Tensões geopolíticas desafiam Petrobras a acelerar projetos de fertilizantes, dizem especialistas
O Brasil importa toda a ureia que utiliza, entre 7 milhões e 8 milhões de toneladas por ano, uma mostra da dependência externa acelerada pela saída da estatal do setor
RIO - Mesmo sem impacto na estrutura produtiva ou na distribuição de fertilizantes, a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã e a intervenção americana na Venezuela seguem no radar dos investidores e reforçam a mensagem de que a Petrobras e o País devem acelerar novos projetos, especialmente de ureia, comentam especialistas ao Estadão/Broadcast.
Atualmente, o Brasil importa toda a ureia que utiliza, entre 7 milhões e 8 milhões de toneladas por ano. A dependência externa foi acelerada pela saída da Petrobras do setor, a partir da hibernação da Araucária Nitrogenados S.A. (Ansa) e do arrendamento das Fábricas de Fertilizantes (Fafens) em Sergipe e na Bahia, comenta Ticiana Alvares, diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).
"A dependência, que era de cerca de 75% em 2015, passou para 100% em 2025. O Brasil é o único grande produtor de grãos do mundo com grau tão elevado de vulnerabilidade externa", diz.
Dados oficiais do Comex Stat indicam que as importações diretas de ureia iraniana em 2025 somaram pouco mais de 180 mil toneladas, volume considerado pouco expressivo em relação às compras de outros fornecedores, como Nigéria e Omã.
No entanto, o volume efetivo de ureia de origem iraniana pode ultrapassar 1 milhão de toneladas ao ano, o equivalente a mais de 15% das importações brasileiras, por meio de triangulações comerciais.
Já a Venezuela, que tem a maior capacidade instalada para produção de ureia na América Latina, cerca de 8 milhões de toneladas anuais, responde por cerca de 5%, ou 400 mil toneladas, da ureia consumida pelo Brasil.
"A combinação de tensões geopolíticas envolvendo EUA, Irã e Venezuela atua mais no campo das expectativas do que em impactos reais de oferta, mas é um fator adicional de alta para o mercado de nitrogenados", comenta o analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Tomás Pernías. "Nesse momento, os investidores esperam mais demanda indiana para as próximas semanas e outros grandes importadores podem retomar suas atividades", acrescenta.
Petrobras
A expectativa da Petrobras é de suprir até 35% da demanda do País com a retomada das Fafens. De acordo com a estatal, a produção de ureia nas plantas do Nordeste começa ainda neste mês, após investimentos iniciais de R$ 38 milhões em cada unidade.
O professor de Finanças e Controle Gerencial do Coppead/UFRJ, Rodrigo Leite, destaca que a estatal deve atuar para diminuir a fragilidade do País, exposta pela guerra Rússia-Ucrânia, quando a oferta de insumos despencou, elevando custos e complicando o planejamento do agronegócio.
"Enquanto o Brasil permanecer dependente de importações e vulnerável a choques externos, não parece razoável supor que a Petrobras direcione fertilizantes para exportação. É uma decisão que assume caráter estratégico, tanto do ponto de vista econômico quanto de segurança alimentar."
De acordo com monitoramento da StoneX, entre 12 e 26 de janeiro houve aumento de mais de US$ 30 nos preços futuros da ureia nos Estados Unidos, conforme o vencimento de fevereiro de 2026.
O movimento também está relacionado à expectativa de que, em algum momento das próximas semanas, a Índia retorne ao mercado em busca de mais nitrogenados.
Para atenuar os riscos da dependência, a diretora do Ineep observa a necessidade de diversificar as origens das importações no curto prazo, enquanto, no médio prazo, é válido acelerar a produção, seja no Brasil, seja em parceria com outros países com potencial, como Bolívia e Venezuela, e investir no uso de fertilizantes químicos.
"Há formas de se fazer isso, aumentando sua eficiência quando combinados a outras técnicas, como aplicação de bioinsumos e remineralizadores de solo", comenta Alvares. Já no longo prazo, a leitura é que o Brasil deve considerar a abundância de matérias-primas renováveis para a produção de amônia verde, a partir do hidrogênio verde.