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Cidade de Campinas apoia o "clube-empresa" Red Bull

26 mai 2010 - 19h04
(atualizado em 26/5/2010 às 12h25)
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Diego Freire
Direto de Campinas

O presidente do Red Bull Brasil, Pedro Navio, parece exagerado ao convidar os torcedores para os jogos do clube. "Nossos jogos são muito mais do que simples partidas de futebol, são eventos", afirmou o dirigente em guia produzido pela Federação Paulista de Futebol. Com pouco mais de dois anos de vida, a filial campineira do Red Bull Salzburg, atual bicampeão austríaco, conquistou uma ascensão meteórica que já o tornou conhecido no futebol paulista. Conhecido e polêmico.

A equipe simboliza um fenômeno ainda recente no Brasil, que gera mais aversão do que simpatia entre a maioria do público. É um clube que pertence a uma empresa, como são Pão de Açúcar-SP, Olé Brasil-SP e Sendas-RJ, entre outros que surgem e rapidamente têm alcançado sucesso, desbancando times mais tradicionais.

Para compreender melhor o que essas instituições representam, o Terra conversou com torcedores presentes no jogo Red Bull 3x2 Ferroviária, partida final da Série A3 do Campeonato Paulista. Realizada no Moisés Lucarelli, a decisão levou 2.775 pagantes ao estádio.

"Ao meu ver, nós estamos vivendo a quarta geração do futebol no Brasil. A maioria dos clubes mais antigos vivem com administrações do passado. Com isso, alguns fizeram parcerias nos anos 90 e tentaram profissionalizar suas gestões, mas sem sucesso. Depois vieram os clubes que queriam ser empresas, como o Grêmio Prudente. E agora temos o Red Bull, que é uma empresa que tem um time. Pra mim esse é o futuro do futebol", raciocina Edson Silva, que frequenta a maioria dos jogos do Red Bull e ganhou a alcunha de "torcedor-símbolo" da equipe.

Um ambiente mais "leve" nos estádios

Residente em Vinhedo, município da região de Campinas, Edson gosta de levar a filha Barbara, de sete anos, aos jogos. O ambiente encontrado nas arquibancadas do Red Bull é diferente daquele que se costuma ver nos estádios: uma torcida organizada que não usa palavrões; o público formado por um número acima da média de idosos, mulheres e crianças; e o relacionamento mais civilizado com os jogadores, raramente vaiados - embora seja de se supor que os bons resultados do time contribuam muito para isso.

Esse cenário, somado a projetos sociais que levam jovens de comunidades carentes ao Moisés Lucarelli e eventuais campanhas da marca Red Bull envolvendo o clube, têm elevado a média do público. Apoiado nisso, o time sonha em um dia possuir alguma torcida própria. Ao menos o posto de segundo clube de muitos campineiros, o Red Bull já alcançou.

A terceira força de Campinas

O futebol da cidade nunca obteve êxito em manter uma terceira força, além de Guarani e Ponte Preta. Ligado ao ex-atacante Careca, o Campinas F.C. foi a experiência mais bem-sucedida nesse sentido, representando o município por mais de dez anos, até se mudar para Barueri, no início de 2010.

Fundado em 2008, o Red Bull Brasil aproveitou a lacuna deixada pelo "rival" e ganhou rápido destaque por conta da sua trajetória vencedora (o time foi campeão da Série B do Paulista em 2009 e da A3 em 2010).

"Eu queria que o meu filho fosse sãopaulino, que nem eu, mas não duvido que ele possa torcer para o Red Bull, ainda mais se o clube continuar tão bem organizado e ganhando títulos", confessou Simone Lucimaro, assistindo ao jogo com o filho de um ano no colo.

A nova equipe demonstra potencial não apenas para cativar futuros torcedores, mas também para atrair qualquer pessoa descontente com o próprio time. O aposentado Valter Mendes, de 74 anos, se diz ex-palmeirense, atualmente sem nenhum clube. "Por lazer eu venho ver o Red Bull e gosto do que vejo", assume.

O clima pacífico das partidas do Red Bull, no entanto, deve ser colocado à prova em breve. O jogo contra o Guarani, pela Série A2 do Paulista do próximo ano, exigirá certa atenção. Por mandar suas partidas no estádio Moisés Lucarelli, a equipe é mais identificada com a Ponte Preta, recebendo, inclusive, um grande número de torcedores com o uniforme do time alvinegro em seus jogos. Camisas do Guarani, por outro lado, não parecem ser bem-vindas.

Exemplo disso é a pontepretana Maria Lucia Volta, frequentadora dos jogos do Red Bull por serem "mais tranqüilos do que os da Ponte". Fanática, ela reconheceu, na outra ponta da arquibancada, o lateral direito Eduardo Arroz, que se recupera fisicamente para voltar à Ponte Preta em breve. O atleta foi mais um morador de Campinas que acordou cedo no domingo para ir com a família assistir ao jogo do Red Bull.

"É muito bom para o esporte de Campinas que esse time cresça, e é um programa gostoso de lazer com a família. Vim prestigiar", contou o jogador, que também tem amigos que jogam na equipe campeã da A3.

Para rivais, clube representa "algo negativo" ao futebol

A poucos metros de Eduardo Arroz, no setor de visitantes do estádio Moisés Lucarelli, treze torcedores da Ferroviária entoavam os cantos que o Red Bull se acostumou a ouvir por onde passa, de ódio ao futebol moderno e aos "clubes-empresa".

Henrique Nakada, funcionário do correio de Araraquara que acompanha o time da cidade por todo o estado de São Paulo, lamenta os rumos atuais do futebol. "Estrutura e poder eles têm, mas eles só querem fazer dinheiro, não há nenhum comprometimento com a cidade. A Ferroviária representará Araraquara sempre, mas quem garante que o Red Bull não vai fazer igual o time de Barueri que foi pra Presidente Prudente?", questiona.

Para se consolidar no futebol, é evidente que o Red Bull, mais do que conquistar títulos, ainda terá que superar a grande rejeição. Um episódio na reta final da Série A3 ilustra bem essa situação: o Comercial de Ribeirão Preto, um dos principais rivais da equipe na busca pelo acesso, fechou patrocínio com uma marca concorrente de energéticos, a 220V, para as últimas partidas do campeonato. A ideia era ganhar um "gás" e alfinetar o clube-empresa.

"É claro que eu comemoro mais as derrotas do Red Bull do que dos outros, porque eles representam algo negativo para o futebol", admite Tanada. O torcedor-símbolo Edson Silva acredita que com o tempo essa visão mudará: "depois de entender o que o projeto do Red Bull significa, as pessoas ficam admiradas. Claro que o futebol é paixão também, mas é importante ter uma visão mais racional. Com a Copa no Brasil em 2014, torço para que o profissionalismo ganhe espaço. Não somos um time de mercenários, as pessoas vão entender isso em breve".

Torcida do Red Bull
Torcida do Red Bull
Foto: Diego Freire / Terra
Fonte: Especial para Terra
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