A viagem do grão brasileiro até se tornar "café alemão"
Principal fornecedor de café verde para a Alemanha, o Brasil quer ampliar sua fatia no mercado final ao agregar valor aos grãos antes da exportação. Historicamente focado na commodity, o país vê no acordo comercial Mercosul-União Europeia a oportunidade de reduzir tarifas e atrair aportes em processamento e cafés especiais. Especialistas apontam que a integração entre a produção brasileira e a indústria de torrefação alemã pode gerar parcerias mais lucrativas para ambos os lados.
Países têm relação comercial antiga, e acordo Mercosul-UE, que reduz gradualmente tarifas sobre o café brasileiro, pode abrir espaço para o Brasil capturar uma parcela maior do valor do produto na Alemanha.A Alemanha não planta café, mas ocupa um lugar importante na cadeia global da bebida. O país importa mais de 1 milhão de toneladas de café verde por ano e tem cerca de 900 empresas de torrefação, segundo a Associação Alemã de Café. Nesse cenário, o Brasil é um dos principais fornecedores do país europeu.
Em 2025, o Brasil respondeu por 44% das importações alemãs de café verde (o grão cru), de acordo com a entidade. Para Holger Preibisch, CEO da Associação Alemã de Café, o Brasil tem importância fundamental tanto para o mercado alemão quanto para a indústria alemã de processamento de café.
A relação também é importante para o Brasil. No ano passado, a Alemanha foi o principal destino das exportações brasileiras de café, com 5,4 milhões de sacas — 13,5% de todos os embarques do país, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
Mas o grão que sai do Brasil ainda pode percorrer um longo caminho - e ganhar bem mais valor - antes de chegar à xícara do consumidor. Isso porque, enquanto o Brasil concentra sua força na produção e na exportação do grão, a Alemanha possui uma indústria voltada ao processamento e à comercialização do produto.
Na prática, o produto cru parte do Brasil e chega à Alemanha para passar por outras etapas, como ser misturado, torrado, descafeinado ou processado para, então, ser vendido no mercado alemão ou seguir para outros países. É nessas etapas que a indústria alemã consegue agregar valor ao produto.
"A Alemanha tem marcas poderosas, tradicionais no mundo todo. Tem uma ampla rede de armazéns, indústrias, indústrias de café torrado e moído, indústrias de cafés solúveis. Então, ela trabalha em todos os elos que é possível agregar valor", afirma Marcos Matos, diretor do Cecafé.
Quando o grão brasileiro virou questão alemã
A relação entre a Alemanha e o grão brasileiro não é de hoje. Um episódio curioso ocorreu na antiga Alemanha Oriental: nos anos 1970, uma quebra de safra no Brasil fez os preços do café dispararem no mercado mundial. Ao mesmo tempo, o aumento do preço do petróleo pressionava os custos de importação.
A solução do país comunista para baratear o produto foi a criação do chamado "Kaffee-Mix", um substituto que continha apenas 51% de café. Os outros 49% eram compostos por diferentes substitutos, segundo o DDR Museum, que possui uma exposição que retrata como era viver do lado Oriental da Alemanha.
"A mistura não só entupiu muitas máquinas de café, como também não agradou ao paladar dos cidadãos da Alemanha Oriental", diz um texto no site do Museu da DDR, que fica em Berlim.
Quase cinco décadas depois, porém, a questão é outra. O café brasileiro continua chegando à Alemanha, mas a discussão passou a envolver também o que acontece com o produto depois que ele deixa o país de origem - e como o Brasil poderia ganhar uma fatia maior na exportação do insumo. Isso consta, inclusive, em algumas propostas de candidatos à Presidência nas Eleições de 2026: a inserção do país em cadeias globais de maior valor para o país.
Para Matos, do Cecafé, a diferença na atuação dos dois países está relacionada à própria estrutura das duas economias e à relação histórica da Alemanha com o comércio global, enquanto o Brasil sempre foi forte exportador de commodities. Segundo ele, o Brasil agora "quer evoluir na industrialização" e busca ampliar a agregação de valor à produção por meio do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE).
"Nós temos a cultura da commodity porque o Brasil é um país continental, grande produtor de soja, milho, dos principais do mundo, laranja, café, então a gente tem a cultura do volume", descreve Matos. "Por outro lado, desde 1600 a Alemanha se especializou em indústria, em ser um polo de agregação de valores. Então são séculos. Os europeus, desde a rota da seda, são muito fortes negociadores, eles buscam agregação de valor. Então é um processo histórico muito mais longo que explica tudo isso."
O que muda com o acordo Mercosul-UE?
Com o debate entre os candidatos sobre agregar valor às exportações brasileiras, a pergunta que surge é se uma parcela maior dessas etapas poderia ocorrer no Brasil, e o acordo comercial entre Mercosul-UE acrescenta um novo elemento a essa discussão.
A vigência do acordo começou provisoriamente em 1º de maio deste ano e, como parte dele, há uma redução gradual de tarifas para diversos produtos, como o café solúvel, que enfrenta atualmente uma tarifa de 9%, enquanto o café torrado e moído é taxado em 7,5%. Pelo acordo, essas tarifas serão eliminadas gradualmente.
Para o setor brasileiro, a redução das tarifas pode melhorar as condições para vender à Europa produtos que agregam maior valor. Para Matos, a medida pode ajudar o Brasil a competir com países que já têm acesso sem tarifa a esse mercado, como o Vietnã, importante concorrente brasileiro no mercado cafeeiro.
Mas a redução tarifária não significa, por si só, que o Brasil passará a industrializar mais café. Para que mais etapas da cadeia ocorram no país (e agreguem valor ao produto final ainda em solo brasileiro), são necessários investimentos em áreas como capacidade de processamento, tecnologia e logística. Isso envolve investimentos capazes de ampliar espaço no mercado internacional. Matos vê justamente espaço para investimentos de empresas alemãs.
"Quando você está mais perto da matéria-prima e pode acessar mercados com eficiência logística, com eficiência tributária, eficiência de distâncias, é uma opção", diz Matos. "O café está aqui no Brasil e nós temos a energia, toda essa parte com algumas vantagens competitivas, e poderia ser uma opção também os alemães fazerem seus investimentos industriais no Brasil, mas sempre com uma grande integração econômica."
A ideia, segundo ele, seria aproximar as duas pontas da cadeia: o Brasil, onde o café é produzido, e os mercados consumidores, onde o produto é industrializado, comercializado e transformado em diferentes produtos.
Para ele, o Brasil já tem buscado agregação de valor por meio de cafés especiais, boas práticas de sustentabilidade e balanço de carbono, mas o acordo comercial pode fazer parte desse processo de integração entre produção e indústria.
O avanço, no entanto, depende de muitos outros fatores. Preibisch, da Associação Alemã de Café, avalia que a redução das barreiras comerciais e regras mais previsíveis podem estimular investimentos em processamento, embalagem e comercialização no Brasil.
Agregando valor além da torrefação
O executivo da entidade alemã acrescenta, porém, que a agregação de valor vai além da torrefação e uma "melhor qualidade, produtos diferenciados, organizações de produtores mais fortes e parcerias confiáveis de longo prazo também podem aumentar o valor retido no Brasil".
Cafés especiais, processamento na origem, cafés solúveis, fortalecimento de marcas brasileiras e relações mais diretas com compradores internacionais são algumas das possibilidades citadas pelo executivo alemão como oportunidade para o Brasil. "Essas abordagens podem ajudar produtores e empresas brasileiras a reter uma parcela maior do valor gerado pelo seu café."
Os números mostram que esse mercado já existe. No ano passado, os cafés diferenciados — possuem certificados de práticas sustentáveis, qualidade superior ou especiais — representaram 20,3% das exportações totais brasileiras entre janeiro e dezembro de 2025, segundo o Cecafé. A Alemanha figurou como o segundo principal destino dos produtos, com 1,2 milhão de sacas.
Segundo os executivos, a quantidade de processamento realizada no Brasil dependerá da demanda comercial. Para Matos, esse é, inclusive, um ponto ainda mais benéfico para o Brasil já que, além das vantagens competitivas do país, ele cita que o mercado consumidor brasileiro também está crescendo.
"Vemos espaço para que empresas brasileiras e alemãs trabalhem juntas em produtos e modelos de negócios que gerem valor em ambos os países", diz o CEO da associação alemã.
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