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Impulso da Copa às bets pode ter impacto prolongado no orçamento das famílias e na economia

Durante a Copa do Mundo, os gastos dos brasileiros em apostas esportivas dispararam, e os efeitos no orçamento das famílias ultrapassarão os 39 dias da competição. O número de apostadores triplicou durante o Mundial, estimulados por uma avalanche de publicidade durante os jogos e até durante as transmissões.

8 jul 2026 - 14h28
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A parcela da população que colocou dinheiro em apostas online só nas primeiras duas semanas de competição passou de 11%, em maio, para 34,8%, em junho, conforme pesquisa realizada pela analista de dados bancários Klavi, baseada em informações disponibilizadas pelo Banco Central. O valor médio alocado também subiu, com variações diárias conforme os jogos, mas chegando a picos que ultrapassaram os R$ 500 por apostador - quase três vezes mais do que a média de R$ 188 antes da Copa.

Ano após ano, o volume de receitas da atividade cresce, batendo R$ 37 bilhões em 2025 - um mercado que gera um impacto considerável na economia brasileira. "Eu acredito que sim, que a Copa e todos esses eventos que galvanizam a atenção da população na direção das bets podem servir como uma porta de entrada e, sem dúvida, com efeitos dinâmicos. Nem todo mundo que apostou durante a Copa vai continuar, mas eu acho que uma grande parte vai", afirma Victo Neto, pesquisador de economia digital em países em desenvolvimento da Harvard Kennedy School.

"Esse negócio parece estar sendo tratado como se fosse qualquer negócio, que pode usar qualquer forma de autopromoção para expandir seu alcance e cooptar mais gente. Tem um grande arsenal de técnicas de promoção que eles usam que é preocupante", avalia.

Recursos redirecionados para as bets

Os recursos depositados em bets deixam de ser investidos em compras, serviços e até em gastos essenciais: a atividade se tornou o principal fator de endividamento das famílias, principalmente nas classes C, D e E. Um estudo do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School apontou que as despesas com apostas superam em quase o dobro as com crédito e juros no orçamento familiar.

O fenômeno ocorreu na sequência de um período em que o endividamento vinha em queda, mas voltou a subir após a legalização da atividade no país, em 2018, e sua rápida expansão nos anos seguintes, sem regulação até 2023.

Crescimento das bets é mundial, mas alguns países, como a França, adotaram regulamentação rígida para evitar vício e exposição de jovens às apostas. (18/11/2013) em Paris. Mais de 1,3 milhão de euros em apostas foram registrados para o jogo de ida da Copa do Mundo da FIFA 2014 entre Ucrânia e França em 15 de novembro de 2013, anunciou a autoridade reguladora francesa para jogos on-line ('Autorité de régulation des jeux en ligne -Arjel) em 18 de novembro.
Crescimento das bets é mundial, mas alguns países, como a França, adotaram regulamentação rígida para evitar vício e exposição de jovens às apostas. (18/11/2013) em Paris. Mais de 1,3 milhão de euros em apostas foram registrados para o jogo de ida da Copa do Mundo da FIFA 2014 entre Ucrânia e França em 15 de novembro de 2013, anunciou a autoridade reguladora francesa para jogos on-line ('Autorité de régulation des jeux en ligne -Arjel) em 18 de novembro.
Foto: RFI

"Quando você decide não ir ao teatro para comprar uma televisão, por exemplo, o dinheiro continua no sistema financeiro. Ele só mudou de mão. Aqui, não. Esse dinheiro sai de fato do sistema financeiro nacional e vai para o exterior, em paraísos fiscais", salienta o autor da pesquisa, Claudio Felisoni.

Os jovens e as famílias com orçamento limitado, com baixa educação financeira e forte pressão por renda, são as mais vulneráveis. Os apostadores deslocam recursos destinados ao pagamento de despesas fixas e à poupança para gastar na promessa de ganho rápido nas apostas. Além disso, recorrem a alternativas caras, como cartão de crédito e cheque especial, para sustentar essa atividade - cujo retorno tende a ser negativo.

O fator PIX

Pelo menos 25 milhões de pessoas são clientes de pelo menos uma das 79 empresas que operam no país, de acordo com um levantamento publicado em abril pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting + Technology. Graças à facilidade de acesso e pagamento, via PIX, o Brasil virou o quinto maior mercado de apostas online do mundo, atrás de Estados Unidos, em primeiro lugar, Reino Unido, Itália e Rússia.

"As apostas são fracionadas. Você pode apostar valores muito pequenos", aponta o professor de economia. "E o mais importante é que, no processo decisório, muitas vezes você tem o que chamamos de 'atritos'. É diferente pagar em dinheiro e pagar, por exemplo, com o cartão plástico. Nas apostas, o PIX é muito prejudicial para o processo decisório porque, pela velocidade que oferece, acaba com os atritos."

Durante a Copa, o debate sobre a regulação da publicidade das bets voltou à tona. Nos anúncios, promovidos à exaustão nos intervalos dos jogos, as empresas são obrigadas por lei a advertir os espectadores sobre os riscos relacionados às apostas e podem ser multadas em até R$ 2 bilhões.

O canal CazeTV no YouTube é investigado pelo Ministério da Justiça por apresentadores fazerem menções favoráveis às apostas durante as transmissões, o que poderia incitar ainda mais os apostadores.

Bets: o novo cigarro?

"Eu acredito que a regulação precisa avançar muito e ser mais restritiva", salienta Victo Neto. "Se a gente pensar no passado - o exemplo mais claro é o do tabaco - e tentar fazer um exercício de se colocar no lugar, a gente vê o quão sem cabimento seria a gente achar normal que, em uma transmissão da Copa, o Galvão Bueno, o narrador, uma celebridade, fizesse inúmeras alusões como 'Pessoal, jovens, vamos lá! Vocês já compraram seu maço de cigarro hoje?'. É isso que está acontecendo com as bets", compara.

Um projeto de lei tramita na Câmara para proibir narradores e comentaristas de fazer comentários positivos sobre as apostas online durante transmissões e regulamentar a atuação de consultores da área. As pressões do lobby do setor, entretanto, prometem impor barreiras a avanços na legislação atual.

A exposição de adolescentes e jovens a este universo é um dos focos de preocupação: embora a publicidade para crianças e adolescentes seja proibida, influenciadores mirins já participaram de comerciais de empresas de bets. Conforme o Instituto Alana, que atua pela proteção dos menores, 11% das crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos apostaram em 2025, e 20% dos meninos entre 16 e 17 anos já experimentaram apostar pelo menos uma vez.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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