Na Globo, Ronald Sotto tenta o que negaram a Lázaro Ramos: ser aceito como galã negro retinto
‘A Nobreza do Amor’ vai testar os limites do racismo estético entre os telespectadores
A Globo começou a divulgar a nova novela das 18h, ‘A Nobreza do Amor’, com estreia em março.
A protagonista é a princesa Alika (Duda Santos). Após um golpe de Estado, ela foge da África para Pernambuco em busca de refúgio.
Logo se apaixona pelo trabalhador braçal Tonho, papel de Ronald Sotto, que desconhece a origem nobre da jovem.
O ator, de 26 anos, enfrenta o desafio de fazer o primeiro papel principal numa novela e encarar a expectativa de funcionar como galã.
Beleza e carisma, ele tem de sobra. Mas há um elemento imprevisível: a legitimação simbólica de um negro retinto como príncipe encantado contemporâneo.
No Brasil, o homem preto raramente é apontado como parâmetro estético. Costuma ser visto como um corpo a serviço do fetiche. Serve para o prazer sexual sigiloso, não como companhia amorosa em público.
Esse racismo indiscutível ficou explícito com Lázaro Ramos em ‘Insensato Coração’, novela das 21h exibida em 2011.
Ele interpretava o designer André, um sedutor que levava todas as mulheres que queria para a cama.
Cinco anos antes, o artista havia indicado a vontade de romper o tabu. “Ainda vou fazer o galã”, avisou. Deu errado.
Parcela numerosa dos telespectadores reprovou sua escolha para o papel de ‘don juan’ por não o enxergar como bonito e sensual. Uma rejeição cruel.
Dentro do peculiar colorismo brasileiro, negros de tonalidade mais clara e características faciais 'suaves' são mais aceitos, diferentemente dos que carregam marcas fenotípicas mais associadas à ancestralidade africana.
Ironicamente, Lázaro estará em ‘A Nobreza do Amor’ interpretando o vilão da trama, Jendal. Em sua trajetória vitoriosa, a ele foram concedidos os elogios como excelente ator, porém, negaram validá-lo como herói romântico.
Mesmo sendo um povo miscigenado, o brasileiro continua preso a uma régua estética moldada por referências europeias de cor de pele e traços faciais, recusando-se a reconhecer o belo fora desse molde.
As novelas conseguirão mudar isso? A conferir.