Trigo russo parece mais palatável, avalia mercado
As informações trazidas da Rússia por uma missão formada por quatro empresas do Brasil e uma trading, com o objetivo de avaliar o trigo russo, indicam que o cereal desse país teria características um pouco mais apreciadas em relação ao produto do Rio Grande do Sul, ao contrário do que se dizia anteriormente, segundo fontes do mercado brasileiro.
A avaliação inicial era de que o trigo russo, com características mais "soft", para a produção de farinha para a indústria de biscoito, seria semelhante ao do Rio Grande do Sul, um produto que sobra no país e, vez por outra, é até exportado.
Mas a missão dos brasileiros, que retornou ao país na semana passada, verificou que o produto russo tem algumas vantagens em relação ao produto gaúcho, que competiria diretamente com o cereal russo pelo mercado do Nordeste, para onde as exportações russas seriam mais prováveis, disseram as fontes.
"As características são um pouco diferentes, o gaúcho puxa mais para o ''soft''. E apesar de tudo, o russo é um ''semi hard'', não tem a força de glúten que a gente precisa, mas talvez seja um pouco melhor", afirmou uma fonte de um grande grupo do setor de moagem de trigo do Brasil.
A fonte, que recebeu informações dos integrantes da missão e preferiu não ser identificada, acrescentou: "Eles acharam que o trigo russo é um pouquinho superior ao gaúcho, esse é um fator sim".
No início do mês passado, segundo fontes do mercado, a Bunge teria adquirido 25 mil t de trigo russo para moagem no Brasil, informação não comentada pela empresa.
Novos negócios não foram reportados recentemente, segundo cinco fontes consultadas pela Reuters, com muitas delas afirmando não ter notícia de que um primeiro negócio teria sido efetivado com a Rússia.
O Brasil, que recentemente aprovou normas liberando a importação de trigo russo, em meio a uma escassez do produto na Argentina, tradicional fornecedor ao Brasil, terá de completar suas necessidades anuais com o cereal importado no hemisfério norte.
Fontes do mercado avaliam que entre 1 milhão e 1,5 milhão de t poderiam vir de fora do Mercosul neste ano.
"Os candidatos para completar a demanda são Rússia, Canadá e Estados Unidos", acrescentou a fonte.
A escolha da origem do produto vai variar de acordo com a necessidade do moinho.
"Aí depende do moinho, vai ver qual mescla que precisa, se vai poder usar 20%, 30%, 40% de trigo russo, depende de cada um, do segmento de farinha que ele trabalha, para poder maximizar a mescla do trigo."
Uma outra fonte de um moinho do Nordeste concorda com tal avaliação. "Não sei se serve para todo mundo. Tem gente que usa para biscoito ou mesmo na mistura com outros trigos...", afirmou, observando que o preço do cereal russo pode cair ainda mais no segundo semestre, com a entrada da safra.
Uma terceira fonte do mercado afirmou que o trigo russo é cotado a US$ 180 por t na base FOB, e considerando custos de frete e tarifas sai por US$ 238 por t. Já o trigo do Sul sai a US$ 205 posto no Nordeste (já considerando o prêmio do governo para o escoamento), US$ 30 a US$ 40 mais barato que o russo.
Essa diferença de preços poderia ser diminuída quando a safra russa começar a chegar ao mercado.
"Os caras têm muito trigo, o que eles não têm é uma seleção de trigo como tem no Canadá e EUA... Estamos em plena entressafra (na Rússia), é preciso ver o que vai acontecer em julho", acrescentou a segunda fonte, admitindo que atualmente o preço do gaúcho é mais competitivo, embora ele seja "mais fraco" que o russo.