Como Ormuz se tornou a "carta na manga" do Irã contra os EUA
Novos ataques demonstram crescente facilidade do regime de Teerã em perturbar tráfego marítimo, mercados de energia e países vizinhos no Golfo. Quão vulneráveis estão os EUA aos caprichos de Teerã?A guerra com o Irã voltou a se intensificar depois que a República Islâmica atacou pelo menos três embarcações comerciais no Estreito de Ormuz na terça-feira (07/07), segundo autoridades americanas e do setor marítimo.
Os ataques, que tiveram como alvo um petroleiro saudita e um navio de gás natural liquefeito (GNL) do Catar, levaram os Estados Unidos a retomar o bloqueio às exportações de petróleo iraniano.
A suspensão temporária das sanções ao petróleo, uma importante concessão dos EUA ao Irã no memorando firmado pelos dois países em junho, aliviava os cofres de Teerã, cujas exportações até então vinham sendo bloqueadas pela Marinha americana.
Em nova retaliação, o Comando Central dos EUA (Centcom) informou nesta quarta-feira ter atingido mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa aérea, radares e mais de 60 embarcações pequenas usadas pela Guarda Revolucionária do Irã para assediar o transporte marítimo.
Os bombardeios, segundo o Centcom, visam "impor custos elevados [ao Irã] por mirar e atacar embarcações comerciais tripuladas por civis inocentes em uma via marítima internacional".
O Irã respondeu no mesmo dia lançando novos ataques com mísseis contra países do Golfo. Sirenes de ataque aéreo e explosões soaram no Bahrein e no Kuwait.
Reagindo à escalada, a empresa de segurança marítima Marisks alertou que a troca de ataques "marca um retorno ao confronto militar direto".
Falando antes de uma cúpula da Otan na Turquia, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o acordo com o Irã "acabou", e que " lidar com eles [Teerã] é apenas perda de tempo".
China e Catar apelaram por uma redução imediata das tensões, enquanto o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, pediu a Teerã que pare de provocar Washington e de atacar navios.
Por que o Irã voltou a atacar navios em Ormuz?
O Irã tenta manter seu controle sobre Ormuz, a estreita via marítima por onde, antes da guerra, passava um quinto das exportações globais de petróleo e gás do Golfo.
O Irã fechou efetivamente o estreito depois que ataques aéreos dos EUA e de Israel mataram vários oficiais iranianos, incluindo o líder supremo Ali Khamenei, em 28 de fevereiro. Mais tarde, o Irã atacou cerca de uma dúzia de navios retidos no estreito, antes de um frágil cessar-fogo ser alcançado em junho.
Nos dias que antecederam os ataques de terça-feira, as negociações de paz avançaram pouco em várias questões pendentes, incluindo o alívio de sanções americanas de longo prazo e as ambições nucleares do Irã.
Teerã tem usado repetidamente Ormuz como instrumento de pressão nas negociações quando o progresso diplomático estagna.
Outro método de barganha do regime são os ataques a países do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar, grandes produtores de petróleo e aliados estratégicos dos EUA. Ao mirá-los, o Irã tenta pressionar Washington e espalhar instabilidade, de modo que o Oriente Médio sinta o custo da guerra.
Qual é o poder real de barganha do Irã?
Repetidos ataques dos EUA e de Israel enfraqueceram as forças armadas iranianas. Como Teerã não pode derrotar os EUA em um conflito convencional, recorre à guerra assimétrica como forma de pressão.
Embora o Irã não seja dono legal do estreito, ele controla a costa norte, várias ilhas estratégicas e uma faixa litorânea que permite à Guarda Revolucionária monitorar e ameaçar embarcações que passam.
O país conta com lanchas rápidas de ataque, mísseis costeiros, minas e drones para atingir petroleiros, interrompendo o fornecimento global de energia sem entrar em uma batalha naval completa.
Segundo relatos, o Irã também começou a cobrar pedágios de até 2 milhões de dólares por navio (R$ 10,3 milhões) aos navios que transitam por Ormuz, medida criticada por especialistas marítimos como ilegal e inviável.
No entanto, a capacidade de pressão de Teerã não é ilimitada. Os EUA responderam com seu próprio bloqueio naval em Ormuz, impedindo navios iranianos de exportar petróleo e cortando uma fonte vital de renda.
O Irã vinha exportando petróleo em desafio às sanções dos EUA, principalmente para a China, a preços abaixo do mercado.
Teerã utiliza uma frota "fantasma" de petroleiros que frequentemente mudam de bandeira, desligam sistemas de rastreamento e realizam transferências de carga entre navios para evitar detecção.
Ainda assim, sem a isenção de sanções e com a possibilidade de retomada do bloqueio da Marinha dos EUA, o regime iraniano agora corre o risco de colapso econômico total.
De acordo com o think tank Foundation for Defense of Democracies, sediado em Washington, o Irã já sofreu 144 bilhões de dólares (R$ 744,6 bilhões) em danos econômicos com a guerra, além de bilhões adicionais em perdas com vendas de petróleo durante o bloqueio.
A moeda do país, o rial, caiu a níveis recordes de cerca de 1,7 milhão por dólar, e a inflação ultrapassou 88%.
O que acontece agora?
Em sua declaração mais recente, a Marisks afirmou que a revogação da isenção de sanções contra o Irã "enfraquece a base política" do acordo de paz e "reduz os incentivos para a continuidade da moderação".
A empresa de inteligência marítima alertou que "a probabilidade de nova escalada aumentou substancialmente".
Embora Trump tenha dito que as negociações provavelmente continuarão, ele classificou o Irã como sendo liderado por "pessoas doentes" e afirmou não querer se envolver com o regime.
Teerã deveria agir com responsabilidade para usufruir dos benefícios oferecidos pelo acordo, afirmou uma autoridade americana que pediu anonimato à agência de notícias Bloomberg. Ainda assim, segundo ela, os negociadores americanos continuarão agindo de boa-fé.
Mas o Irã permanece impassível, com o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Qalibaf, advertindo que "a era da intimidação e da extorsão acabou". "Isso não leva a lugar nenhum. Não vamos ceder", declarou ele no X.
Com os preços do petróleo subindo 5% após a escalada mais recente, alguns especialistas alertaram que novos ataques dos EUA provavelmente não mudarão a estratégia de Teerã.
"Em vez disso, eles correm o risco de afastar ainda mais os dois lados do resultado negociado que [...] tanto Washington quanto Teerã ainda parecem preferir", escreveu Dennis Citrinowicz, pesquisador visitante do think tank Atlantic Council, no X.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.