Técnicos da NFL ainda hesitam sobre conversões de dois pontos
Muito antes que Peyton Manning dilacerasse a defesa do New York Jets na disputa do título da conferência americana (AFC) da NFL, em 24 de janeiro, os técnicos de seu time, o Indianapolis Colts, tiveram de enfrentar uma das mais complicadas decisões que encaram a cada partida.
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Quando Manning conseguiu completar um passe de touchdown para Austin Collie, os Colts estavam cinco pontos atrás dos Jets, pouco antes do final do primeiro tempo. Uma conversão de dois pontos, em lugar do chute de ponto extra, que vale apenas um ponto, teria reduzido a diferença no placar a apenas três pontos - ou seja, permitiria um empate com um field goal. Mas Jim Caldwell, baseado na mistura de estatísticas e intuição que ajuda a determinar esse tipo de escolha já há décadas, optou pela jogada segura e pelo chute de ponto extra.
"Sobre esse assunto nós já tínhamos conversado muito antes que o touchdown fosse marcado, e determinado que optaríamos pelo chute de ponto extra porque ainda era cedo na partida", disse Caldwell. "Se fosse mais tarde, tentaríamos a conversão de dois pontos, mas porque era cedo demais não sentimos que houvesse necessidade de fazê-lo".
Parece simples. Mas não é. Quarenta anos depois que Dick Vermeil, então assistente técnico no time de futebol americano da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), montou a tabelinha rudimentar que continua a orientar seus colegas quando chega o momento de tomar esse tipo de decisão, as conversões de dois pontos continuam a confundir os técnicos, que muitas vezes optam pelo momento errado - e pela jogada errada - para tentá-la.
Nesta temporada, o técnico do Miami Dolphins, Tony Sparano, inexplicavelmente escolheu uma conversão de dois pontos quando sua equipe liderava por vantagem de 11 pontos no final de uma partida contra os Jets, e depois do jogo ofereceu uma explicação muito confusa sobre os motivos da decisão.
É uma escolha tão repleta de incertezas, e a área cinzenta que separa o certo do errado é tão confusa, que até mesmo um professor de estatística da Universidade Rutgers que analisou as conversões de dois pontos e em geral defende seu uso mais frequente hesitou quanto ao que escolheria se estivesse na situação de Caldwell.
Agora a caminho de um Super Bowl que todos esperam que apresente placar dilatado, entre duas equipes dotadas de ataques explosivos, Caldwell e seu oponente, Sean Payton, o técnico do New Orleans Saints, provavelmente terão muitas oportunidades de testar sua competência e sangue frio ao decidir se tentam ou não conversões de dois pontos no jogo mais importante de suas carreiras.
"Quando eu faço isso, o impacto da decisão não me afeta", disse Harold Sacrowitz, o professor da Rutgers. "Por isso, estudo a situação e declaro que os números determinam isso ou aquilo. Mas, se meu emprego dependesse da escolha, seria mais um fator a considerar no cômputo".
A AFL, uma antiga federação de futebol americano profissional, permitia as conversões de dois pontos, mas quando se fundiu com a NFL em 1970, a regra não foi adotada pela NFL expandida que surgiu do acordo. Isso aconteceu mais ou menos na época em que Vermeil estava trabalhando para Tom Prothro, então técnico chefe da UCLA e renomado pela boa cabeça para a matemática e o bridge. Os dois montaram a primeira tabelinha de decisão para jogadas de dois pontos, a fim de ajudá-los a refletir melhor sob pressão. Por anos, Lamar Hunt, o proprietário do Kansas City Chiefs, fez lobby pelo retorno da conversão de dois pontos na NFL, mas ela só foi autorizada em 1994.
"Foi necessário muito tempo para incluir essa regra, porque os técnicos realmente não gostam dela", disse Gil Brandt, ex-executivo de pessoal do Dallas Cowboys e hoje analista de contratações de futebol americano na NFL.com. "O motivo para que os técnicos não gostem é que ela permite que suas decisões sejam contestadas por todos em ainda mais uma área".
Com as regras de paridade que tornaram a liga mais competitiva, o que está em jogo em cada decisão sobre uma conversão de dois pontos jamais foi tão importante. Na temporada regular de 2009, 64,8% dos jogos mostravam diferença de oito pontos ou menos no placar no período final, o momento em que a maioria dos técnicos diz que começa a avaliar o uso das conversões de dois pontos (Rex Ryan, dos Jets, diz que ele jamais usaria esse recurso antes da descida final do terceiro período).
A despeito de jogos de placar mais apertado, que parecem exigir seu uso, os técnicos não estão se sentindo mais confortáveis quanto ao uso da conversão de dois pontos. De acordo com o Football Outsiders, um site dedicado à análise estatística da NFL, as equipes da liga tentaram 53 conversões de dois pontos durante a temporada regular de 2009 (sem contar chutes errados de ponto extra que terminaram se transformação em conversão de dois pontos). É o terceiro menor total em 12 anos, e bem abaixo das 98 tentativas de 1998.
Nesta temporada, as equipes converteram 45,3% das tentativas, bem abaixo dos 60% de 2006, quando os técnicos usaram a conversão de dois pontos de maneira modesta, com apenas 35 tentativas; o índice de conversão de 2009 foi o mais baixo desde 2000.
Ainda assim, os índices de acerto estavam em torno ou acima dos 50% até apenas três anos atrás, e caíram só nas duas últimas temporadas. Um problema é que os técnicos não parecem capazes de decidir se a conversão de dois pontos funciona melhor como jogada de passe ou de corrida. De acordo com o Football Outsiders, 73,6% das conversões de dois pontos nesta temporada aconteceram na forma de jogadas de passe, mesmo que seu índice de sucesso fosse apenas de 41%. Corridas obtiveram sucesso em 57% das ocasiões. De 1998 para cá, o passe vem sendo mais usado que a corrida, ainda que apenas em uma temporada, 2002, esse método tenha superado as corridas em termos de acertos, em casos de conversão de dois pontos.
"Acredito mais em minhas chances de me defender contra uma conversão de dois pontos do que em minhas chances de atacar", disse Ryan, cuja equipe acertou duas das cinco conversões de dois pontos que tentou na temporada. Cada técnico tem sua versão da tabela de Vermeil, que foi se alterando ao longo do caminho. A versão mais básica simplesmente determina se é melhor recorrer ao ponto extra ou a uma conversão de dois pontos com base na vantagem ou desvantagem que exista no placar.
Até mesmo Vermeil reconhecia que sua versão da tabelinha tinha um defeito fatal: não considerava quanto tempo restava no jogo ou outras das variáveis imprecisas que técnicos precisam considerar, como a força do ataque de seu time ou a da defesa do adversário na end zone.
Brian Billick, antigo técnico do Baltimore Ravens, diz que a probabilidade de tentar uma conversão de dois pontos era maior jogando fora de casa, porque achava mais fácil sua equipe vencer com esse tipo de jogada do que ficar exposta a uma possível prorrogação. E Billick disse que em casa preferia o ponto extra e o empate à conversão de dois pontos porque a defesa de seu time era forte o bastante para deter os ataques adversários em uma prorrogação.
"Não creio que seja uma situação que se possa aperfeiçoar", disse Vermeil. "Digo o seguinte: é provável que os técnicos tentem a conversão de dois pontos menos do que deveriam. Agora que assisto pela TV e não estou sob pressão, é fácil dizer que eles são medrosos por não tentar".
Sacrowitz concorda. Ele emprega um programa de computador que calcula o número provável de posses de bola que restam em um jogo. O programa cria uma tabela que essencialmente distingue entre decisões óbvias e aquelas que ficam na área cinzenta, ou seja, aquelas em que a conversão de dois pontos deve ser escolhida ocasionalmente e o ponto extra em outras situações.
Sacrowitz diz que ocasionalmente assiste a um jogo e fica tão convicto de que o técnico errou que envia um bilhete a ele. O professor só conversou sobre suas constatações com uma equipe - o New England Patriots - mas recebeu muitas respostas de outros treinadores.
"Eles dizem que pensaram no caso, mas que se sentem confortáveis com o que decidiram", diz Sacrowitz, "Não creio que tenham nada de firme em que basear essa posição".
Sacrowitz gostaria de mudar essa tendência. Ele personaliza tabelas com base no pessoal de um time e no do oponente. Sua opinião inicial foi a de que Caldwell deveria ter tentado a conversão de dois pontos no final do primeiro tempo da decisão da AFC, mas depois ele fez os cálculos levando em conta o ataque dos Colts e o dos Jets e revisou sua opinião. Caldwell estava certo ao optar pelo chute de ponto extra, já que o jogo estava ainda no começo, diz Sacrowitz.
Mas ele acredita que os técnicos em geral deveriam tentar mais vezes a conversão de dois pontos, e que isso deveria ser feito a partir da metade do terceiro período. Herm Edwards, que treinou os Jets e os Chiefs, afirmou que esperava até os três minutos do quarto período para começar a considerar a questão. Em um Super Bowl, decidir errado quanto a isso poderia custar um título.
Sacrowitz chegou tarde demais para ajudar Vermeil, que descobriu as limitações de sua tabela ao considerar uma conversão de dois pontos em partida contra o Patriots, em 2002. Depois de um touchdown, os Chiefs ainda tinham um ponto de desvantagem e o jogo estava no fim. Vermeil decidiu chutar o ponto extra, e a partida ficou empatada.
O técnico reconhece que não considerou a facilidade ofensiva de seu time naquele jogo, e não sabe por que ficou preocupado com suas chances de marcar os dois pontos depois de uma partida em que seu ataque havia conquistado 400 jardas de avanços. Mas ele optou pelo chute de ponto extra e foi derrotado na prorrogação, sem recuperar a posse de bola. Vermeil diz que tomou a decisão errada.
Quatro anos mais tarde, os Chiefs derrotaram o Oakland Raiders quando Vermeil arriscou e trocou um field goal de sucesso quase garantido por uma chance de touchdown no final do jogo. Uma hora depois da partida, Hunt, o dono do time, visitou o técnico em seu escritório no estádio."Ótima decisão", Vermeil recorda que Hunt comentou. "Ainda acho que deveríamos ter tentado os dois pontos contra os Patriots".
Tradução de Paulo Migliacci.