Customização pode custar até 3 vezes o valor da moto em SP
<br/><br />A trilha sonora da troca de escapamento, ajuste no banco, pintura ou solda da lataria das motos é Kiss. Não só o rock da banda americana, mas todos os que integram a programação da rádio FM que leva o mesmo nome do grupo de Nova York. Tudo parte do estilo de quem faz da pilotagem de motocicletas não apenas um hobby, mas uma forma de ver o mundo. Diferente de outras oficinas, a Garage Code, no bairro Vila Olímpia, em São Paulo, a decoração é marcada pelo bar dentro do estabelecimento, no lugar das paredes com calendários ilustrados por musas seminuas ou propagandas de lubrificantes. Por isso, mereceu a atenção de uma das maiores marcas de cerveja do mundo com um cartaz estilizado. "Vendemos mais que a padaria do lado", diz o proprietário e customizador de motos, Claudio Bessa, 45 anos.<br /> <br />O bar é apenas para o conforto dos clientes, porque seu negócio principal é outro: a customização ou tuning de motos. Os apaixonados por duas rodas investem firme para personalizar o brinquedo: até três vezes o valor da motocicleta, de acordo com Bessa e também alguns clientes que aguardavam o serviço bebericando e fumando. "Uma moto nova custa o preço de um carro popular zero (R$ 25 mil), enquanto a customização pode ultrapassar facilmente os R$ 70 mil, R$ 75 mil. Ninguém quer ficar com a moto original", diz Bessa. A especialidade da oficina é a marca mais tradicional de motocicletas do mundo, a cobiçada Harley Davidson. </P><br /> <br />O serviço buscado pela maioria dos clientes é a abertura do escapamento. A preferência se explica por uma característica das Harley: o ronco único produzido pelo motor. Mas a transformação dos modelos também busca atender exigências de conforto e desempenho das motos, como explica o piloto de avião e apaixonado por motos Paulo Albuquerque Filho, 36 anos, dono de duas Harley. "O motociclista de verdade quer uma moto não só para aparecer e impressionar, mas também que consiga rodar legal com ela", diz. Os adeptos das motos customizadas possuem até um termo pejorativo para quem só faz a customização para aparecer: "coxinha", ou simplesmente coxa.<br /> <br />Os números do negócio impressionam. Uma das cerca de 20 oficinas especializadas em transformação de motocicletas da capital paulista, a Garage Code tem atualmente no cadastro 900 clientes ativos, 1.400 clientes inativos e trabalhava ao mesmo tempo no tuning de oito motos - um trabalho que pode demorar de três dias a vários meses. O grosso do público é de executivos e profissionais liberais com alta renda, circulando pela faixa da meia idade. Mas o dono da oficina enxerga uma transformação neste perfil. "Enquanto nos EUA as motos clássicas vem perdendo seu público pela velhice dos adeptos, no Brasil cresce a procura de um público mais jovem pelo clássico e a estabilidade, já que uma Harley pode rodar até 70 mil km sem abrir o motor", diz.<br /> <br />Dono de uma maxi-scooter Burgman 650, Carlos Xavier, 50 anos, se insere entre os chamados "Harleyros" com uma jaqueta da marca. Ele diz que a identificação entre os usuários da marca chega ao ponto de de um reconhecimento instantâneo entre dois desconhecidos que se encontram por acaso. "Se você tem uma Harley e encontra no posto de gasolina alguém que também tem uma, vocês automaticamente tem o que conversar", garante . Entre as vantagens do uso de motos sobre o de carros, Xavier enumera os sentidos ligados à experiência de uma viagem sobre duas rodas. "Você percebe odores e sensações que antes passavam despercebidos, como por exemplo o atrito do asfalto com o pneu da moto", diz.