Administrador do Grupo Leo Dias contratou influenciadores para ataque coordenado contra BC
A reportagem não conseguiu contato com Leo Dias, o administrador e o sócio da agência que abordou os influenciadores
BRASÍLIA — Um dos envolvidos no pagamento a influenciadores por publicações com ataques ao Banco Central é administrador de empresas do jornalista de celebridades Leo Dias. Desde dezembro do ano passado, perfis de fofoca nas redes sociais têm recebido propostas para levantar suspeitas sobre a decisão da autoridade monetária de liquidar o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Mensagens obtidas pelo Estadão mostram que André Silva Salvador abordou influenciadores alegando trabalhar na "gestão de crise" de um executivo financeiro e buscando contratar "serviços de divulgação". Nas conversas, Salvador afirma ter parceria com Thiago Miranda, descrito como "sócio do grupo Leo Dias".
Na realidade, Miranda é dono da agência de publicidade Mithi e administrador de duas empresas pertencentes ao jornalista: a Leo Dias Comunicação e Jornalismo Ltda e a Leo Dias Comunicação e Jornalismo Ltda SCP VTG. Registros da Junta Comercial de São Paulo indicam que Miranda chegou a figurar como sócio da primeira empresa em outubro do ano passado.
Apesar de o nome dele ser citado na mensagem, o contrato foi feito por uma empresa do próprio Salvador, a UNLTD. Conforme revelou o Estadão, o acordo previa um termo de confidencialidade para o "projeto DV" (iniciais do banqueiro Daniel Vorcaro), cuja violação implicava no pagamento de multa de R$ 800 mil pelos influenciadores. A jornalista Malu Gaspar, nO Globo, informou que os valores para os influenciadores podiam chegar a R$ 2 milhões, dependendo do número de seguidores.
A empresa por trás dos pagamentos
A UNLTD, sediada em um edifício comercial em Águas Claras (DF), possui capital social de apenas R$ 5 mil e é enquadrada como empresa de pequeno porte. Foi por meio dela que se pagaram os posts críticos ao BC. Salvador possui ainda participação em outras duas empresas sediadas em Pelotas (RS), onde reside.
O vereador de Erechim (RS) Rony Gabriel, do PL, foi um dos procurados para fazer esses posts, mas recusou a proposta.
Salvador procurou também o deputado estadual de São Paulo Leonardo Siqueira (Novo) para fazer um anúncio. Ele disse que estava à frente da gestão de crise de um executivo do mercado financeiro, mas não revelou quem era. O nome só seria exposto mediante a assinatura de um termo de confidencialidade.
O parlamentar, contudo, não deu continuidade à conversa. Por isso, não recebeu informações sobre valores nem sobre o nome do executivo.
Na virada do ano, houve profusão de vídeos em que influenciadores e páginas de mídias sociais repercutem despacho do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU), com questionamentos à medida que impôs o fechamento do Master. O BC considerou que o banco não tinha condições de honrar compromissos com credores e também apontou para indícios de ilegalidades.
Jhonatan de Jesus, contudo, questiona se a autoridade monetária se precipitou ao tomar a decisão sem antes considerar alternativas à liquidação. Ele estabeleceu uma fiscalização de auditores do TCU para revisar o processo. Tanto agentes do mercado financeiro quanto juristas questionam a legitimidade dessa prática por entenderem que a atuação do BC como regulador é soberana e impassível de fiscalização. Nesta quinta-feira, 8, ele recuou da inspeção e mandou a análise para o plenário do TCU, que só volta do recesso no dia 16 de janeiro.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou representação junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) e pediu investigação contra Jhonatan de Jesus por abuso de autoridade e "interferência indevida". Já os influenciadores contratados utilizaram as ações do ministro para colocar em dúvida a liquidação e sugerir que o BC pode ter cometido irregularidades.