Pix mira os Estados Unidos: pagamento instantâneo tem vários caminhos na terra de Trump
Bancos brasileiros que avançam sobre o mercado americano precisam entender a cultura financeira local e, principalmente, a infraestrutura por trás dos pagamentos
Bancos brasileiros como Inter e Bradesco enfrentam um mercado fragmentado ao expandirem para os Estados Unidos. Diferente do Brasil, que conta com a infraestrutura única do Pix, o sistema americano opera com múltiplos trilhos de pagamento, como FedNow, RTP e Zelle. O grande desafio dessas instituições é integrar essa complexa arquitetura nos bastidores para entregar ao cliente final uma experiência de transferência simples, rápida e padronizada.
O tema entrou na berlinda recentemente, depois que o presidente Donald Trump passou a atacar o Pix brasileiro. Retóricas políticas à parte, para os bancos brasileiros que avançam sobre o mercado americano — como Inter e Bradesco — a questão mais prática é outra: entender a cultura financeira local e, principalmente, a infraestrutura por trás dos pagamentos.
Nos Estados Unidos, diferentemente do Brasil, não existe uma única grande "estrada" por onde o dinheiro circula. Existem vários rails, ou trilhos tecnológicos e financeiros, e compreendê-los é parte fundamental da estratégia de internacionalização.
"A partir da nossa experiência e do nosso framework global, temos de adaptar e entender as especificidades locais. O nosso objetivo é sermos globais", afirma Ray Chalub, COO & US Branch General Manager do Inter US.
As diferenças vão além da infraestrutura de pagamentos. Enquanto os brasileiros estão acostumados há anos a facilidades tecnológicas como o Pix, os americanos apenas mais recentemente passaram a se familiarizar, por exemplo, com modalidades de pagamento parcelado.
No caso do Bradesco, segundo Rafael Venâncio, chief international officer do Bradesco Bank US, um dos desafios — e também das oportunidades — da internacionalização é preservar parte da praticidade à qual os clientes brasileiros estão acostumados. "Desde 2019, os nossos processos estão muito em sintonia com toda a digitalização do banco", afirma o executivo.
Os caminhos são diferentes no sistema dos EUA
Se o Brasil resolveu a equação dos pagamentos instantâneos criando uma infraestrutura única, os Estados Unidos seguiram outro caminho. Por lá, o dinheiro circula por diferentes payment rails — as estradas tecnológicas e financeiras por onde trafegam as transações.
Há redes tradicionais, como ACH, cartões e transferências bancárias; novas infraestruturas de pagamentos instantâneos, como RTP (real time payment) e FedNow; e uma camada de aplicativos e plataformas, como Zelle, Venmo, Cash App e Apple Cash, que usam diferentes caminhos para entregar ao consumidor uma experiência semelhante: mandar dinheiro de um ponto a outro com poucos toques no celular.
A diferença é importante porque, nos Estados Unidos, o aplicativo que aparece na tela não é necessariamente o rail por onde o dinheiro efetivamente viaja. O Zelle, por exemplo, conecta mais de 2.400 bancos e cooperativas de crédito e está disponível para mais de 143 milhões de consumidores por meio dos aplicativos das próprias instituições financeiras.
Já Venmo, Cash App e outras carteiras digitais construíram experiências próprias de pagamento e transferência. Para o usuário, tudo pode parecer simplesmente uma transferência instantânea. Nos bastidores, porém, existem diferentes redes, modelos de liquidação e participantes.
É nesse cenário que entram os dois principais novos rails de pagamentos instantâneos entre instituições financeiras. O RTP, lançado em 2017 pela The Clearing House, foi a primeira grande infraestrutura moderna de pagamentos instantâneos do país. Funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, com transferência e liquidação em tempo real.
Já o FedNow, lançado pelo Federal Reserve (o Banco Central dos EUA) em 2023, oferece uma infraestrutura pública com objetivo semelhante: permitir que bancos e cooperativas participantes movimentem recursos em segundos, a qualquer hora do dia.
Em vez de substituir o RTP, o FedNow, que não é de uso obrigatório como o nosso Pix, passou a dividir com ele o espaço dos pagamentos instantâneos nos Estados Unidos. A convivência entre esses diferentes sistemas ajuda a explicar por que o país ainda não produziu algo exatamente equivalente ao Pix brasileiro.
Quais são as vantagens do Pix
O Pix é, ao mesmo tempo, uma infraestrutura comum e uma experiência padronizada. Bancos, fintechs, empresas e consumidores falam, em grande medida, a mesma língua. "É praticamente imbatível", resume Chalub.
Nos Estados Unidos, a arquitetura é mais pulverizada. O Federal Reserve mantém o FedNow e participa da operação da infraestrutura ACH; o setor privado opera o RTP; as redes de cartões continuam gigantescas no comércio; e aplicativos, carteiras digitais e bancos disputam a relação direta com o consumidor. Até os pagamentos instantâneos podem seguir caminhos diferentes, dependendo da instituição e do serviço utilizado.
É justamente nesse ambiente que a internacionalização de bancos como Inter e Bradesco ganha outra dimensão. Para atuar nos Estados Unidos, não basta simplesmente levar um aplicativo ou tentar reproduzir o modelo brasileiro. É preciso se conectar a uma arquitetura financeira formada por vários rails, entender quais deles fazem sentido para cada operação e, sobretudo, transformar essa complexidade em uma experiência simples para o cliente.
Enquanto o Bradesco chega a esse mercado apoiado em uma presença internacional mais tradicional, voltada também a empresas, investimentos e clientes de alta renda, o Inter tenta avançar a partir de uma proposta mais digital e cross-border. As estratégias são diferentes, mas o desafio é parecido: navegar por uma infraestrutura fragmentada sem transferir essa complexidade para quem está do outro lado da tela.
Em um país com vários "Pix", a disputa pode estar justamente em esconder os trilhos do usuário. O que o cliente vê é apenas a interface final — um botão, um aplicativo, uma transferência concluída em segundos. Mas o que acontece por trás dessa operação, do ponto de vista tecnológico, pode ser tão importante quanto a experiência na tela. Essa foi uma das conclusões dos executivos que participaram de um painel sobre o tema durante o Febraban Tech 2026.
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