'Brasil poderia oferecer energia mais limpa, barata e competitiva', afirma presidente da Abrace
Paulo Pedrosa critica oferta de subsídios, defende abertura do mercado e diz que inovação do setor está na transformação do consumo
Referência global na produção de energia limpa, o Brasil gera 86,8% da sua energia elétrica a partir de fontes renováveis, de acordo com dados do Balanço Energético Nacional (BEN), publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e pelo Ministério de Minas e Energia. No entanto, existem muitas oportunidades que o País não conseguiu aproveitar ainda.
Esta é a análise de Paulo Pedrosa, presidente executivo da Abrace Energia, entidade que representa mais de 50 grandes grupos industriais responsáveis por cerca de 50% do consumo de eletricidade da indústria brasileira. "Há muito tempo, o País perdeu o protagonismo da sua política energética, que passou a sofrer muita influência de decisões tomadas no Congresso e no Executivo", comenta.
Economista e ex-secretário executivo do Ministério de Minas e Energia durante o governo do ex-presidente Michel Temer, Pedrosa critica a política de subsídios para painéis solares. "Tivemos uma explosão de painéis, que se espalharam pelo País de forma desordenada. A tecnologia se apresenta como uma energia limpa e barata, mas está sujando e encarecendo a energia".
Enquanto lidera um debate sobre a transição energética global, o Brasil tenta se posicionar como importante ator no mercado de data centers e inteligência artificial. Esse caminho, segundo Pedrosa, deve passar por uma energia mais limpa, barata e segura. Ele também defende uma transição energética focada em estimular o consumo, em vez da produção.
Paulo Pedrosa é um dos painelistas confirmados no Energy Summit Global, evento global de inovação e empreendedorismo nos setores de energia e sustentabilidade. Com parceria do Estadão, o festival deve reunir mais de 12 mil participantes, 3,3 mil empresas e 300 palestrantes entre os dias 23 e 25 de junho no Rio de Janeiro.
Confira trechos da entrevista:
O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Estamos aproveitando bem as vantagens que isso traz ou desperdiçando as oportunidades?
O Brasil poderia fazer muito mais. A nossa vocação é única. Deveríamos ter uma estratégia de desenvolvimento baseada numa energia limpa e barata. Mas o enfoque na competitividade é tão importante quanto o foco na energia limpa. Nossa energia é barata e renovável, sem as condições atribuladas do Oriente Médio. Vivemos em paz com o mundo, temos a base mineral e agrícola para produzir produtos verdes e competitivos. Infelizmente, estamos estragando um pouco isso. Há muito tempo, o País perdeu o protagonismo da sua política energética, que passou a sofrer muita influência política de decisões tomadas no Congresso e mesmo na esfera do executivo. Essas decisões nos afastam daquele objetivo de energia limpa e barata.
Pode dar um exemplo desse cenário?
Por causa do modelo de subsídios, tivemos uma explosão de painéis solares, que se espalharam pelo País de forma desordenada. Eles se apresentam como uma energia limpa e barata, mas estão sujando e encarecendo a energia. Tem tanta energia nos momentos de sol que o operador do sistema (ONS) precisa desligar geradores que estão dando prejuízo. Há risco de apagão na hora em que tem muito sol, porque está sobrando energia. E depois, quando o sol se põe, temos risco de apagão porque o País não tem potência para equilibrar o sistema.
E tem alguma solução no horizonte? O que enxerga como possibilidades?
O movimento de 'despioramento' já começou. Foi aprovada uma lei que começa a organizar o preço da energia. Acho que o setor tem de se unir em torno disso. Precisamos olhar mais para o consumo. Ano eleitoral traz oportunidades de discutir quais são os melhores caminhos para o País.
Nesse ano eleitoral, a energia vai fazer parte dos debates políticos?
O Brasil está em um momento muito polarizado. Acho que esse debate vai acontecer sem a repercussão que mereceria, mas vai acontecer. Já estamos dialogando com (representantes de) campanhas presidenciais e estamos articulando a Frente Nacional de Consumidores.
O sr. propõe um debate sobre a abertura de mercado do mercado de energia no Brasil. Quais seriam as vantagens deste tipo de movimento para o consumidor brasileiro?
A abertura de mercado não é feita só para o consumidor ganhar. Ela é feita para todo mundo ganhar. Para que a abertura do mercado seja boa, ela tem de ser boa para o consumidor e para o sistema. O consumidor tem de ter o sinal de preço correto para saber qual é o horário da energia mais barata. Ele reage de forma inteligente a sinais de preços inteligentes. É isso que a abertura de mercado tem de proporcionar: um modelo que seja bom para todos. Eu posso ter, por exemplo, um boiler elétrico para esquentar a água do meu banho quando a energia estiver barata ou mesmo ter uma bateria na minha casa, além de um painel solar. A abertura do mercado, associada a preços corretos para a energia, vai fazer um sistema melhor para todo mundo.
E esse debate está avançando em um ritmo adequado?
Tem um cronograma. Agora ele precisa se organizar para que essas coisas aconteçam. Não adianta só abrir o mercado sem ter o preço correto, que é uma das bandeiras que a gente levanta.
Hoje, o Brasil tem energia suficiente para abastecer o País e se tornar competitivo globalmente?
Temos muita energia quando não precisamos. Nós devemos organizar esse setor para ele trazer melhores resultados. Não há um problema grave no Brasil de falta de energia. Existe um problema localizado de falta de potência.
Qual é o caminho para modernizar o setor elétrico?
Estamos em um momento complexo. Está difícil para todo mundo, até para quem apostou em soluções que contam com incentivos do sistema. Este é um momento de unidade. É o diálogo que vai nos levar ao caminho do aperfeiçoamento. Todo mundo tem de perder um pouquinho para que todo mundo ganhe muito no futuro. O setor está maduro e isso passa por parar de inventar coisa que aumenta o custo da energia, corrigir as distorções e consertar o sinal de preço, fazendo com que cada um ganhe conforme a contribuição que traz para o sistema e pague conforme o custo que provoca.
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