Enredo da campeã Mocidade, Léa Garcia brilhou em Cannes, peitou a Globo e foi 1ª vilã negra
Atriz quase desconhecida das novas gerações cobrou representatividade na TV e abriu caminho para pretos serem protagonistas
A vitória da Mocidade Alegre no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo com o enredo ‘Malunga Léa - Rapsódia de uma Deusa Negra’ representa mais do que uma homenagem póstuma a uma artista.
Muito antes de Fernanda Torres e Wagner Moura, Léa Garcia se projetou no exterior. Em 1959, ela ficou em 2º lugar na disputa pelo prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes pela atuação em ‘Orfeu Negro’.
Um reconhecimento imensurável para uma artista negra sul-americana até então desconhecida nos circuitos cinematográficos da Europa. Ela tinha 26 anos na época.
Corta para 1976. Léa faz história ao interpretar a primeira grande vilã negra da teledramaturgia. O público odiou Rosa, a escravizada que atormentava Isaura (Lucélia Santos), a heroína da novela ‘Escrava Isaura’.
Apenas por esses dois momentos únicos, a atriz já merecia as maiores honras. Mas sua importância vai além.
Foi integrante do histórico Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias Nascimento, participando de um movimento fundamental para a valorização da cultura afro-brasileira e a luta por representatividade nas artes cênicas.
Fez várias reivindicações para melhores oportunidades a artistas pretos. Em 1994, por exemplo, bateu na porta do então vice-presidente de Operações da Globo, o Boni, e reclamou de o remake ‘A Viagem’ mostrar somente brancos no céu da trama. Imediatamente, foi incluídos personagens negros — um deles feito pela própria Léa.
Ao longo de décadas, a atriz buscou papéis complexos num tempo em que negros eram relegados a figuração ou personagens coadjuvantes.
Permaneceu ativa por mais de 70 anos, atravessando diferentes gerações e formatos, tornando-se inspiração e referência para quem veio depois. A ela, todos os aplausos.