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Dos campos para os palcos: como o sertanejo virou um estilo de vida que dita tendências Brasil afora

O gênero, nascido nas estradas do interior, se torna símbolo nacional e faz girar um mercado que vai das novelas aos cruzeiros temáticos

29 out 2025 - 10h40
(atualizado às 16h01)
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Nascida nas estradas de terra e nas festas do interior, a música sertaneja deixou de ser trilha de rodeios e encontros rurais para se tornar um fenômeno cultural e econômico que movimenta o País. Do campo para os palcos, o gênero transformou o orgulho caipira em identidade nacional, ditando moda, inspirando novelas e atraindo milhões de pessoas a eventos como a Festa do Peão de Barretos, um dos símbolos deste universo, que aprendeu a valorizar suas próprias raízes.

Essa força popular conquistou até quem dizia não gostar do ritmo, como a cineasta Susanna Lira. Foi em um set de filmagem que ela conheceu Marília Mendonça, não a cantora — que morreu em um acidente aéreo em 2021, aos 26 anos — mas a música dela. Foi amor à primeira vista. "Era diferente de tudo que eu já tinha ouvido. Cantava o que as mulheres queriam dizer", afirma. Por uma dessas coincidências que só acontecem nos filmes, Lira foi convidada para documentar a vida e a obra da cantora, também conhecida por "rainha da sofrência". A série da Amazon Prime Video, ainda sem título definido, estreia em 2026.

Pioneira, Roberta Miranda diz que nunca teve vergonha de ser sertaneja e sente orgulho de ser caipira
Pioneira, Roberta Miranda diz que nunca teve vergonha de ser sertaneja e sente orgulho de ser caipira
Foto: Lourival Ribeiro/SBT/Divulgação / Estadão

Top 3

Dos dez artistas mais escutados da década no Brasil, sete são sertanejos: Marília Mendonça ocupa o primeiro lugar, Henrique & Juliano o segundo e Jorge & Mateus o terceiro. "Marília Mendonça mudou a cara do sertanejo ao empoderar as mulheres. Elas podem fazer o que quiserem, se vestir como quiserem, ter o corpo que quiserem", diz Carolina Alzuguir, diretora da Spotify Brasil.

Nem sempre foi assim. A música sertaneja ficava restrita a alguns rincões, como o interior de São Paulo e a região Centro-Oeste. "Fio de Cabelo, de Chitãozinho & Xororó, é um divisor de águas", diz o pesquisador Edvan Antunes, autor do livro De Caipira a Universitário. "Foi a primeira música do gênero a tocar nas rádios FM". Como dizem na roça, abriu a porteira.

Orgulho

De nicho, virou mainstream. "Nunca tive vergonha de ser sertaneja. Acanhamento tive quando me consagraram 'rainha da música sertaneja'", confessa Roberta Miranda. "Ser caipira é lindo! Um baita motivo de orgulho".

Houve um tempo em que Zezé di Camargo corrigia quando alguém o chamava de "caipira". Era pejorativo, quase ofensivo. "Sinal de menosprezo", reclama. Hoje, o irmão de Luciano até agradece. "Dois Filhos de Francisco fez sucesso porque ousou mostrar um Brasil que pouca gente conhecia: o Brasil sertanejo".

Autor de clássicos como Romaria (1978) e Tocando em Frente (1990), Renato Teixeira até transformou o tema em canção: Rapaz Caipira, do LP Terra Tão Querida (1985). "Os caipiras ganharam protagonismo e seus 'opositores' se transformaram em vilões", analisa a socióloga Soleni Fressato, da tese Caipira Sim, Trouxa Não. "A cultura caipira virou espaço de denúncia e resistência, e não mais de vergonha e opressão".

Produção

Com um olho na audiência e outro na publicidade, a TV Globo está repleta de programas do gênero: de séries, como Rensga Hits!, a musicais, com Viver Sertanejo. "Quando saí de Campo Grande, ouvi muita 'zoação'. Mas o caipira raiz não perde o chão. Virou lifestyle", diverte-se Michel Teló, mentor dos participantes do Estrela da Casa.

Teló é cantor da música brasileira de maior sucesso no século 21: Ai Se Eu Te Pego (2011). Em turnê, ele visitou mais de 20 países. "Moda sertaneja fala de fé, amor e saudade. Tudo o que o brasileiro sente. Quando você canta com verdade, toca o coração da turma".

Em janeiro, a Globo estreia Coração Acelerado, a próxima novela das sete. O tema de abertura, Olha Onde Eu Tô, será cantado por Ana Castela. A "boiadeira" vai participar da trama no papel dela mesma.

"Na música, o sertanejo é o que há de mais parecido com uma novela. Suas letras contam verdadeiras histórias", explica Izabel de Oliveira, coautora de Coração Acelerado, ao lado de Maria Helena Nascimento. "A ideia de escrever a novela coincidiu com a explosão do 'feminejo'. São mulheres empoderadas lutando por espaço".

Para o consultor Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia pela USP, um dos pioneiros do gênero é o autor Benedito Ruy Barbosa. Depois de Meu Pedacinho de Chão (1971), escreveu outros clássicos: Cabocla (1979), Pantanal (1990), O Rei do Gado (1996)... "Em comum, a valorização da natureza", sintetiza Alencar.

Da arena para o alto-mar

Também estrela de Coração Acelerado, Ana Castela foi a embaixadora da 70ª edição da Festa do Peão de Barretos neste ano. O maior rodeio da América Latina recebeu 990 mil visitantes e movimentou R$ 600 milhões. "Durante os 11 dias de evento, os hotéis atingiram ocupação máxima. Muitos foram reservados com meses de antecedência", afirma o empresário Jerônimo Luiz Muzetti.

Uma das cidades impactadas pelo sucesso de Barretos é Ribeirão Preto. Foi lá, a 315 km da capital, que a cineasta Flávia Orlando rodou Coração Sertanejo, previsto para estrear em 2026. "Nosso filme presta homenagem ao sertanejo raiz", afirma a diretora e roteirista. "É o único gênero que atrai espectadores de todas as gerações".

Voltado para o público infantil, Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa, inspirado na obra de Mauricio de Sousa, fez tanto sucesso que vai ganhar continuação, ainda sem previsão de estreia. Para o cineasta Fernando Fraiha, não foi o sertanejo que mudou, "foi o Brasil que parou de olhar para fora e passou a olhar para dentro".

Embora Barretos seja a mais tradicional festa do peão do Brasil, há outras no circuito, como a ExpoLondrina (PR), o Ribeirão Rodeo Music (SP) e a Caldas Country Festival (MG). "Show sertanejo hoje é meio Rock in Rio", compara o historiador Gustavo Alonso, autor do livro Cowboys do Asfalto. "A música sertaneja é antropofágica. Incorporou elementos de outros gêneros, como o forró, o country e a guarânia".

Para cumprir duas agendas de shows - uma solo, Rústico, e outra com o irmão Luciano -, Zezé dispõe até de jato particular. O quarto desde 1995, quando ele comprou o primeiro modelo. "Não sou melhor do que ninguém só porque tenho avião. No meu caso, não é ostentação, é necessidade".

Mais do que um gênero de música, o sertanejo virou um estilo de vida que dita moda e lança tendência pelo Brasil afora. Não por acaso, não faltaram botas de couro, chapéus de caubói e jaquetas de luxo em Barretos. A partir de novembro, esse look sertanejo troca as arenas pelos cruzeiros temáticos.

Das 14 opções da temporada, sete são sertanejas. "A procura é tão grande que muitos navios esgotam meses antes do embarque", diz Bruno Ribeiro, vice-presidente da PromoAção. "É mais do que música, é imersão".

Estadão
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