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Avaliação: Volvo ES90 é um belo antídoto contra a mesmice dos SUVs

Sedã elétrico tem 680 cv, 524 km de autonomia e dinâmica muito melhor do que suas 2,5 toneladas sugerem; falha no sistema de bateria, porém, limitou nosso teste

31 ago 2026 - 19h13
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Resumo
O Volvo ES90 surge como uma alternativa elegante à mesmice dos SUVs. O sedã elétrico traz 680 cv, tração integral e autonomia de 524 km, destacando-se pela ótima dinâmica e cabine silenciosa e tecnológica. Seu visual estilo fastback impressiona, embora sacrifique a visibilidade traseira e o espaço do porta-malas. No teste, apesar dos fortes elogios à sua forma e desempenho, o veículo sofreu uma falha técnica pontual no sistema elétrico, que limitou sua condução e exigiu assistência técnica.

Pode me chamar de velho chato, mas sinto falta dos sedãs. Não é aquele tipo de saudade que vem acompanhada por um discurso de que carro bom morreu em 1997. Tenho saudade porque, em algum momento, a indústria automobilística parece ter descoberto uma playlist feita por algoritmo. Um esquema Spotify de produção de hits.

Você muda a capa, troca duas músicas de lugar, adiciona uma faixa que viralizou no TikTok e voilà. Está apresentada a maior novidade de todos os tempos da última semana.

Passe alguns minutos olhando o trânsito de qualquer grande cidade e tente guardar os carros que acabaram de passar. Capô alto. Um pedaço de plástico preto no para-lama para justificar uma pretensão aventureira. Traseira arredondada. Repita o processo quarenta vezes e esteja certo de que irá obter o mesmo resultado.

Há utilitários esportivos, evidentemente, ótimos. O problema é a proliferação dos SUVs anódinos. Automóveis que parecem ter sido produzidos pelo mesmo comitê que escolhe as produções originais Netflix, monta playlists de pop genérico para academia e decide qual filme animado da Disney ganhará uma adaptação live-action que ninguém pediu. Tudo foi testado. Tudo foi aprovado. Nada ofende.

Por isso foi quase que um acontecimento encontrar o Volvo ES90. O sedã elétrico da Volvo chega ao Brasil em versão única ( com preço divulgado em breve), e a própria fabricante concede que chamá-lo de sedã talvez seja pouco. Há algo de fastback em suas proporções.

Para completar, o modelo tem 524 km de autonomia, bateria de 106 kWh, dois motores elétricos e 680 cv de potência combinada, além de 88,7 kgfm de torque. O zero a 100 km/h leva quatro segundos. Quer mais? Ele é lindíssimo.

Volvo ES90 tem visual difícil de não agradar

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

O ES90 parece ter sido desenhado por alguém que ainda acredita que a silhueta de um carro importa. Há uma elegância quase milenar na maneira como a carroceria se espalha por cinco metros de comprimento, mas sem qualquer tentativa de parecer retrô.

O carro é longo, largo (1,94 m, desconsiderando retrovisores externos), tem 3,10 metros de entre-eixos e, ainda assim, parece baixo (1,55 m de altura) e esguio. A cabine se estende com naturalidade sobre a base, enquanto o teto começa a cair bem cedinho e só termina perto da extremidade traseira. Esse arco faz o ES90 escapar da imagem de um sedã executivo e ganhar aparência de cupê que fica ainda melhor ao vivo.

A Volvo até elevou ligeiramente a altura de rodagem (cerca de 18 cm) em relação a um sedã convencional, mas teve o bom senso de não transformar isso em desculpa para lhe dar uma carinha de crossover.

Na dianteira, os faróis com a assinatura clássica do Martelo de Thor seguem afilados e gráficos, quase como cortes feitos na carroceria. O restante é limpo, sem a necessidade de encher a frente do carro de vincos, entradas falsas de ar ou quaisquer recursos de design que parecem existir apenas para ocupar espaço em apresentações enfadonhas de produto.

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

No entanto, é de perfil que o carro realmente me ganhou. As enormes rodas de 22 polegadas ficam muito bem posicionadas nas caixas e ajudam a diminuir visualmente a massa do ES90. Acima delas, há poucos vincos e a linha de cintura sobe discretamente. A área envidraçada vai se estreitando e o teto despenca em direção à traseira em um movimento contínuo. Parece até simples, mas fazer um carro desse porte parecer elegante raramente é.

Há, ainda, uma consequência técnica para essa obsessão com forma. O ES90 tem coeficiente aerodinâmico de 0,25, o menor já obtido por um Volvo de produção. Num elétrico, isso está longe de ser apenas uma estatística para adocicar o release. Menos resistência ao ar significa menos energia necessária para manter o carro em movimento, algo que ajuda diretamente nos 524 km de autonomia homologados pelo Inmetro.

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

A traseira, talvez, seja a seara mais bela do carro. As lanternas principais em forma de C abraçam as extremidades da carroceria. Elementos luminosos sobem pelo vidro e criam uma assinatura desenhada para ser reconhecida a dois quarteirões de distância. Existe uma tensão bonita entre a largura da carroceria e a delicadeza dessas luzes. É um visual futurista que não remete ao batido chorume cyberpunk.

Também gosto do fato de o ES90 não tentar desesperadamente parecer agressivo. É um carro clean, sem tantas firulas. Simplesmente parece caro, sofisticado e extremamente bem resolvido.

É daqueles automóveis que mudam conforme o ângulo. De frente, é inconfundivelmente Volvo. De lado, parece quase um conceito que escapou do salão antes que a engenharia pudesse "estragá-lo". De três quartos traseiros, provavelmente sua melhor posição, o caimento do teto, os ombros largos e as rodas enormes são de embasbacar.

Eu me peguei olhando para o ES90 depois de estacionar. Mais de uma vez. Pode soar como o tipo mais clichê de elogio automotivo, mas não é tão banal em 2026. Quando praticamente todo lançamento parece uma variação do mesmo SUV, com a mesma obrigação contratual de parecer "aventureiro", um carro que provoca vontade de voltar dois passos só para observá-lo de novo é digno de elogios.

Em suma, num mercado cheio de SUVs desenhados para agradar a todo mundo e, por isso mesmo, incapazes de provocar qualquer tipo de emoção, o ES90 é um ato de teimosia. Ainda bem.

Dinâmica do Volvo ES90

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

Assim que você pisa no acelerador o ES90 entrega exatamente o tipo de alegria silenciosa que seus 680 cv de potência e, especialmente, 88,7 kgfm de torque sugerem. O sedã tem dois motores e tração integral e faz com que os quatro segundos até 100 km/h pareçam inteiramente plausíveis.

Só que foi outra coisa que mais me agradou. O ES90 tem chão. Muito chão. A primeira curva feita com alguma vontade já mostra um carro muito mais interessado em agradar o entusiasta sem abdicar do conforto. A frente entra de maneira obediente e o eixo traseiro acompanha o movimento sem transmitir a sensação de estar carregando uma bateria gigante alguns centímetros abaixo dos ocupantes.

Há, bom salientar, largura e entre-eixos suficientes para produzir uma estabilidade quase que insolente. Em curvas rápidas, o ES90 praticamente "finca" no asfalto e transmite uma confiança absoluta. É, ainda, um veículo que não faz com que a velocidade seja algo visceral ou teatral. Você aponta, acelera e o sedã simplesmente cumpre seu papel.

É claro, contudo, que Isaac Newton ainda tem direito a voto. O ES90 pesa 2.536 kg. Toda essa massa não desaparece porque colocamos uma carapaça bonita em volta dela. Ainda assim, o controle é excelente.

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

Também há algo muito Volvo na maneira como a força chega. Os números são obscenos, mas o sedã não é. O acelerador dosa bem a potência e a tração integral administra os dois motores sem transformar qualquer saída de semáforo numa demonstração imatura de capacidade.

Você até pode fazer isso, claro. Eu fiz. No entanto, o ES90 parece muito mais satisfeito quando percorre uma sequência de curvas em ritmo forte e deixa seus 3,10 metros de entre-eixos trabalharem.

Outro negócio que impressiona é o silêncio. Carro elétrico costuma ser um teste de fogo para a montadora no quesito isolamento acústico. No caso do ES90, a paz na cabine é algo surpreendente.

Mesmo com enormes rodas de 22 polegadas, é preciso prestar atenção para ouvir os pneus trabalhando contra o asfalto. A cabine é muito bem isolada. Em velocidade de estrada, dá para conversar baixo, o vento permanece distante e até a banda de rodagem, que costuma denunciar muito elétrico, chega bastante filtrada aos ocupantes. A própria Volvo diz que esta é uma das cabines mais silenciosas que já produziu. Não parece bravata.

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

Parte desse carro, bom destacar, nasceu da mesma costela técnica do EX90. O ES90 usa a arquitetura SPA2, mesma base elétrica que sustenta o SUV, embora aqui ela apareça embrulhada em um pacote muito mais interessante.

Para completar, há ainda uma pequena conveniência tecnológica que gostei bastante. Depois de configurado, smartphone compatível pode trancar, destrancar e até ligar o ES90, dispensando o cartão no uso cotidiano.

Mas aí, depois de toda a bonança, veio a tempestade. Quer dizer: veio a tartaruga.

A tartaruga de 680 cv

Não existe símbolo de tartaruga que você queira enxergar no painel de um carro de 680 cv. Durante nosso teste, o ES90 apresentou uma falha que comprometeu seriamente o restante da avaliação. Primeiro apareceu no quadro de instrumentos o aviso "Pare com segurança. Potência de condução limitada", acompanhado justamente do pequeno réptil, identificando a limitação de desempenho.

Em outro momento, a mensagem foi ainda menos simpática: "Falha do sistema de bateria. Não é possível ligar o veículo. Ligue para a assistência". Curioso é que o nível de carga indicado era de 100% e o computador mostrava estimativas entre 520 e 530 km de alcance quando os alertas apareceram.

A falha limitou a velocidade do carro e, consequentemente, o que ainda poderíamos fazer com ele. Isso importa numa avaliação. Não seria correto preencher os quilômetros que deixamos de percorrer com adjetivos, muito menos fingir que o problema não aconteceu porque eu gostei muito do automóvel.

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

Um único episódio também não permite decretar que existe um problema crônico no ES90. Seria irresponsável fazer essa extrapolação. O que posso afirmar é que a unidade que dirigi apresentou uma falha que limitou sua condução e, por conseguinte, nosso teste.

E é uma pena monumental, porque eu estava amando a experiência com o ES90.

A Volvo diz que houve "problema em um componente responsável pela inversão da alta tensão, responsável pela propulsão, para a baixa tensão, permitindo que o carro funcione da melhor maneira possível". A montadora nos garantiu que "esse foi um problema pontual".

A grande ironia é que, conforme mencionei anteriormente, a autonomia é um dos grandes trunfos do ES90. São 524 km no PBEV, apenas 46 km abaixo dos 570 km do novo BMW iX3 50 xDrive, hoje a maior marca oficial entre os elétricos comercializados no Brasil.

Além da bateria de 106 kWh, o Volvo estreia na marca uma arquitetura elétrica de 800 volts. Em uma estação DC capaz de fornecer 350 kW, a fabricante afirma que é possível recuperar até 300 km de autonomia em dez minutos, dependendo das condições de bateria, temperatura e carregamento.

É um conjunto tecnicamente impressionante. Justamente por isso aquela tartaruguinha conseguiu ser tão inconveniente.

Bonito demais para enxergar para trás

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

Existe, contudo, um problema do ES90 que não apareceu inesperadamente em um painel. Ele está desenhado na própria carroceria. É intrínseco ao modelo.

A visibilidade traseira é péssima. Péssima mesmo.

O mesmo caimento de teto que me faz achar o ES90 um dos carros mais bonitos dos últimos tempos estrangula a área envidraçada traseira. O vidro é muito inclinado e oferece uma abertura visual muito pequena a partir do banco do motorista.

Pelo retrovisor interno, minha visibilidade útil para trás foi zero. Zero mesmo, leitor.

O retrovisor interno se transforma em objeto decorativo. Acompanhar o que acontece imediatamente atrás do carro exige confiar nos espelhos externos e nas câmeras.

O sistema 360° ajuda em manobras e a eletrônica reduz parte do incômodo. No entanto, câmera de estacionamento e visão direta são coisas diferentes. Em rodovia, numa mudança de faixa ou simplesmente acompanhando o trânsito, eu ainda quero olhar para um espelho e encontrar o mundo lá atrás.

Uma solução com retrovisor interno digital faria todo sentido em um carro com esse tipo de carroceria. A Volvo, inclusive, já promete algo nesse sentido para o futuro. Até mesmo porque este é o preço mais alto cobrado pelo design do ES90 e, ao contrário das concessões que normalmente aceito em nome de um carro bonito, essa incomoda bastante.

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

O porta-malas também não se beneficia tanto do formato fastback. A tampa abre junto com o vidro, o que facilita o acesso. Segundo as especificações destinadas ao Brasil, contudo, a capacidade é de apenas 424 litros com os bancos em posição normal, mais tímidos 22 litros no compartimento dianteiro.

Cabine do Volvo ES90

Dentro da cabine, o entre-eixos gigantesco se transforma em um latifúndio para os ocupantes. O ambiente, contudo, segue a escola atual da Volvo, com poucos elementos visuais e materiais agradáveis ao toque.

Ainda prefiro botões físicos para algumas funções frequentes, e o ES90 mantém a filosofia de concentrar praticamente tudo na tela vertical de 14,5 polegadas. Pelo menos o sistema é rápido e o motorista ainda tem um quadro de instrumentos próprio de 9 polegadas e head-up display. Google Maps, Google Assistente e aplicativos da Google Play vêm integrados.

A lista de equipamentos, bom frisar, é condizente com a brincadeira. Há teto panorâmico eletrocrômico, que pode ter sua transparência alterada por meio do comando na central e filtra até 99,9% dos raios UV, segundo a Volvo.

Temos ainda climatização de quatro zonas, bancos dianteiros ventilados, faróis High Definition Pixel e câmeras 360°. Mas não para por aí.

O sistema Bowers & Wilkins merece capítulo próprio para quem gosta de música. São 25 alto-falantes e um modo que procura reproduzir a acústica de Abbey Road, lendário estúdio em Londres onde foram gravados discos de Beatles e Pink Floyd. É o tipo de frivolidade tecnológica que eu aceito com enorme facilidade.

Volvo ES90
Volvo ES90
Foto: Divulgação / Estadão

No quesito segurança o modelo dispõe de cinco radares, sete câmeras e 12 sensores ultrassônicos, além do sistema de monitoramento do motorista, alerta para abertura de portas e detecção de ocupantes na cabine. Esta última consegue identificar movimentos pequenos a fim de ajudar a evitar que uma criança seja esquecida dentro do automóvel.

Conclusão

Eu amei o Volvo ES90. À exceção daquele detalhe nada pequeno em que o carro decidiu virar uma tartaruga de 680 cv e limitar nossa condução.

Também detestei a visibilidade traseira. Num carro tão cuidadosamente desenhado, depender quase inteiramente de retrovisores externos para saber o que acontece atrás é uma concessão difícil de engolir.

Ainda assim, quero voltar ao começo. Estamos vivendo uma fase curiosa do automóvel. Nunca houve tanta tecnologia, potência ou variedade de marcas e, simultaneamente, nunca foi tão fácil olhar para dez carros diferentes e sentir que estamos vendo o mesmo carro dez vezes.

O ES90 foge disso.

Parece um sedã, flerta com um fastback e consegue atacar uma curva com uma disposição absolutamente incompatível com os 2.536 kg registrados na ficha técnica. Além disso, chega a ser irritante de tão bonito que é. É praticamente impossível criticar o visual deste modelo.

Depois de tantos SUVs anódinos produzidos como temporadas de uma série da Amazon Prime que ninguém lembra de ter começado, foi ótimo encontrar um automóvel que me fez virar a cabeça depois de estacioná-lo.

Que bom que a Volvo resolveu lançar um sedã. E que bom que resolveu fazê-lo desse jeito.

Estadão
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