0

Wladimir sente falta de Sócrates e reclama de racismo

Em entrevista exclusiva ao Paradinha Esportiva, jogador diz que preconceito explica ausência de negros em cargos de gestão no futebol

18 out 2019
19h34
atualizado às 21h55
  • separator
  • 0
  • comentários

Wladimir completou 65 anos em agosto. Antes de começar a entrevista, ele tinha acabado de finalizar uma corrida no condomínio onde mora, na Grande São Paulo. “Não consigo ficar parado. Tenho que sempre estar fazendo alguma coisa”, comentou o ex-lateral esquerdo, que continua batendo uma bolinha semanalmente, quando tem jogo do Masters do Corinthians. “Quando tem oportunidade, a gente vai. No Masters, particularmente, ainda não perdi”, garante.

Marcelo Tieppo entrevista Wladimir.
Marcelo Tieppo entrevista Wladimir.
Foto: Terra

Em meio a troféus e lembranças na casa onde na década de 80 rolavam os churrascos da Democracia Corinthiana, em dias que seriam de concentração (abolida pelo movimento), três miniaturas do Dr. Sócrates chamam a atenção. E Wladimir não esconde a emoção ao relembrar do craque, que morreu em 2011, e teria a mesma idade que ele se estivesse vivo. “O Sócrates faz falta, o Sócrates foi genial como pessoa, como cidadão e como ser humano, foi genial. Eu conheci pouquíssimas pessoas como ele assim. A gente tinha uma afinidade legal, foi uma experiência única ter conhecido o Sócrates, que tinha uma capacidade intelectual diferenciada.”

Wladimir também falou sobre racismo, o estrutural, que faz com que jogadores negros, que são maioria no futebol, não sejam escolhidos para gerenciar clubes quando encerram a carreira. No Brasileirão, por exemplo, só há dois treinadores: Marcão, do Fluminense, e Roger, do Bahia. “Com toda a história que vários, vários jogadores tiveram nos seus clubes a gente vê poucos como essa oportunidade de intervir no futebol. Isso é consequência do preconceito que a gente vive no país até hoje.”

O lateral, que tem 806 jogos pelo Timão, também citou casou em que foi envolvido diretamente. “Eu fui vítima de racismo como jogador. Na região Sul do país existe poucos negros lá e a maneira que eles achavam de nos agredir e de nos ofender era chamar de negro. Só podia ser negro mesmo, eles diziam isso durante os jogos. Isso tá arraigado na sociedade brasileira, tem a ver com a forma como o negro chegou no Brasil, como subalterno, aquela subserviência”, ressaltou Wladimir.

Na casa onde mora, Wladimir tem um lugar reservado na sala para alguns dos troféus, que ganhou durante a carreira. No local também há três miniaturas de Sócrates, o amigo e companheiro da Democracia Corinthiana.
Na casa onde mora, Wladimir tem um lugar reservado na sala para alguns dos troféus, que ganhou durante a carreira. No local também há três miniaturas de Sócrates, o amigo e companheiro da Democracia Corinthiana.
Foto: Gabriel Tieppo

Para o ídolo corintiano, só o conflito poderia mudar essa situação. “Os crimes de racismo não são combatidos como deveriam. As pessoas estão à vontade pra se expor. A gente espera que um dia chegue no nível dos negros norte-americanos, que tiveram uma luta árdua contra o preconceito e acabaram nivelando as etnias. Essa situação só se reverte quando há conflito. Conflito rigoroso aí sim você consegue equilibrar.”

Wladimir terminou a entrevista dizendo que deixou o futebol com a sensação do dever cumprido. “Tive um período maravilhoso no Corinthians. Se tivesse encerrado, sem ter vivido isso eu estaria frustrado. A gente cumpriu a missão. Eu viveria tudo de novo se tivesse que recomeçar eu faria tudo de novo.”

Veja abaixo na íntegra a segunda parte da entrevista que Wladimir concedeu para a Paradinha Esportiva com exclusividade:

Paradinha Esportiva
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade