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Lee Ranaldo fala sobre álbum que lança em fevereiro

Novo trabalho do músico, que fez parte do grupo Sonic Youth, é mais percussivo

30 nov 2019
07h11
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No universo dos fãs de guitarra, a música de Lee Ranaldo parece não ter lugar. Guitarrista horizontal e democrático, está bem distante do continente despótico de guitar heroes, com poses, cabelos, instrumentos afetados e muitas notas por segundo. Seu som percorre uma atmosfera incomum, na herança de antiguitarristas improváveis como Andy Gill (Gang of Four), de perfeccionistas da ambiência como Robert Fripp e Brian Eno, em seus trabalhos conjuntos e do minimalismo dos compositores de vanguarda La Monte Young e Steve Reich, construindo uma música muito original e diferente dos maneirismos e vícios do "bom e velho rock and roll".

Ao lado de Thurston Moore, seu parceiro e complemento de instrumento no seminal Sonic Youth, fez da guitarra a base para todo um universo de atmosferas e massas sonoras que influenciaram o rock alternativo dos últimos 30 anos. As guitarras do grupo vanguardista de Nova York movimentaram a música em direção ao último suspiro de autenticidade do estilo musical.

Porém, Lee Ranaldo parece não ter nenhum fetiche com o instrumento que lhe ajudou a consolidar a sonoridade. Já em Electric Trim, seu penúltimo disco solo, deu mais espaço ao violão e agora parece estar cada vez mais distante da guitarra. Em Names of The Northern End Women, disco que sai no próximo mês de fevereiro em parceria com o espanhol Raul Refree, Ranaldo aposta em samplers, colagens, instrumentos percussivos e poucas guitarras.

Em passagem recente pelo Brasil, durante a estreia do filme Nós Ainda Temos a Imensidão da Noite, em que Lee Ranaldo trabalhou na direção musical, o guitarrista concedeu entrevista à Rádio Eldorado e ao Estado e falou sobre o novo disco, a experiência com músicos brasileiros e é claro, sobre Sonic Youth.

O primeiro single que a gente pode ouvir do seu novo trabalho soa profundamente percussivo e sem nenhuma guitarra. Você está cansado dela?

Eu não estou nem um pouco cansado, mas para esse disco nós (Raul Refree e Lee Ranaldo) procuramos destacar outros sons e ideias. Existem guitarras nesse disco, mas não muitas como nos meus discos passados, ela só é mais um elemento entre outros tantos.

O que a gente pode esperar exatamente do disco então?

Essa é primeira vez em que o meu trabalho com Raul (o produtor e músico espanhol já havia trabalhado com Lee Ranaldo em Electric Trim) terá o nome dos dois na capa. É um novo projeto, um novo estilo de música. Sons e batidas eletrônicas com gravações ao vivo. É uma nova combinação de coisas, muito diferente de tudo o que eu já produzi, talvez um dos discos mais experimentais que já fiz.

No seu trabalho solo de 2012, Between the Times And The Tides, lançado logo após o fim do Sonic Youth, você apostou em estruturas mais pop nas composições. O que mudou de lá para esse experimentalismo radical?

Bem, eu não sei. Eu ainda gosto muito de canções e estruturas pop, e também gosto de fazer experimentos abstratos. Então gosto de estar apto para desenvolver as duas coisas. Eu realmente gosto de construir canções, bons refrãos e bons vocais e realmente gosto de experimentos abstratos musicais.

E foi seu primeiro trabalho com músicos brasileiros?

Talvez tenha sido a primeira vez a sério. E foi bom. O filme é sobre uma banda, com jovens músicos. Então todos os atores eram músicos reais antes de serem atores. Nós trabalhamos em Brasília por pouco mais de duas semanas ao redor do desenvolvimento do som e foi muito divertido, um projeto muito divertido. Penso que o diretor do filme fez um trabalho muito legal.

Agora eu tenho que fazer a pergunta que todo mundo quer saber. Qual a chance de uma volta do Sonic Youth?

Você nunca sabe, nós estamos todos vivos e nunca se sabe o que vai acontecer. Mas acredito que nenhum de nós está pensando nisso. Nós estamos todos imersos em nossos próprios projetos no momento. Eu não penso e garanto que Thurston e Kim não pensam sobre.

A sonoridade do Sonic Youth influenciou uma geração brilhante de bandas, como o Nirvana no começo dos 90 até os 2000 com artistas como Mogwai e Explosions In The Sky. Você acredita que as próximas gerações também irão se impactar com o som de vocês?

Claro, eu sempre irei esperar que as gerações irão se surpreender e estar abertas a novos mundos. É o que você espera de pessoas criativas. Eu estaria deprimido se pensasse que novas gerações irão repetir a mesma coisa do passado. Eles querem algo novo!

Estadão
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