 462 bilhões.
Já Roberto David Mendes da Silva, gerente geral de Marketing da Petrobras, expôs a estratégia de diversificação do portfólio da empresa para incluir combustíveis de baixo carbono, como o Diesel R com 5% de conteúdo renovável, a Gasolina Podium carbono neutro e o bunker marítimo renovável, além de asfaltos CAP Pro de menor impacto ambiental e do SAF – combustível sustentável de aviação.
Brasil consome mais combustível por unidade de PIB
Encerrando o primeiro dia, a mesa redonda “Desenhando o Futuro da Mobilidade“ reuniu um time de mulheres representando a Petrobras, IBP, Transpetro, Ford e GM para discutir os desafios e oportunidades relacionados ao tema. O debate destacou a necessidade de ampliar a eficiência logística e energética do Brasil, que consome quatro vezes mais combustível líquido por unidade de PIB do que economias desenvolvidas da OCDE.
As participantes reforçaram que investir em infraestrutura é essencial para reduzir custos, emissões e desigualdades, e que a descarbonização deve priorizar as soluções de menor custo por tonelada de CO₂ evitada. Houve consenso sobre o papel estratégico dos biocombustíveis, especialmente em nichos nos quais a eletrificação é menos competitiva, e sobre a importância de avaliar as emissões “do poço à roda”. Também foram discutidos os impactos das mudanças climáticas na logística, a necessidade de adaptação da indústria a diferentes modais e o uso de dados em tempo real para tomadas de decisão mais eficientes.
A mesa redonda constituída por Viviana Coelho, Ana Mandelli, Kaurrie Goes, Marinna Silva e Cátia Ferreira, respectivamente da Petrobras, IBP, Transpetro, Ford e GM, foi conduzida por Giovanna Riato, editora-chefe da Automotive Business.
Semáforos vão precisar de Inteligência Artificial
Abrindo a programação, Paula Aluani, head global de parcerias do Google/Waze, apresentou como as plataformas Google Maps e Waze apoiam cidades na gestão de mobilidade e sustentabilidade. Por meio de dados em tempo real e históricos, é possível monitorar trânsito, transporte público e infraestrutura, prever e mitigar impactos de eventos climáticos e otimizar o fluxo urbano.
Entre as soluções destacadas, o Greenlight – que ajusta semáforos com inteligência artificial para reduzir congestionamentos e emissões já implementados em algumas cidades brasileiras – e o Environment Insight Explorer, que estima emissões de CO₂, potencial de energia solar e áreas verdes. Paula ressaltou que, ao integrar informações e priorizar a segurança viária, as plataformas oferecem suporte direto à tomada de decisão de gestores públicos.
Independência energética com o etanol
Na sequência, Murilo Ortolan, diretor de Tendências Tecnológicas da AEA, fez uma leitura histórica da relação entre tecnologia automotiva e “liberdade” no Brasil – da industrialização e popularização dos veículos, à independência energética com o etanol, até a atual era da conectividade e autonomia.
Apresentou quatro eixos estratégicos que serão detalhados em white papers da AEA: descarbonização, emissões de veículos leves, segurança veicular e inteligência artificial/conectividade. Mostrou que a eletrificação combinada ao etanol oferece uma rota competitiva para descarbonizar o transporte leve, enquanto veículos pesados demandam soluções plurais – biocombustíveis, gás natural, eletrificação em nichos urbanos e, no longo prazo, hidrogênio verde e combustíveis sintéticos.
Ainda nesse painel, o consultor Rodnei Bernardino trouxe uma perspectiva sobre como a mobilidade do futuro será moldada não apenas pelo produto em si, mas pela integração entre tecnologia, finanças e experiência do consumidor. Destacou quatro vetores da nova mobilidade – eletrificação, conectividade, autonomia e compartilhamento – e como eles se desdobram em mudanças silenciosas no comportamento do usuário, que cada vez mais valoriza o acesso em vez da posse.
Veículos por assinatura em crescimento
Rodnei mostrou o crescimento dos veículos por assinatura, a expansão das soluções de mobilidade como serviço e a transformação das concessionárias em hubs de experiência e venda de serviços financeiros próprios, viabilizados por plataformas bank-as-a-service. Apontou ainda o uso de telemetria e inteligência artificial para personalizar preços de seguros e financiamentos conforme o perfil de uso do veículo, além de novas soluções para frotas corporativas, motoristas de aplicativos e economia sob demanda. E, ao final, Raquel Cardamone, CEO da Bright Cities, conduziu a sessão de debates.
Em outra palestra especial, Thiago Samarino, da ABGi, abordou o Programa Mover e outros incentivos fiscais como aliados estratégicos para atender às novas exigências ambientais e tecnológicas do setor automotivo.
Explicou a evolução do Mover desde sua criação, detalhou seus quatro pilares – eficiência energética e ambiental, reciclabilidade veicular, rotulagem integrada e tecnologias assistivas à direção – e exemplificou como cada um abre oportunidades de investimento e inovação. Destacou o papel complementar da Lei de Informática, da Lei do Bem e dos mecanismos de fomento para financiar projetos de P&D, e alertou que, embora haja recursos disponíveis, faltam bons projetos estruturados para captar esses investimentos.
Das pistas de corridas para as ruas
Para encerrar o evento, a mesa redonda “Das pistas para as ruas: a evolução da tecnologia da mobilidade”, reuniu Fernando Julianelli, vice-presidente de Branding e Inovação da HPE Automotores, empresa que representa no Brasil as marcas Mitsubishi e Suzuki; Janayna Bhering, da Fundep – Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Chico Serra, automobilista, Lucas Di Grassi, piloto, e Rogério Gonçalves, diretor de Combustíveis da AEA, com mediação de Milene Rios, repórter do Programa Autoesporte, da TV Globo.
Na pauta, a discussão de como o automobilismo acelera o desenvolvimento e a transferência de tecnologias para os veículos comerciais. Foram apresentados casos de ganhos em eficiência de motores, evolução de baterias e software de controle na Fórmula E, uso do rally como laboratório para componentes mais resistentes e de menor peso, e testes de combustíveis e lubrificantes em condições extremas.
O debate também abordou o papel do Brasil como polo de múltiplas rotas tecnológicas, explorando biocombustíveis, hidrogênio verde e eletrificação em aplicações específicas, além de ressaltar a importância de políticas públicas consistentes e cooperação entre indústria, academia e governo para transformar inovações de pista em soluções sustentáveis para as ruas.