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É 'inapropriado' pedir corte de juros ao indicado para o Fed, diz Trump, que cobra isso de Powell

Apesar de declaração, o presidente dos EUA, que mantém o atual chefe do BC sob pressão desde o início do mandato, afirmou que 'certamente' Kevin Warsh deseja cortar as taxas

30 jan 2026 - 15h18
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O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que "certamente" o novo indicado para a presidência do Federal Reserve (Fed) — equivalente ao Banco Central —, Kevin Warsh, deseja cortar as taxas de juros, em comentários antes de assinar ordens executivas nesta sexta-feira, 30. No entanto, Trump negou que Warsh tenha se comprometido a flexibilizar a política monetária americana, quando assumir o posto.

"Warsh não se comprometeu a reduzir as taxas de juros, e seria inapropriado pedir a ele que as reduzisse. Provavelmente conversarei com ele sobre isso, já que ele quer reduzi-las", disse, ao reiterar que não haverá pressão da Casa Branca nesse sentido, em um comportamento que contrasta na prática com o dispensado por Trump ao atual chefe do BC americano, Jerome Powell.

Nos últimos meses, Trump atacou diversas vezes Powell, chamando-o de "atrasado" para cortar os juros, e chegou a pedir por um afrouxamento da política monetária, além de frequentemente elevar o tom das críticas com ofensas. Em paralelo, o governo Trump também direcionou uma investigação contra o presidente do Fed sob a alegação de gastos excessivos em obras da instituição.

A respeito de Warsh, Trump disse nesta sexta-feira que "é um cara muito bom" e que o diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, concordou na escolha. "Sempre soube que seria um Kevin", mencionou.

Krugman aponta falta de credibilidade

O Nobel de Economia Paul Krugman adotou um tom abertamente pessimista ao avaliar a indicação de Kevin Warsh, afirmando que o ex-diretor do BC americano "não tem a credibilidade intelectual nem moral necessária para ser eficaz" para ocupar o que costuma ser o posto econômico mais relevante do mundo.

Krugman disse que o único "alívio" institucional é o fato de o Fed operar de forma colegiada, o que limita o poder individual do presidente e tende a reduzir o potencial de danos à política monetária no dia a dia.

Para o economista, fora de uma crise, Warsh tende a ser amplamente ignorado pelos pares e pode acabar como "um dos presidentes menos influentes da história do Fed". A avaliação é de que a maioria dos dirigentes simplesmente seguiria seu próprio caminho, ignorando o chefe do BC de forma silenciosa.

Mesmo que haja coordenação entre indicados de Trump no conselho, isso não bastaria para alterar a condução atual da política monetária. O problema, segundo Krugman, surgiria em um cenário de forte turbulência, quando o Fed precisasse de liderança clara e capacidade de ação rápida — como ocorreu sob Ben Bernanke na crise financeira de 2008 ou, mais recentemente, com Jerome Powell ao resistir a pressões políticas.

Krugman afirmou que a maior ameaça da nomeação está menos nos juros e mais na regulação financeira. Para ele, Warsh, ao lado da vice-presidente de supervisão Michelle Bowman, poderia "esvaziar" o papel do Fed como regulador, enfraquecendo salvaguardas construídas após a crise global.

O economista rejeitou ainda o rótulo de "hawkish" (duro) atribuído a Warsh, descrevendo-o como um ator essencialmente político, favorável a aperto monetário sob governos democratas e a juros baixos quando republicanos estão no poder.

O Nobel recorda que, no período pós-2008, Warsh se opôs de forma contundente aos estímulos do Fed, com argumentos que se mostraram equivocados, sem jamais reconhecer erros ou rever posições.

Para Krugman, a ascensão de Warsh se explica por conexões pessoais, habilidade de autopromoção, lealdade partidária e pelo fato de Trump considerá-lo adequado ao papel. O episódio, concluiu o economista, representa um momento constrangedor para o Fed e evidencia como a polarização política nos EUA alcançou até instituições tradicionalmente protegidas.

Estadão
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