Entre diversão e risco: por que jogos online exigem mais atenção dos pais
Atenção parental vai além do controle de tempo
Os jogos online já são parte integrante da infância e adolescência contemporâneas. Não é apenas sobre passar fases ou derrotar chefes: trata-se de mundos sociais, economias próprias e comunidades amplas onde milhões de crianças constroem, exploram e se conectam. Mas essa socialização — que é parte da magia do meio — também traz desafios complexos para quem cuida de quem joga.
Para além das horas em frente à tela e do botão de ligar/desligar, hoje a conversa que muitos pais precisam ter com seus filhos gira em torno da segurança, privacidade e dos limites das interações online.
Ambientes que funcionam como espaços sociais — e nem sempre seguros
Jogos contemporâneos conectados, como Roblox, Minecraft, Fortnite, Among Us ou Genshin Impact, se tornaram espaços de encontro para crianças e adolescentes. Eles não apenas jogam: conversam por chat de texto e voz, criam grupos sociais e dependem dessas interações para completar tarefas e atingir objetivos.
Esse componente social adiciona profundidade e diversão, mas também abre portas para comportamentos inadequados, linguagem tóxica, assédio e até tentativas de manipulação por parte de terceiros — desafios que transcendem os controles parentais tradicionais.
Se há uma plataforma que sintetiza essa complexidade, é o Roblox — uma espécie de “metaverso infantil”, onde milhões de jogadores de várias idades se encontram em mundos criados por outros usuários. Mas esse universo expansivo tem enfrentado questionamentos sobre segurança infantil e controle de comunicação.
Recentemente, a plataforma passou a exigir verificação de idade para que jogadores possam acessar o chat de texto e voz, usando tecnologia de análise facial ou validação de identidade — uma medida que se tornou obrigatória globalmente no início de 2026.
A justificativa oficial é clara: limitar a comunicação entre adultos e crianças e evitar que menores conversem com pessoas de faixas etárias muito diferentes, reduzindo riscos de predadores e conteúdos inadequados.
A Roblox afirma que essas mudanças representam um patamar avançado de segurança digital e que o consentimento dos pais será necessário para que usuários com menos de 13 anos façam a verificação e participem do chat.
Mesmo assim, nem tudo aconteceu em clima de consenso.
Protestos e polêmica: o lado B da proteção
Minecraft também é bem popular entre os jogadores jovens
Em resposta à nova política, muitos usuários — especialmente crianças e pré-adolescentes — reagiram com protestos virtuais dentro da própria plataforma. Jogadores organizaram manifestações em seus avatares com “cartazes” dentro de jogos, criticando a retirada do chat tradicional e exigindo a revogação das regras.
Curiosamente, a insatisfação de parte da comunidade mais jovem do Roblox acabou sendo direcionada a um alvo externo às decisões da plataforma. Muitos jogadores passaram a responsabilizar o influenciador digital Felca pelas mudanças no chat, associando seu nome às novas regras, o que levou o criador de conteúdo a se pronunciar publicamente para esclarecer a situação.
Como o nome de Felca ganhou projeção nacional no ano passado após a repercussão do vídeo “Adultização”, que levantou discussões importantes sobre a exposição e a segurança de crianças na internet, muitas crianças no Roblox acreditam que a decisão de restringir o chat tenha sido influenciada por isso.
Esse episódio recente ilustra bem um ponto crucial: medidas de segurança podem ser percebidas como censura ou limitação, especialmente por quem vive a internet de forma natural e cotidiana. Mas isso não diminui, necessariamente, a importância de tais medidas — apenas mostra o quão delicado é equilibrar diversão, liberdade e proteção em ambientes que misturam jogo e rede social.
O papel dos pais não é só vigiar — é orientar
Com debates como o de Roblox, fica ainda mais evidente que atenção parental não se resume a limitar tempo de jogo, mas a dialogar sobre o que acontece durante e fora das partidas.
Jogar junto, entender com quem seu filho conversa e aprender sobre as ferramentas de segurança da plataforma é muito mais eficaz do que bloquear tudo sem explicação.
Ferramentas como controles parentais, limites de comunicação e supervisão de contas são valiosas — mas a melhor proteção começa quando aprendemos a conversar com os filhos sobre o que encontram nesses espaços, quais perigos existem e como diferenciar uma experiência online saudável de uma que exige cuidado.
Diversão com responsabilidade
O mundo dos jogos online é vasto, vibrante e cheio de possibilidades. Ele pode ser, e é, um ambiente de aprendizagem, criatividade e socialização. Mas, como qualquer espaço público, traz riscos que não desaparecem simplesmente desligando a tela.
A polêmica recente em torno do Roblox mostra que estamos diante de uma nova fronteira da cultura gamer: um espaço onde diversão e cuidado caminham lado a lado, e onde pais e educadores precisam estar tão conectados quanto seus filhos.
Porque no fim das contas, mais do que proibir, é fundamental ensinar a navegar com segurança — seja em mundos pixelados ou nas complexas redes da vida real.