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Contexto mudou e não há mais tanto recurso, diz CEO da Feira Preta sobre cancelamento de evento

Festival de empreendedorismo negro idealizado e gerido por Adriana Barbosa há duas décadas ficou sem patrocínio de grandes empresas em SP; evento fará parte de coalizão com outros festivais

26 mai 2025 - 16h11
(atualizado às 17h35)
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Os dias 3 e 4 de maio de 2025 eram as datas previstas para a realização de mais uma edição da Feira Preta, conhecida como a maior do segmento de empreendedorismo negro no Brasil. No entanto, o evento anual iniciado em 2002 não aconteceu. O motivo da interrupção das edições foi a falta de patrocínio de grandes empresas à iniciativa. Dos R$ 14 milhões necessários, faltou em torno de 60%.

Ao longo de mais de duas décadas, o evento com sede em São Paulo (SP) reuniu 200 milhões de frequentadores e 5 milhões de empreendedores de todo o País, em uma programação que envolvia também palestras e shows. No ano passado, o festival ocorreu no Parque do Ibirapuera, em maio, durante três dias.

Segundo a executiva Adriana Barbosa, idealizadora e diretora da Feira Preta, era nesse espaço que parte dos expositores conseguiam grande parcela de seu faturamento e lançavam novos produtos. Para garantir sua periodicidade, a feira, agora, passará a ser bianual, e, neste ano, terá uma versão em Salvador (BA), em novembro, com apoio do poder público local.

Adriana Barbosa realizou a primeira Feira Preta em 2002
Adriana Barbosa realizou a primeira Feira Preta em 2002
Foto: TABA BENEDICTO/ ESTADAO / Estadão

Do ponto de vista de Barbosa, o cancelamento por falta de aporte é um sintoma dos tempos atuais de pressão que a agenda de diversidade vem vivendo, iniciados em 2023 e impulsionados pelas iniciativas anti-ESG do governo Donald Trump, que acabam impactando o mercado global. Além disso, o movimento de declínio ganhou ainda mais força quando multinacionais começaram a enfraquecer ou encerrar suas políticas de diversidade.

Para as organizações que desejam fazer eventos relacionados às iniciativas de impacto, a saída deve ser a colaboração entre si e o trabalho mais estratégico com poucos recursos, acrescenta a executiva. Em junho, a Feira Preta deve integrar uma plataforma conjunta com outros festivais negros, como o Batekoo, para articulação de novas soluções de sobrevivência no atual cenário.

Abaixo, os principais trechos da entrevista de Barbosa ao Estadão:

Por que houve o cancelamento da Feira Preta após mais de 20 anos?

Do ponto de vista pragmático, por causa de um processo de captação de recursos. Começamos a captar um ano antes. Quando terminou a feira do ano passado, no mês seguinte já estávamos em contato com as empresas para dar continuidade no patrocínio. Com algumas delas conseguimos firmar, com outras, não. Só que o timing da captação versus o volume de recursos necessários não foi equilibrado. Começamos a pagar o espaço, o time de arquitetura, artistas, mas o recurso não chegou a tempo. Já do ponto de vista de contexto, (o caso) George Floyd causou um ápice (de ações de diversidade), na época da pandemia, mas, depois de três anos, essa pauta foi diminuindo, foi se fragmentando. E aí, quando Donald Trump assumiu (a presidência dos EUA), ela foi se esvaziando e as estratégias nas empresas também foram se modificando. Então, tem a questão da negociação com as empresas, mas também tem um contexto macro que interfere, sim, nessas negociações.

Palco de atrações musicais na Feira Preta em 2024
Palco de atrações musicais na Feira Preta em 2024
Foto: Feira Preta/Divulgação / Estadão

Então, o cancelamento de um evento como esse em um contexto de pressão contra a agenda de diversidade é sintomático?

Pelas minhas andanças neste ano, eu tenho visto, sim, uma mudança de estratégia das empresas em relação ao tema. Eu fui recentemente para Londres (Inglaterra), em um fórum global que reúne tanto empreendedores sociais, quanto investidores sociais, e é uma pauta universal a questão da retração do campo da filantropia, e do que aconteceu nos EUA sobre o cancelamento dos investimentos em pautas (sociais). O que aconteceu na Corte (dos EUA) de revogar ações afirmativas vai refletir no Brasil, na filantropia, no investimento social privado, no ESG. Já está refletindo. Porém, há algumas empresas que construíram cultura, essas não vão deixar de olhar para esse tema. Mas aquelas que só surfaram na onda, essas não conseguiram construir cultura e fica mais frágil de sustentar o tema. Só que, diferente dos EUA e de alguns países, o Brasil tem a sua maioria populacional negra, e temos um quadro de desigualdade que é gritante. Então, para o Brasil, a característica é outra. Não deveria ser um lugar de instabilidade. Tem que ser um lugar de estrutura. Você constrói uma estrutura de redução da desigualdade, trazendo a dimensão racial como um foco de transformação, para, de fato, promover a mobilidade social da população negra e a inserção da população negra em lugares mais equânimes.

E como isso se reflete no Brasil?

Tudo que está acontecendo no macro reflete também no Brasil. São múltiplas crises acontecendo pelo mundo, e o Brasil também capta um pouco disso. O que eu sinto é que o Brasil precisa entender onde está a sua verdade. Onde o que está acontecendo no macro se reflete no micro e quais são as estratégias a serem adotadas diante das características do Brasil. Mesmo na questão das mudanças climáticas, é necessário fazer ações de raça e de gênero. Quando olhamos as populações que vêm sendo acometidas pelos desastres naturais, elas têm cara. Sinto que vamos ter que repactuar muita coisa. É um momento de cooperação. Não vai ter mais recurso, a filantropia não vai dar para essas múltiplas crises, para tantos problemas. Então, (é entender) como repensamos as estratégias, a partir de um olhar sistêmico, de cooperação, de menos sobreposição e mais complementaridade de esforços. Olhar, de fato, de maneira sistêmica, qual é o papel do governo em relação às políticas públicas, qual é o papel da iniciativa privada, qual é o papel da filantropia, qual é o papel da universidade, qual é o papel da sociedade civil, e em que momento vamos colocar todo mundo na mesa e fazer essa engrenagem funcionar.

Empreendedoras na Feira Preta de 2024
Empreendedoras na Feira Preta de 2024
Foto: Feira Preta/Divulgação / Estadão

Quais ganhos os empreendedores deixam de ter quando um evento como a Feira Preta não acontece?

Para além do empreendedor, tem uma cadeia produtiva, e quase 70% da cadeia produtiva do festival é formada por pessoas pretas: equipe de produção, seguranças, carregadores, artistas, diretores de palco, designers e muita gente. E, no caso dos empreendedores, para a maior parte deles, a Feira Preta é o maior evento no qual comercializam. Eles se programam, investem. É onde eles lançam o que vai acontecer de tendência na produção deles para os próximos anos. Então, quando a feira deixa de acontecer, tem uma quebra no fluxo de comercialização, promoção e divulgação desses empreendimentos. Em média, o empreendedor tem até 40% do faturamento anual (arrecadado na Feira Preta). Quando ela deixa de acontecer, é dinheiro que não é injetado na mão de pessoas pretas. E isso, para mim, é um problema. Porque, além do artista que deixa de receber, do produtor, do técnico, do engenheiro, do arquiteto preto, a Feira Preta é uma das iniciativas lideradas por pessoas pretas que mais contrata influenciadores negros para fazer promoção. Temos toda uma movimentação de uma cadeia produtiva negra que foi se constituindo ao longo desses anos.

A sra. anunciou que o evento agora será bianual. Quais estratégias serão utilizadas para manter essa periodicidade?

Nós trabalhamos não só o festival. É um ecossistema. Temos programas de formação empreendedora, programas de ampliação de repertório, de desenvolvimento desses empreendedores que escoam dentro da feira. Continuamos operando ainda, fazendo formação dos empreendedores, com as casas abertas em São Paulo e no Recôncavo baiano. Fazemos também produção de dados, produzimos muitas pesquisas, temos um braço de inteligência de dados que ajuda a balizar um pouco do nosso trabalho e dos empreendedores. E a estratégia que estamos vendo para esse adiamento, primeiro, é a feira se transformar em bianual. Nós vamos nos juntar com outros festivais e criar uma plataforma de festivais pretos. Já estamos conversando com o festival Batekoo, com o Latinidades, de Brasília, com o Porongos, do Sul, que são festivais liderados por pessoas negras, para pensar em uma coalizão para negociação com artista, fornecedor, captação de recurso. E também criarmos um calendário anual desses festivais, em uma perspectiva de influência em políticas públicas, no campo da economia criativa. Porque, para nós, os festivais negros não só são festivais de entretenimento, eles são festivais de impacto, sobretudo no campo econômico. Então, (estamos pensando em) como é que a gente se junta, cria uma coalizão e se fortalece enquanto iniciativas lideradas por pessoas negras.

Então, para quem trabalha hoje com impacto e precisa de parcerias ou quer ter uma certa autossuficiência para manter essas iniciativas de pé essa é a saída?

Temos como premissa da nossa organização trabalhar de maneira sistêmica. Então, é muito difícil fazermos sozinhos as nossas coisas. Sempre tem relação com uma universidade, com o governo, com iniciativa privada, e, quando um apoiador vem, dificilmente ele vem só para colocar marca. Por isso, temos já como premissa de trabalho uma cultura de cooperação e colaboração. Tanto que vamos lançar essa plataforma de festivais. (É o modo como) a gente trabalha junto, aprende junto, resolve os nossos problemas juntos. Esse é o caminho que eu vejo, até porque o contexto mudou muito. São múltiplas crises, não tem recurso suficiente para todo mundo. Vamos ter que trabalhar de maneira inteligente, estratégica, com poucos recursos. E, nesse caso, é menos sobreposição e mais complementaridade de vocações.

Estadão
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