Plataforma para registro de créditos de carbono da B3 avança com lançamento em NY e primeiras vendas
Sistema, ainda em fase experimental, será lançado internacionalmente pela bolsa brasileira nesta quarta, 24, durante a Semana do Clima
O engajamento da B3 e de parceiras do setor ambiental para estruturar a primeira plataforma de registro primário de créditos de carbono do Brasil pretende avançar, nesta quarta-feira, 24, com apresentação em uma grande vitrine internacional e anúncios sobre os primeiros compradores dos ativos.
O sistema, que ainda está em formato piloto, será lançado durante a Climate Week (Semana do Clima) de Nova York, nos EUA, durante o painel "NbS Carbon Credits: Forest as a Climate Solution" (Créditos de Carbono de Soluções Baseadas na Natureza: Floresta como Solução Climática, em português), que faz parte da programação oficial do evento.
No painel, está prevista ainda a participação da subsecretária de Desenvolvimento Econômico Sustentável do Ministério da Fazenda, Cristina Reis, que irá tratar sobre o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que dará amparo ao mercado regulado de carbono no Brasil.
A estrutura de negociação que será apresentada no evento já nasce conectada à rede da ACX (AirCarbon Exchange), uma bolsa de valores global especializada na comercialização de ativos ambientais, incluindo créditos de carbono. A ACX também é responsável pelo desenvolvimento da plataforma junto com a B3.
Já os créditos de carbono negociados estão sendo registrados a partir da metodologia PSA Carbonflor, criada pela ECCON Soluções Ambientais e pela Reservas Votorantim (gestora de terras do Grupo Votorantim para Economia Verde), também parceiras na iniciativa. Esses créditos estão sendo gerados por meio de projetos de carbono na Mata Atlântica.
Segundo informações antecipadas para o Estadão, as empresas Motiva (ex-CCR) e EY Brasil serão confirmadas como as primeiras companhias compradoras dos créditos de carbono chancelados pela B3.
O investimento da Motiva está em torno de R$ 2 milhões para adquirir 27 mil créditos neste ano. Segundo a companhia, eles serão utilizados para compensar 9% das suas emissões de escopo 1 (emissões diretas) de 2025. No final de 2024, a companhia já havia adquirido 67 mil créditos também da Reservas Votorantim registrados pela plataforma, o que possibilitou, segundo a empresa, neutralizar 8,5% das suas emissões de escopo 1 do ano passado.
"Nos dois últimos anos, temos desenvolvido uma série de ações para a mitigação das emissões. A operação com a Reservas Votorantim, através da plataforma da B3 e ACX, consolida essa estratégia", afirma a diretora de Sustentabilidade da Motiva, Juliana Silva.
Já em relação à EY, não foi revelado o montante de ativos negociados nem o valor envolvido. Segundo a empresa, a negociação "está em processo final de avaliação para aquisição dos créditos".
"A EY busca sempre conseguir as melhores soluções de negócios por um lado e, por outro, reduzir os impactos. Para nós, estar nessa iniciativa é fundamental", diz o sócio-líder de Sustentabilidade da EY para a América Latina, Ricardo Assumpção.
Avanço da plataforma
O início da construção de uma plataforma para registro e negociação de créditos de carbono no Brasil foi anunciada por B3, ACX, Reservas Votorantim e ECCON Soluções Ambientais há um ano. O objetivo é que os projetos geradores dos ativos sejam registrados pela bolsa brasileira e disponibilizados, de imediato, para comercialização por meio da rede da ACX, o que permite negociações, inclusive, internacionais, entre emissores de crédito e compradores interessados.
"A infraestrutura de mercado que a ACX está construindo junto da B3 no Brasil agrega segurança, transparência e padronização às transações, elementos fundamentais para atrair investidores globais e ampliar a confiança no mercado nacional", explica a ACX ao Estadão. "A perspectiva de uma bolsa é justamente agilizar fluxos, reduzir custos, evitar a fragmentação dos mercados e, ao mesmo tempo, trazer liquidez aos créditos com garantia de segurança e qualidade."
No Brasil, o mercado de carbono regulado está em fase de implementação, após a sanção do PL 182/2024. A Lei n.º 15.042, que regula o setor, foi sancionada em dezembro de 2024, fazendo com que as negociações predominem, atualmente, no formato voluntário. Enquanto o mercado está incipiente no Brasil, a B3 pretende usar sua infraestrutura já consolidada no setor financeiro para impulsionar o segmento desses ativos verdes no País.
"A criação da plataforma representa um marco significativo para a sustentabilidade e as finanças verdes no País. Desenvolver essa infraestrutura integrada ao mercado de capitais não apenas promove a preservação da biodiversidade, mas também coloca o Brasil em uma posição de destaque no cenário global de combate às mudanças climáticas", afirma a vice-presidente de Pessoas, Marketing, Comunicação, Sustentabilidade e Investimento Social Privado da B3, Ana Buchaim.
Metodologia 'à brasileira'
Um crédito de carbono representa o equivalente a uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) removida da atmosfera ou cuja emissão foi evitada. Antes de ser comercializado, ele é certificado por entidades especializadas, com base em metodologias que tenham credibilidade no mercado. Projetos como os que utilizam florestas para capturar CO2 da atmosfera podem gerar esses créditos, que são validados, verificados e comercializados.
Atualmente, a principal certificadora do mercado de carbono em nível global é a Verra, responsável pela administração do Padrão de Carbono Verificado (VCS), um programa internacional que registra créditos de carbono com base em metodologias reconhecidas globalmente.
No caso dos créditos de carbono comercializados pela plataforma da B3, o registro segue a metodologia da PSA Carbonflor (desenvolvida pela ECCON Soluções Ambientais e pelas Reservas Votorantim) voltada especificamente para os biomas brasileiros. Os créditos certificados por essa metodologia são chamados de C+ e, atualmente, estão focados no pagamento por serviços ambientais prestados por áreas conservadas da Mata Atlântica.
"Pensando nos biomas brasileiros e suas peculiaridades, precisávamos de uma metodologia que endereçasse diversas questões que as metodologias existentes não contemplavam. Então a PSA Carbonflor se propõe a resolver vários desses pontos metodológicos", comenta a Reservas Votorantim ao Estadão. "Ter o registro no Brasil também nos permite gerar créditos baseados nas leis nacionais e dentro de um critério de integridade que já é bastante reconhecido, como é o caso da B3."
Desafios no mercado
Segundo o especialista Gabriel Reis, responsável pelas análises de carbono de base florestal da agência de preços Fastmarkets, o projeto da plataforma de registros da B3 tem boas chances de ser uma opção relevante para os gestores de terra futuramente no Brasil. A metodologia mais alinhada às especificidades legais do manejo florestal brasileiro é um diferencial para isso, enquanto o País busca uma posição em um mercado dominado pelos EUA, globalmente, e pelo Peru, na América Latina.
No entanto, o sistema não está imune a possíveis desafios pela frente, comuns às trajetórias das certificadoras de créditos de carbono que, por vezes, passam por questionamentos de integridade e transparência até ganhar confiança do mercado.
"Vemos que há uma qualidade operacional bem interessante sendo desenvolvida. Mas, no fim das contas, a primeira provação que terão, uma vez que tudo for estruturado, será conquistar o respaldo do mercado e bons olhares de eventuais compradores, e estruturar a dinâmica de oferta para um projeto novo e ambicioso, em um mercado tão recente."
Um fator positivo capaz de amenizar essas provações são os nomes envolvidos no projeto, pondera. Além da bolsa brasileira, ACX, ECCON e Reservas Votorantim são instituições que já possuem reconhecimento em suas áreas de atuação. O ponto poderá não só acelerar a consolidação da plataforma no mercado voluntário, como também no regulado.
"Ter tantos grandes nomes dentro de um projeto como esse torna grande a chance de essa metodologia ser rapidamente adotada pelo SBCE, assim que ele começar a fazer a filtragem de quais metodologias vão ser aceitas para conversão a créditos de carbono dentro do sistema brasileiro de comércio de emissões de gás do efeito estufa (mercado regulado)", avalia Reis.
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