Inteligência artificial: Alemanha e Europa à sombra dos EUA
Alemanha e França unem forças para tentar fazer frente à dominância americana no mercado de IA. Especialistas do setor, porém, alertam que é preciso mais investimentos e menos burocracia.O acesso a modelos de inteligência artificial (IA) não é apenas uma questão de autonomia econômica, mas também de segurança interna e externa dos países.
Um fato ocorrido no último dia 13 de junho deixou isso ainda mais claro: a empresa americana Anthropic havia informado que, por determinação do governo de Donald Trump, negaria a todos os estrangeiros o acesso aos principais softwares Fable 5 e Mythos 5, equipados com inteligência artificial, alegando motivos de segurança nacional. Esses modelos são considerados especialmente adequados para detectar vulnerabilidades em softwares.
Para o ministro alemão do Interior, Alexander Dobrindt, a Alemanha necessita recuperar, com urgência, o atraso em termos de IA, uma vez que a situação atual aponta que é preciso participar da concepção das inovações tecnológicas. Caso contrário, pode acontecer "que muito rapidamente nos tornemos vítimas [na corrida pela IA]", disse ele à agência de notícias dpa.
Centro franco-alemão de IA
O Centro Alemão de Pesquisa em Inteligência Artificial (DFKI, na sigla em inglês) já deu um pontapé nesse sentido, com a criação de um centro franco-alemão de IA em parceira com o Inria, um instituto estatal francês de pesquisa especializado em informática e automação.
Os escritórios na Alemanha e na França devem ser instalados a partir de julho de 2026, e no quarto trimestre começa a operação da Project Factory, informou um porta-voz do DFKI.
A Mistral AI, uma empresa francesa de software especializada em inteligência artificial e líder na Europa na área de grandes modelos de linguagem, já entrou na disputa.
Para os padrões locais, a Mistral é uma empresa de grande porte: em setembro de 2025, a Bloomberg noticiou que ela havia recebido um investimento de 2 bilhões de euros, o que elevou seu valor de mercado para 12 bilhões de euros. Antes disso, a empresa holandesa ASML, maior fornecedora mundial de sistemas de litografia para a indústria de semicondutores, havia adquirido 11% da Mistral.
Por que a autossuficiência é importante
"A Europa precisa desenvolver suas próprias e eficientes soluções de IA para se manter competitiva e capaz de agir", defende Bernhard Rohleder, diretor-geral da Bitkom, entidade representativa do setor de informação e e telecomunicações. "Um país é digitalmente soberano quando possui capacidades próprias substanciais em tecnologias-chave e pode decidir por si mesmo de quais países obterá as tecnologias que não desenvolve por conta própria."
O governo alemão, aparentemente, também reconhece isso e, em 11 de fevereiro, decidiu implementar um regulamento europeu sobre IA. Em um comunicado à imprensa, o ministro federal da Digitalização, Karsten Wildberger, anunciou a criação de "uma supervisão enxuta da IA, com foco claro nas necessidades da economia". Ele prometeu não criar uma nova "agência com burocracia excessiva" e, desta forma, busca garantir "o uso seguro da IA, um crescimento mais forte e capacidade de inovação de nossas empresas".
A contribuição da Alemanha
Quando se fala atualmente em possíveis líderes europeus, o nome da francesa Mistral normalmente aparece. No entanto, Lennart Kuhn, do departamento de relações públicas do DFKI, também cita empresas altamente inovadoras da Alemanha, como Black Forest Labs, Langdock, Codesphere e Aleph Alpha, NOXTUA ou Neura Robotics.
Rohleder também destaca as competências locais: "Na Alemanha, inúmeras empresas estão trabalhando no desenvolvimento de suas próprias soluções de IA. Isso inclui modelos básicos para dados de máquinas ou tabelas e modelos de aplicação de IA, por exemplo, na medicina ou na educação".
12 bilhões de euros é muito ou pouco?
Para construir novas estruturas, é preciso tempo, esforços conjuntos e, acima de tudo, muita boa vontade de todas as partes. Mas também é necessário dinheiro. Por isso, a notícia de que a Bloomberg avaliou a Mistral em 12 bilhões de euros foi muito bem-vinda. Mas o que essa quantia representa, considerando o volume de negócios do setor em todo o mundo?
Rohleder afirma com convicção: "Com 12 bilhões de euros, dá para fazer muita coisa". No entanto, não se trata apenas de dinheiro. É igualmente importante saber "se conseguiremos atrair talentos e se as condições gerais serão adequadas. As empresas de IA precisam de menos regulamentação e de um Estado que, na qualidade de cliente-âncora, coloque novas tecnologias em prática e apoie sua expansão".
"A principal questão não é se a Mistral pode ultrapassar os EUA no curto prazo", escreveu Lennart Kuhn. O sucesso dos modelos de IA não se decide apenas com base na avaliação financeira de um concorrente, pontua ele. Mais importantes são "a soberania dos dados, a conformidade regulatória, a transparência e o controle sobre a infraestrutura. Nessas áreas, um provedor europeu como a Mistral pode, sem dúvida, desenvolver vantagens competitivas".
Do que a Europa precisa para desenvolver sua IA
Se a Alemanha e a Europa não quiserem ficar para trás, precisarão de quatro coisas para se tornar uma alternativa real aos EUA, aponta o DFKI: "Muito mais capital de crescimento; investimentos maciços em centros de dados soberanos, abastecimento de energia e infraestrutura de chips; um mercado interno europeu que cresça mais rapidamente, seja menos fragmentado e tenha uma regulamentação mais uniforme; e, em quarto lugar, uma demanda maior por soluções europeias por parte de empresas e instituições públicas".
Se as empresas europeias, como a iniciativa franco-alemã que está começando, conseguirem se estabelecer com sucesso, Bernhard Rohleder, da Bitkom, estaria certo: "Os fornecedores europeus devem e podem se tornar uma alternativa aos grandes players globais da IA".
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