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Pedro Passos: 'Governo Bolsonaro é um show de horror; Lula tem solução antiga para problemas novos'

'Seria um horror submeter o Brasil a mais quatro anos de bolsonarismo', diz empresário que é um dos fundadores da Natura em entrevista ao 'Estadão'

4 jul 2022 - 17h06
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BRASÍLIA E SÃO PAULO - O empresário Pedro Passos está preocupado com o resultado das eleições. Um dos fundadores da Natura, Passos vê problemas sérios nas duas candidaturas favoritas. "A síntese do governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) é um show de horror", disse, "(se vencer) ele vai levar a gente para uma situação muito grave por conta da situação institucional e da falta de compromisso com determinadas agendas econômicas, como a ambiental, o que isola o Brasil."

Já em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o temor é em relação a um projeto que ele considera ultrapassado e ineficaz com soluções antigas para problemas novos. "Quando analiso a proposta do PT vejo que está mais parecida com o governo Dilma do que o Lula 1 (primeiro mandato de Lula). Esse 1 faz toda diferença."

Passos defende que os empresários devem participar do debate público. "Empresário que fica muito debaixo do pano não privilegia a classe empresarial. Acaba tendo uma conotação de lobista, de tirar vantagem seja qual for o governo." "Tem que colocar mais a cara. Não pode ficar embaixo do radar", diz.

Ele mesmo está engajado na campanha de Simone Tebet (MDB). Com outros empresários, ele ajuda a preparar propostas para o plano de governo. "Estou confiante de que com a Simone a discussão vai subir a barra."

Passos acredita que quem ganhar a eleição tomará posse, apesar de todo o ruído político. "A gente sabe que, pelo histórico dele, o Bolsonaro não quer a democracia", disse. "Mas, apesar de tudo, o Brasil tem ainda resistência a esse tipo de coisa. Os generais sabem que o Brasil é mais importante do que alguns cargos comissionados. Não vai haver suporte para um movimento como esse."

Passos deu a seguinte entrevista ao Estadão:

Faltando três meses para as eleições, o que esperar das eleições deste ano?

Eu sou um ativista pela terceira via. Independente de projeções eleitorais que eu não sei fazer, a melhor forma de colocar o Brasil no rumo é ter uma alternativa ao que está aparecendo nas pesquisas, Bolsonaro e Lula. Uma chapa Simone-Tasso dá uma consistência bastante importante para as prioridades dessa terceira via. Fala muito mais de futuro do que as alternativas hoje existentes.

O que o levou a fazer essa escolha pública?

Podemos muito adjetivar o que o governo Bolsonaro tenta fazer: destruir as instituições, a democracia, os regulamentos mínimos da lei eleitoral, uma atitude muito tosca do que o Brasil precisa. Então, não precisa falar de programa de governo Bolsonaro porque a gente vive o programa Bolsonaro. A síntese é um show de horror. Em diversos campos. Ele sempre defendeu a ditadura, torturadores, etc. Não tem surpresa em relação à biografia dele. Há surpresa em relação a algumas coisas que ele disse na campanha e não fez. Seria um horror submeter o Brasil a mais quatro anos de bolsonarismo. Por outro lado, eu tenho acompanhado, e participei de um jantar com Lula, e tentando extrair das próprias diretrizes do programa do PT, fico com uma sensação de que a gente está voltando ao passado, com soluções antigas para problemas novos.

Quais seriam essas soluções velhas?

Temos um cenário internacional muito mais complexo. Um país também mais complexo em termos de inflação, pobreza, etc. Sabemos que o Brasil precisa de um conjunto de reformas. Por isso, eu acho que a opção da Simone. Ela pode enriquecer o debate eleitoral que está muito ralo, com soluções antiquadas de um lado e trágicas de outro lado.

Por que o debate eleitoral em torno de ideias não acontece? O que se vê são generalidades.

Estou confiante de que com a Simone a discussão vai subir a barra. Hoje, não tem discussão. Teve um encontro da CNI e o Lula não foi. Ele está numa posição muito de postura eleitoral e menos de explicitar qual é o programa. Alguns falam: não vai ser isso, na hora 'H' vai mudar. Eu falo: já não deu certo em 2018. Estelionato eleitoral, não vale a pena acreditar que o candidato vai mudar de postura.

Poderia dar exemplos das soluções que considera antiquadas sendo apresentadas pela campanha do Lula?

A maioria delas já foi vista e não deu certo. Novo regime fiscal. Ou seja, tirar o teto de gastos, mas não define qual é o novo regime, se terá outro. Reformas tributária e administrativa muito superficiais. A agenda de aumento da produtividade da economia não é prioritária. Crítica a preços de combustíveis, "abrasileirar os preços". Eu gostaria que vocês me explicassem o que é isso. Não seguir o mercado internacional? Não seguir a cotação do dólar? Isso é bobagem. Alguém vai pagar essa conta daqui a um ano, dois, três anos. Estímulos setoriais novamente. A "política cambial não pode ser passiva". O que é isso? Intervenção do câmbio? Abre-se uma janela para muita coisa. Intervenção de câmbio a gente sabe que não dá certo. Resistência às concessões na área de saneamento, estado indutor do crescimento através das empresas estatais, a Petrobras reintegrando toda a cadeia de distribuição e refino.

Você tem uma lista...

Já vimos onde isso vai dar. Tem a proposta do ativismo dos bancos públicos, sabemos que isso é um problema porque desequilibra o mercado de capitais de longo prazo. As políticas industriais. Eu tenho uma relação de algumas políticas industriais que foram feitas no Brasil. Uma se chamava Política de Desenvolvimento Produtivo, PDP, crédito subsidiado do BNDES a um grupo de setores contemplados. O que deu? Lembram de alguma coisa relevante que ficou aí? Teve o programa PSI, aquele que o juro estava tão barato que tinha gente comprando caminhão para estocagem de mercadoria e não para trafegar. Foram R$ 316 bilhões em subsídios creditícios alocados ao programa. Têm ainda os planos Brasil Maior, Inovar-Auto. Tem algum sentido subsidiar combustível fóssil para quem não está abaixo da linha de pobreza? Essas generalidades destroem a política econômica brasileira. Isso para falar do que eles estão propondo. Agora, para fazer diferente depois que eles foram eleitos, eu prefiro não acreditar em história da carochinha. Quando analiso a proposta do PT, está mais parecida com o Governo Dilma do que com o Lula 1 (2003/2006). Esse 1 faz toda a diferença.

A senadora Simone Tebet está bem atrás das pesquisas. As chances da candidatura dela deslanchar são mais difíceis?

Eu estou trabalhando para não acontecer isso. É uma matéria difícil para a terceira via. O PSDB, o MDB não conseguiram se entender adequadamente e o tempo está curto. Mas temos que elevar a barra do debate. Ela vai se tornar mais conhecida a partir da convenção. Torço para que se confirme o nome do Tasso, que vai dar consistência econômica e socioambiental ao programa dela. Um pouco dessa conversa aqui é no sentido de mostrar que o Brasil precisa de uma discussão mais madura a respeito de futuro, de prioridades, integrando políticas públicas com parceria privada. Pela situação de guerra e pandemia tem uma baita oportunidade para o Brasil que é a atração do capital que está circulando no mundo. Tem um caminho para fazermos uma agenda econômica verde e o Brasil tem uma grande vantagem pela frente porque vamos gerar crédito de carbono mais barato. Mas precisa ter segurança jurídica, dos contratos, para atrair o capital internacional.

Qual o seu nível de envolvimento na campanha da Simone Tebet?

Tem um grupo de empresários, etc., que vem trabalhando há dois anos na linha de buscar uma alternativa a essa polarização. Para nós, é importante o País ser pacificado. E agora afunilou o nome da Simone e estamos procurando ajudar com formulações e ideias. É um grupo de formulação de conteúdo.

Pode contar quem está no grupo?

Não tenho autorização. O que nós vemos na prática, independentemente de pesquisas, pelo menos em determinados grupos, é um grande nível de aceitação da terceira via.

Como vice na chave do PT, o ex-governador Geraldo Alckmin poderá ter um papel diferenciado na área econômica?

Não sou amigo do Alckmin, mas fui sempre um apoiador dele e tenho ótima relação com ele, de muito respeito. Não está claro para mim essa opção política. Eu conheço o pensamento do Alckmin em termos de economia, foi um belíssimo gestor. Ele tem muitas qualidades e é difícil entender a opção política. Entendo que talvez seja um movimento contra o Bolsonaro, mas acredito que o Alckmin pode ser talvez influenciador para evitar caminhos errados. Não sei se o PT vai permitir e dar esse espaço para ele.

Há alguma interlocução com o PT?

Não. Interlocução direta não tem. Teve esse jantar, que foi divulgado, inclusive, de uma maneira maliciosa. A manchete que eu li no dia seguinte é que os empresários tinham aplaudido entusiasticamente, o que não é absolutamente verdade. Foi um aplauso protocolar. Eu acho que conversar é bom, faz parte da democracia, não é tomada de posição. Como há a visão de que a maior parte dos grupos empresariais é dirigida através de lobbies, fica uma má impressão. O empresário tem que conversar com os possíveis candidatos, tem saber qual é o programa, quais são as ideias. É importante cobrar coerência e acho uma pena o Lula não estar participando de debates. Ele está prestando um desserviço ao País, como fez o Bolsonaro lá atrás. Não ir aos debates é um desrespeito à democracia. O Lula sabe debater, sabe conversar.

A defesa da democracia entrará no debate na campanha eleitoral? O senador Flávio Bolsonaro disse em entrevista ao 'Estadão' que não o presidente Bolsonaro não terá como controlar uma eventual reação violenta de apoiadores que contestem o resultado das urnas?

Não quero parecer ingênuo. A gente sabe nitidamente que o Bolsonaro não quer a democracia pelo histórico dele e pelo que está fazendo de tentar destruir as instituições, o STF. Mas eu vou falar, apesar de tudo, o Brasil tem ainda resistência a esse tipo de coisa. Os generais sabem que o Brasil é mais importante do que alguns cargos comissionados. Não vai haver suporte para um movimento como esse.

Como você vê a candidatura do Ciro Gomes?

Ele é um sujeito muito inteligente, estudioso, faz a lição de casa. Mas a visão do Ciro na área econômica, pelo menos, é muito frágil. Ele defende praticamente as ideias, e às vezes mais extremadas, do que o próprio PT. Agora, politicamente parece que ele entrou num patamar de estabilidade.

Entre o empresariado, como está a participação no debate eleitoral? Há dois meses você escreveu um artigo criticando aqueles empresários que se prestam ao jogo do poder, do dinheiro fácil, do privilégio.

Essa coisa do empresário não se manifestar incomoda muito. Numa democracia, o empresário é um agente da sociedade. Ele tem que se manifestar. Nos Estados Unidos, algumas empresas estão se manifestando em relação ao tema do aborto, que regrediu. Tenho impressão de que o empresário ficar muito por debaixo do pano não privilegia a classe empresarial. Acaba tendo uma conotação de lobista, de tirar vantagem seja qual for o governo. Nas relações com o governo, num Estado grande como a gente tem, influente, afeta muito o negócio. Não podemos ser ingênuos. Mas o empresário tem que colocar mais a cara. Não pode ficar embaixo do radar.

Empresários de setores que são altamente regulados pelo governo não temem retaliação?

A liderança empresarial hoje é frágil. Tem isso, mas eu prefiro que as empresas se posicionem, os empresários. Não dá para ficar escondido. Faz parte do jogo correr algum risco para tentar mudar o País, que está cada vez mais pobre, sem saúde, educação, segurança institucional, jurídica. Eu fico muito preocupado porque a gente quebra o País. O empresário tem que se manifestar.

Além da agenda ambiental, a qual você é ligado, o que não pode falta no debate econômico?

As reformas econômicas. Ter um Estado mais coordenador do que operador, não tentar fazer escolhas que não deram certo, ter cuidado com o ativismo financeiro dos bancos estatais, porque isso pode destruir o mercado e afastar os investidores externos. Tem que ter compromisso com as regras fiscais, se não a esse teto de gastos que o Bolsonaro já furou, mas tem que definir uma âncora fiscal num País onde o Congresso tem poderes sobre o Orçamento que não deveria ter, como o orçamento secreto. A economia funciona bem quando se tem clareza do ambiente de negócios. Tem muito capital para investir no Brasil e ajudar a fazer a transição climática. Daqui a 15 anos, vamos fazer captura de carbono de outras formas e por isso o Brasil precisa também investir em ciência e tecnologia, inovação.

Qual o cenário que você vê com uma vitória do Bolsonaro ou do Lula?

São situações diferentes. O Bolsonaro vai levar a gente para uma situação muito grave por conta dessa coisa institucional, a falta de compromisso com determinadas agendas econômicas, como a ambiental, que isola o Brasil. Além de ser uma tragédia para a saúde. Na educação, o que está acontecendo com quatro ministros em três anos de governo, o armamento da população. É um atraso civilizatório. O Lula é o diagnóstico que as formulações não vão dar certo. Se não trabalhar na agenda de produtividade, não vamos colocar o Brasil em condições de igualdade com os outros países.

O governo com o Congresso está aprovando uma série de medidas eleitorais com apoio de ampla maioria dos parlamentares terão forte impacto nas contas públicas, entre elas corte de tributos. Qual a sua avaliação?

A redução de impostos que está sendo feita é uma bomba. É uma redução de espaço de investimentos melhores na saúde e educação. Como vai mudar isso para frente? Não é um custo pequeno. É absurdo. É irresponsabilidade. E do ponto de visto constitucional acho que não tem suporte uma mudança na véspera da eleição. Essa conta vai sobrar para o próximo governo. O empresário e todo o cidadão gostaria de ver redução de impostos, mas precisa de reforma tributária, crescimento. Ficar empurrando o cobertor curto só causa transtorno para a economia. Não é o que o empresário quer. Queremos segurança institucional, jurídica. Como fica a projeção sobre o risco país no ano que vem com esse aumento dos gastos improvisados de última hora. É muito difícil. Infelizmente, talvez estejamos vivendo o pior momento da nossa história depois que resgatamos a democracia.

Estadão
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