Movimentos de Argentina e EUA acendem alerta sobre atuação na eleição no Brasil e geram reação dos Poderes
Aceno de Trump e Milei à oposição do governo brasileiro esconde disputa geopolítica na América Latina, apontam especialistas
Um abalo diplomático pôde ser sentido nos últimos dias com a intensificação de movimentos da Argentina e dos Estados Unidos contra o Brasil. Enquanto Javier Milei declarou que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era "presidiário" e o ministro Alexandre de Moraes "lixo careca", durante a Convenção Nacional do Partido Liberal ao lado de Flávio Bolsonaro, o governo de Donald Trump aplicou novas taxas de 25% a produtos do Brasil e planejava enviar comitivas ao País para questionar integridade das urnas eletrônicas.
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Especialistas ouvidos pelo Terra apontam que narrativas contra o processo eleitoral do Brasil, com críticas infundadas, têm potencial para tumultuar, ou até mesmo contribuir para a ruptura do processo democrático estabelecido no país.
Em contrapartida, as reações das autoridades do País e do Itamaraty contra essas tentativas de intervenções, por exemplo, ajudam a preservar a soberania nacional. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, foi uma das figuras que rebateu as críticas do presidente argentino, classificando a referência a Moraes como desrespeitosa e incompatível com a civilidade. Ele reiterou a autonomia do Judiciário.
Outro foi o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que chamou Milei de “palhaço” e disse que o risco-país da Argentina, a dívida pública e a inflação são “muito mais altos” do que no Brasil. Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, ainda classificou as declarações "ríspidas, grosseiras e inaceitáveis".
O Itamaraty também entrou em ação. No caso da Argentina, o governo brasileiro chamou de volta a Brasília o embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas, depois dos ataques de Milei. O gesto é considerado um dos mais duros no meio diplomático, reservado para momentos, no qual se avalia que há uma crise com outro país.
Já era esperado, conforme Clayton Pegoraro, professor do Mestrado Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que Milei tentasse um alinhamento com a direita, nesse caso, representado por Flávio Bolsonaro, e fizesse ataques ao Brasil, com um discurso mais agressivo e polarizado.
Para o cientista político, Maurício Santoro, professor de relações internacionais, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, a essa escolha clara de lado, tanto do presidente argentino quanto de Trump, causa uma série de “fricções diplomáticas” e alimenta a disputa no debate político, pois intensifica ainda mais a polarização.
EUA buscam reafirmar sua influência em detrimento da China
A notícia de que Riley Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto do Departamento de Estado americano, viriam ao País para deslegitimar o sistema eleitoral brasileiro a pedido de Trump caiu como uma bomba. O Itamaraty agiu rapidamente e negou o visto de ambos. Além disso, o governo brasileiro estuda usar a Lei de Reciprocidade perante o governo norte-americano, mas tenta negociar a redução das taxas aplicadas pelo governo norte-americano.
Embora os dois assuntos passam até parecer de longe não ter qualquer ligação, tanto Santoro quanto a doutora em relações internacionais, Fernanda Brandão, professora e coordenadora do curso de RI da Faculdade Presbiteriana Mackenzie no Rio, apontam que a motivação tem o mesmo fim e é político-econômica.
Ela explica que a postura do republicano precisa ser entendida dentro do contexto geopolítico global, em que os EUA têm buscado reafirmar sua influência no continente latino-americano em detrimento da presença chinesa.
“Para tanto, contar com presidentes alinhados incondicionalmente com os EUA é de grande interesse para o governo Trump. A expectativa para os americanos é que as eleições no Brasil sigam a tendência regional de eleger candidatos no espectro mais à direita e com discurso de alinhamento aos interesses americanos”, ressalta Fernanda.
“Você não tem propriamente aqui uma questão envolvendo alguma prática desleal de conduta brasileira. É muito mais essa motivação realmente de tentar forçar o governo Lula a adotar uma série de medidas, principalmente na questão da relação com a China”, complementa Santoro.
A doutora em RI ainda destaca que a postura adotada pelos dois líderes de estado destoa dos demais membros da Organização dos Estados Americanos (OEA), entidade que monitora os pleitos eleitorais e busca garantir a lisura do processo eleitoral democrático nos países membros.
“As acusações feitas por ambos buscam enfraquecer a legitimidade do resultado eleitoral no país, principalmente se o candidato eleito não for um aliado. Esse tipo de acusação também tem o potencial de tumultuar o processo e contribuir até mesmo para uma ruptura com o processo democrático estabelecido no país”, afirma.
‘Factóides’ que podem causar grandes estragos
O questionamento a respeito das urnas eletrônicas não é bem uma novidade. Isso acontece pelo menos desde 2014, quando Aécio Neves (PSDB-MG) foi derrotado por Dilma Rousseff (PT) e pediu a auditoria da votação eletrônica. Aquela foi a primeira feita numa eleição presidencial brasileira.
Clayton Pegoraro, professor do Mestrado Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie, vê essa questão como um “factóide político”, sem qualquer fundamento técnico ou jurídico para sustentá-lo, pois inúmeros testes já comprovaram que o sistema é seguro.
“Isso é só mais um fato para criar instabilidade em época de eleição. E lembrar que todos esses políticos que estão aí, todos foram eleitos pela urna eletrônica”, pontua.
Já Santoro direciona para os estragos que isso pode causar. A desconfiança quanto a lisura do processo eleitoral brasileiro é capaz de criar uma crise doméstica, na qual vários grupos se beneficiarão de eventuais declarações americanas para reforçar as suas posições.
“E eventualmente isso pode gerar até um problema diplomático também para o Brasil se outros países adotarem também esse tipo de posicionamento. É um risco bastante forte”, destaca.
Uma coisa é certa: as eleições brasileiras são um assunto de política doméstica, portanto, a defesa da integridade do processo do pleito é uma forma de defender a soberania de um país de intervenção externa, conforme aponta a professora Fernanda.


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