Agricultores filipinos correm para acompanhar a febre global do ube
Também chamado de inhame-roxo, o ube passou de iguaria nostálgica nas Filipinas a item exótico em cafeterias ao redor do mundo. Popularidade do alimento coloca cultivo sob pressão.Em uma recente viagem de carro ao retornar à Alemanha, a dona de cafeteria April Schoengen avistou um doce roxo em uma padaria de posto de gasolina.
"Era ube, como eu suspeitava", disse ela, surpresa por encontrar uma sobremesa com sabor filipino em um posto de gasolina europeu.
Schoengen vende bolos e bebidas com sabor de ube em sua cafeteria temática filipina, a "Ube de Oro", em Bonn. Quando abriu, há dois anos, o café atendia principalmente a uma clientela filipina.
Agora, ela vê cada vez mais pessoas de diferentes origens entrando, atraídas pelos doces de tom lilás.
O que é ube?
Quando clientes que nunca viram ube perguntam sobre ele, Schoengen mostra um cartaz que resume as origens e a importância cultural do tubérculo.
Ube, também chamado de inhame-roxo, é um vegetal naturalmente vibrante, de cor roxa, originário das Filipinas.
Com sabor levemente adocicado e nota de nozes, o ube é normalmente usado em geleias, sorvetes ou sobremesas servidas durante festividades nas Filipinas.
Para muitas comunidades indígenas, trata-se de um alimento básico e importante fonte de proteínas, carboidratos e antioxidantes, explica Cheryl Marie Natividad-Caballero, subsecretária de agricultura das Filipinas para culturas de alto valor.
Em outros lugares, o ube também pode aparecer na forma de uma espuma roxa e fria sobre um café gelado. Também é o ingrediente que deixa panquecas e waffles mais vibrantes e "instagramáveis".
Assim como o onipresente matcha, o ube ganhou cafeterias, padarias e restaurantes ao redor do mundo.
Queda na produção de ube nas Filipinas
O cultivo se tornou tão popular que foi chamado pelo departamento de comércio das Filipinas de "carro-chefe das exportações".
Em 2025, as Filipinas exportaram 1,7 toneladas métricas — equivalente a 2,9 milhões de dólares (R$ 15 milhões) — em produtos de ube, como extratos e pós, sendo a maior parte destinada aos Estados Unidos. Esse valor representa um aumento de 20% em relação ao ano anterior.
Apesar da crescente popularidade, a produção de ube nas Filipinas vem diminuindo de forma constante. De uma colheita total de mais de 30 mil toneladas métricas em 2006, a Autoridade de Estatísticas das Filipinas registrou apenas 12,4 mil toneladas em 2025.
Um dos obstáculos enfrentados pelos agricultores é a falta de materiais para plantio, segundo Grace Backian, diretora do Centro de Pesquisa e Treinamento em Cultivos de Raízes do Norte das Filipinas.
A instituição, com sede em Benguet, ao norte de Manila, dedica-se à inovação de práticas agrícolas para tubérculos por meio de pesquisa e treinamento de produtores.
"Como a demanda externa por ube aumentou, o centro também passou a receber mais pedidos de mudas para expandir as áreas de cultivo", disse Backian à DW.
Entre os que buscam mudas estão agricultores indígenas das províncias de Pampanga e Tarlac, na região de Luzon Central.
A demanda global pressiona produtores de ube
Christopher Gomez, que trabalha com agricultores no processamento e distribuição de ube, disse que os produtores costumavam guardar parte da colheita para replantio na safra seguinte.
No entanto, a demanda global fez com que os agricultores vendessem toda a produção e passassem a buscar mudas junto a fornecedores e ao governo.
"O potencial de terras agrícolas aqui é enorme, mas mal temos mudas. Tentamos pedir ao governo, mas não conseguimos, e agora estamos recebendo materiais de uma ONG", disse Gomez.
O grupo de agricultores também recebeu pedidos de outras regiões e até de produtores da Indonésia por material de plantio.
"Não queremos exportar matéria-prima, apenas ube processado como pó e extratos, porque queremos manter o cultivo aqui", disse Gomez à DW.
Antes da febre do ube, os agricultores colhiam o tubérculo nas áreas montanhosas e o vendiam em mercados locais, geralmente com prejuízo de 20 pesos (R$ 1,70) por quilo.
Gomez passou a comprar diretamente dos agricultores pelo preço atual de 80 pesos por quilo. Os pedidos também cresceram de 300 quilos para 30 toneladas.
Os produtores de ube conseguem acompanhar a demanda?
Para acompanhar a demanda mantendo a sustentabilidade, Backian destacou a necessidade de estufas locais onde os agricultores possam cultivar mudas de qualidade e manter o abastecimento na própria região. Também é preciso oferecer treinamento em técnicas inovadoras de plantio.
"O governo deveria fornecer financiamento para essas estufas e para os treinamentos", disse Backian, observando que os agricultores podem se desestimular a cultivar ube se não tiverem acesso aos insumos.
A subsecretária Natividad-Caballero afirmou que o departamento trabalha para garantir a disponibilidade de materiais de plantio por meio da distribuição a partir de centros regionais de pesquisa para governos locais.
Embora o ube não seja uma cultura sensível e consiga crescer em diferentes terrenos, Backian explicou que ele se desenvolve melhor em áreas onduladas, com boa drenagem do solo.
Isso significa que o cultivo é intensivo em mão de obra, já que o preparo do solo precisa ser manual. E também exige paciência: leva cerca de nove meses para produzir, desde que resista aos tufões que frequentemente assolam o país tropical.
Backian observou ainda que o ube continua sendo uma cultura secundária, já que os agricultores preferem cultivos comerciais como o milho, cujo ciclo leva apenas três meses até a colheita, gerando retorno imediato para os produtores.
"Esse também é um dos desafios na produção. É muito difícil cultivar ube em áreas de altitude. Mas os agricultores são muito resilientes. Desde que vejam benefícios nesse cultivo, vão continuar plantando", disse Backian.
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