Censura na F1 e automobilismo? FIA revisa regras para pilotos
FIA oficializa novas regras que tornam mais difícil a defesa de posições e causas não só na F1 mas no automobilismo como um todo. Como fica?
Quando você não tem como controlar, o que se faz? Não se deixa fazer. Como faz normalmente, a FIA fez diversas modificações no Código Internacional Desportivo para algumas adequações. Entre vários itens, houve a inclusão do tem 12.2.2.n, que diz o seguinte:
“A realização ou demonstração em geral de declarações ou comentários políticos, religiosos e pessoais notadamente em violação ao princípio geral da neutralidade promovida pela FIA em seus estatutos, a menos que previamente aprovado por escrito pela FIA para competições internacionais ou pela Autoridade Nacional Esportiva relevante para as competições nacionais em suas jurisdições”.
De certa forma, é a formalização de uma política que ganhou maior espaço este ano. Já vinham sendo feitas anteriormente, porém ganharam mais atenção com a posse de Mohammed Ben Sulayem no comando da FIA. Estas regras se aplicam ao esporte a motor como um todo, mas a F1 acaba chamando mais atenção pelo seu tamanho e alcance.
Se recordarmos, já tínhamos a alteração de protocolo para que não se utilizasse nenhum tipo de camisa fora do previsto, de maneira a evitar repetições cenas como Hamilton usando uma blusa sobre o caso Breonna Taylor e Vettel com uma camisa em prol da comunidade LGBTQ+ na Hungria.
Porém, a FIA quer manter um ambiente controlado. A F1 promoveu ações contra o racismo e contra a Guerra na Ucrânia. E isso até poderia se enquadrar na questão da “promoção dos valores de direitos humanos e de combate a preconceitos”.
Em tempos em que países com posturas, digamos, “controversas” chegam como potenciais investidores e anfitriões de eventos e categorias esportivas, criar o mínimo de ruído é necessário para garantir o cheque. Acabamos de ver isso na Copa do Mundo de Futebol Masculino e a própria F1 vem apertando o cerco.
Em vários momentos, achei que o esporte não deveria se misturar com estas questões. Mas o tempo faz ver que tudo está interligado. Da mesma forma que é uma opção não se posicionar, é uma opção se dizer o que pensa e testar os limites. De chamar a atenção para coisas que passam batidas ou que não se quer ver.
Até entendo que a FIA tem o direito de tentar controlar. Entretanto, do modo que a coisa está colocada, pode dar margem para que haja punição por declarações que sejam consideradas “inadequadas” fora dos eventos oficiais. Muitos talvez aplaudiriam se um atleta fosse punido por defender o nazismo, por exemplo. Mas e se, por exemplo, um outro piloto questionasse a situação do racismo nos Estados Unidos, o direito das mulheres na Arabia Saudita ou a guerra no Iemen em uma entrevista?
Vejam: não é uma questão de passar pano, mas sim de ver até onde pode ir o limite deste tipo de ação. Em um momento em que o “sportwashing” está a pleno vapor e diante de todos os bilhões envolvidos, o erro na dosagem por qualquer um dos lados envolvidos poderá criar uma situação extremamente pesada.
Por exemplo: o uso de um capacete contra a extração de petróleo de areia por parte de Sebastian Vettel no Canadá criou uma saia justa. Dentro desta nova norma, pode se entender que, para o piloto usar este tipo de equipamento, teria que ter a aprovação da FIA.
É mais um capítulo nesta história, que ainda nos dará mais unidades à frente. Embora normalmente os pilotos tenham olimpicamente mantido distância destes assuntos espinhosos, temos alguns como Vettel e Hamilton que usam a sua exposição para levantar bandeiras. Alguns concordam, outros acham que não. É um tema que não pode se ficar alheio.