Já me ofereceram casa, comida e quimono lavado, brinca Kyra Gracie
- Allan Farina
O mundo das lutas pode ter um toque de beleza. Quem comprova isso é Kyra Gracie, tetracampeã mundial de jiu-jitsu no peso leve e herdeira da lendária família. A lutadora de 25 anos superou desconfiança de seus próprios parentes e provocações masculinas para se fixar como um dos grandes nomes da "arte suave" no mundo.
"Toda hora ouço alguma gracinha. Ficam me oferecendo 'casa, comida e quimono lavado', disse Kyra em entrevista ao Terra. A brasileira traz aos tatames a delicadeza típica das mulheres, mantendo sua vaidade e sendo bem sucedida da mesma maneira. "Quero mostrar que é possível ser feminina e continuar lutando", afirmou.
A lutadora venceu o Mundial de jiu-jitsu quatro vezes no peso leve, em 2004, 2006, 2008 e 2010, além de ter conquistado um ouro absoluto em 2008 e mais quatro medalhas de prata. Agora Kyra pretende brilhar além do tatame. A herdeira Grace pretende se aventurar no mundo do MMA (artes marciais mixas), categoria que ganha cada vez mais espaço no mundo. "Tenho vontade de estar no meio de tudo isso", contou. Confira a entrevista na íntegra a seguir:
Terra - Como você começou a praticar o jiu-jitsu?
Kyra Gracie -
Desde que nasci sempre tive um quimoninho. Nasci e cresci vendo minha família lutar. As brincadeiras em casa sempre eram de luta, no tatame, então aprendi brincando. Mas achava que luta era coisa de menino, então fiz balé também. Quando eu tinha uns dez anos, minha mãe começou a levar a luta mais a sério, chegou à faixa azul e tive nela um espelho. Comecei a competir aos 11 e não parei mais.
Terra - Como seus parentes reagiram à sua entrada no mundo da luta? Todos apoiaram ou alguém achou que por você ser mulher não deveria entrar no ramo da família?
Kyra Gracie -
Dentro da família, toda mulher chega a praticar o jiu-jitsu, brinca um pouco, mas ninguém realmente tinha treinado de verdade até a minha mãe. Então, quando comecei, não era nada incentivada. Falavam para eu parar, para deixar com eles. Mas quando viram que eu levei a sério de verdade, me deram apoio. Hoje treino com eles, são meus professores. E tenho várias primas que lutam, há mais interesse.
Terra - Ter o sobrenome Gracie lhe abre muitas portas no mundo do jiu-jitsu. Mas como é lidar com a responsabilidade de carregar a bandeira da família?
Kyra Gracie -
A expectativa vem de fora. Sempre esperam que um Gracie ganhe, finalize todas as lutas, mas dentro da minha família o apoio é muito bom. Então me foco bastante no meu treinamento. Antes, quando eu era menor, sentia essa responsabilidade, mas hoje isso não me atrapalha mais.
Terra - Você já pratica outras lutas? Pretende entrar no mundo do MMA?
Kyra Gracie -
Eu já treinei wrestling e sou faixa verde de judô. E venho treinando boxe, mas não tenho nada certo. Tenho um manager trabalhando comigo nos Estados Unidos, está negociando alguns eventos. É algo que pode acontecer. Tenho vontade, vejo que o MMA está crescendo e tem uma visibilidade muito grande nos Estados Unidos. A Cris Cyborg conseguiu ótimos resultados por lá, lutou final com transmissão em TV aberta. Eu tenho vontade de estar no meio de tudo isso.
Terra - Você costuma enfrentar muitos homens no tatame?
Kyra Gracie -
Eu treino mais com homens. Quando comecei, só tinha eu de menina no tatame, então não tinha muita escolha. Até hoje na minha academia só tem mais uma menina faixa preta, então preciso praticar com homens. Eles são mais fortes fisicamente, então acabo treinando mais pesado.
Terra - E eles tentam aliviar para você ou lutam com ainda mais vontade?
Kyra Gracie -
Eles não querem perder para uma mulher de jeito nenhum (risos). Então sempre vêm com tudo para cima. Eles não querem escutar depois gracinha de amigo do tipo "ah, você perdeu para uma mulher".
Terra - Já teve que lidar com algum engraçadinho em lutas? Ouve muitas piadinhas e comentários ou os homens evitam, já que você é uma faixa preta?
Kyra Gracie -
Fora do tatame é sempre, toda hora ouço alguma gracinha. Ficam me oferecendo "casa, comida e quimono lavado" (risos). Não pensam na questão de eu ser faixa preta. Mas mesmo assim, eu tenho o controle de não bater em ninguém, isso é algo que o jiu-jitsu me ensinou. Só me defenderia.
Terra - Você é vaidosa? Gosta de se arrumar antes de uma luta ou deixa isso pra depois das competições?
Kyra Gracie -
Eu sempre tento trazer alguma coisa mais feminina para o jiu-jitsu. Pinto minhas unhas de rosa, uso quimono rosa, sempre me maquio. Quero mostrar que é possível ser feminina e continuar lutando. Para ser campeã, não precisa se masculinizar. Hoje em dia existem mais lutadoras adotando esse estilo. Mas infelizmente tem muitas meninas que são bem masculinas (risos).
Terra - Quando você decidiu dividir seu tempo com projetos sociais? Qual a importância do jiu-jitsu para as crianças que você ajuda (ela participa dos projetos Família Santa Clara e Frei Gaspar, ambos em Vargem Grande, no Rio de Janeiro)?
Kyra Gracie -
Sempre gostei de ajudar. Desde pequena minha mãe me incentivava a doar minhas coias, e quando fiquei mais velha, participei de algumas atividades filantrópicas. Era durante o Natal, alguma arrecadação de alimentos. Mas percebi que isso não era o bastante e vi que o jiu-jitsu poderia mudar a vida de muitas crianças. Já tenho 200 garotos que treinam comigo e dá para ver uma diferença bem grande fora do tatame. A questão do respeito mudou muito. Várias crianças que estavam na rua tem um comportamento bem melhor agora, respeitam os pais, vão melhor na escola. E não acontece de querer brigar com amigo na escola, sou bem rígida em relação a isso. O objetivo é aprender a se defender e a praticar o esporte.
Terra - Você e a Luanna Alzuguir (campeã mundial do peso leve em 2009 e do absoluto em 2010) se enfrentaram várias vezes? Há uma rivalidade entre as duas?
Kyra Gracie -
A gente tem lutado muito. Todas as finais desde 2008 eu faço contra ela, então querem criar uma rivalidade há muito tempo. Mas isso não existe. Ela é do meu peso, então sempre acabamos fazendo a final juntas.