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Mostra: obesidade é a base das pandemias modernas, diz finalista

31 out 2012
10h09
David Shalom

Quando filmou, quatro anos atrás, Criança, a Alma do Negócio, documentário que aborda o impacto na formação das crianças causado por práticas dos meios de comunicação de massa, Estela Renner se viu diante de um dado alarmante. Ao conversar com meninos e meninas de diversas idades, a diretora de 39 anos descobriu que grande parte deles não reconhecia frutas básicas, como mamão, pêra, figo e manga - mas, por outro lado, tinham na ponta da língua os nomes de todas as marcas de salgadinhos disponíveis no mercado.

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A impressionante realidade levou a cineasta a mergulhar profundamente no mundo da obesidade infantil, pesquisa que gerou o longa Muito Além do Peso, um dos finalistas da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, cujo vencedor será anunciado nesta quinta-feira (1), na noite de encerramento do evento, na capital paulista. Por telefone, a diretora conversou com o Terra sobre a temática de seu filme, a indicação ao prêmio e o futuro da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

"Não é só no Brasil. Quando paramos para olhar outras partes do mundo, constatamos que a situação é muito parecida em todos os lugares. É uma epidemia mundial! E não é uma epidemia contagiosa, o que só a torna mais grave, pois somos todos responsáveis por ela", disse Renner. "É um problema muito grave. Só no Brasil, 33,5% das crianças estão atualmente com sobrepeso ou obesidade. Isso acaba gerando uma série de outros problemas, como diabetes tipo 2, colesterol e pressão altas, apneia de sono, depressão, ou seja, as grandes pandemias modernas têm em sua base a obesidade - e a criança é vítima desse quadro."

Ao retratar o real problema gerado pelo excesso de calorias ingerido pelas crianças, a diretora também percebeu que a solução para ele é ampla, passando pelos mais diversos setores da sociedade. Para ela, além da família e das escolas, a obesidade deve ser alvo de preocupação da indústria alimentícia, dos publicitários e, fundamentalmente, dos Governos. "É um quadro multifatorial. Começa na forma como os pais se alimentam, na falta de atividade física e vai até a distribuição alimentar. Quer dizer, são deixados de lado alimentos não-processados, vindos diretamente da natureza, para serem comidos outros ricos em calorias, gordura, aqueles chamados de ultra-palatáveis. Além disso, houve um grande aumento no uso de videogames e no tempo de exposição à televisão", enumerou.

A temática pulsante já traz resultados à produção. Além de disputar a finalíssima da Mostra, uma das mais antigas e importantes do Brasil, Renner afirmou ter recebido pedidos de cópias do longa de milhares de escolas, com o objetivo de conscientizar seus alunos. Mais: tem visto nas exibições do documentário as reações do público, que na maioria das vezes classifica o tema como de fundamental abordagem para os dias atuais. "O curioso é que a maioria das pessoas nem vem me falar muita coisa. Elas simplesmente me abraçam e dizem, 'obrigado por ter feito esse filme'", contou, orgulhosa. "Amo cinema e sei das dificuldades existentes para se fazer uma ficção ou um documentário. Claro que a Mostra é muito importante e que, se ganharmos algo, ficaremos muito felizes. Mas, só de ouvir coisas assim, já vale o mundo para nós."

Confira a entrevista a seguir:

Terra - O quão urgente é, atualmente, a abordagem do tema da obesidade no mundo e, principalmente, no Brasil?
Estela Renner - A obesidade infantil é um problema muito, muito grave. Só no Brasil, 33,5% das crianças estão atualmente com sobrepeso ou com obesidade. Imagine isso. E o pior é que isso gera outros problemas, como diabetes tipo 2, colesterol e pressão altas, apneia do sono, depressão, ou seja, as grandes pandemias modernas têm em sua base a obesidade. Isso é gravíssimo, ainda mais quando olhamos para outras partes do mundo e constatamos que a situação é muito parecida em todos os lugares. Na Grécia, África do Sul, Austrália, México, Estados Unidos, Canadá, México, Argentina...é uma epidemia mundial! E não é uma epidemia contagiosa, o que só a torna mais grave, pois somos todos responsáveis por ela. Então é, sim, um tema com urgência para ser abordado.

Terra - Quais os motivos que levaram a obesidade a crescer tanto nos últimos anos?
Estela - É um quadro multifatorial. Começa na forma como os pais se alimentam, na falta de atividade física e vai até a distribuição alimentar. Quer dizer, são deixados de lado alimentos não-processados, vindos diretamente da natureza, para serem comidos alimentos ricos em calorias e gordura, aqueles chamados de ultra-palatáveis. Além disso, houve um grande aumento no uso de videogames e no tempo de exposição à televisão. O que motivou a minha produtora, a Maria Farinha Filmes, a rodar esse documentário foi algo que ocorreu enquanto filmávamos uma outra produção (Criança, a Alma do Negócio, de 2009), na qual mostrávamos mamão, pêra, figo às crianças e elas não as reconheciam. Crianças brasileiras não sabiam o que era manga e mamão-papaia, mas conheciam todas as marcas de salgadinhos disponíveis no mercado! Isso era apenas um pedacinho do filme que a gente guardou e, com o passar do tempo, eu e o Marcos (Nisti), meu sócio na produtora, resolvemos falar um pouco mais sobre essa questão. É uma epidemia mundial, mas escolhemos como campo de pesquisa o Brasil. Assim, fomos às cinco regiões do País, e em todas partes constatamos que o fenômeno é o mesmo: as crianças se exercitam muito pouco, se alimentam muito mal e não reconhecem as frutas mais típicas - de suas próprias regiões, inclusive. Isso é impressionante.

Terra - Quais experiências podem ser testadas no Brasil para o combate ao problema?
Estela - Os esforços têm que vir de todas as partes. Os pais possuem uma função fundamental, a família não pode recuar; as escolas também, pois precisam prover educação nutricional, alimentar, nas salas de aula; a indústria alimentícia pode e deve ser mais responsável; a publicidade, mais ética; o papel do Governo também é fundamental, pois este é um problema de saúde pública. O fato é que a criança é vítima do quadro criado por nós, então somos todos responsáveis por ele.

Terra - E o que o Governo poderia fazer para melhorá-lo?
Estela - Em outros países, a discussão da obesidade infantil é bem mais avançada, como na Austrália ou nos EUA. Por exemplo, em Nova York está ocorrendo um movimento para limitar o tamanho das garrafas de refrigerantes, para assim evitar o consumo de grandes porções de uma só vez. Em Los Angeles, onde as pessoas estão muito obesas, já existe uma lei que diz que só pode existir um número "x" de restaurantes fast food em cada região da cidade. Mas minha crença maior para uma melhora no Brasil é na organização de uma campanha em massa, promovida pelo Governo, com filmes institucionais sobre alimentação. Algo parecido com o que foi feito com o aleitamento materno alguns anos atrás. O que não dá é colocar toda a responsabilidade enorme pelo problema sobre a criança. Dizer coisas como "não coma", "emagreça". A criança é uma vítima, nada mais, e este filme veio para, acima de tudo, ficar do lado dela. Todo mundo é responsável pelo quadro atual e acho que todos precisam parar para pensar em soluções para mudá-lo.

Terra - Seu documentário anterior, Criança - a Alma do Negócio, também teve como temática o mundo infantil. Por que você escolheu voltar a focar nessa faixa etária?
Estela - Eu sou muito amiga da Ana Lúcia Vilela, presidente do instituto Alana (organização voltada à defesa dos direitos da criança) e, em 2007, 2008, ela me pediu para fazer vídeo-aulas para os conselheiros do instituto, que possui uma ONG chamada Criança e Consumo. Eu tenho três filhos e, quando tive contato com esse material, ganhei uma consciência e percebi que esse tema merecia uma ferramenta audiovisual. Aí conversei com o Marcos (Nisti) e resolvemos transformar essas vídeo-aulas em documentário. Fui a campo, entrevistei várias crianças, fiz pesquisas e acabei passando cerca de um ano e meio trabalhando em cima de uma coisa que era inicialmente muito simples, uma vídeo-aula para se fazer em poucos dias, que se transformou em uma obra audiovisual complexa e bastante assistida. Realmente deu muito certo, porque todas as escolas já o exibiram ou querem exibi-lo. Para você ter ideia, neste ano fizemos seis mil cópias a pedido de educadores.

Terra - Foi difícil encontrar os personagens, no caso as crianças, para ilustrar o problema no País?
Estela - Não, nem um pouco. Pelo contrário. Nossa produção ia um pouco na frente, conversando com as mães, com os pais e, muitas vezes, ia também a assistentes sociais, que nos mostravam como as famílias já as tinham procurado atrás de ajuda. O fato é que muitas das famílias nunca tiveram acesso a informação sobre o tema. Muitas delas estavam desamparadas quando as procuramos e chegaram a acreditar até que nós poderíamos ajudá-las. Claro, nossa ajuda foi apenas indireta. Essas pessoas abriram as portas de suas casas e foram muito corajosas, até porque elas têm, sim, certo sentimento de culpa devido ao problema.

Terra - A 36ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, realizada em 2012, foi a primeira a ter a ausência de seu fundador, Leon Cakoff, morto no ano passado. Você sentiu mudanças em relação aos anos anteriores do evento?
Estela - Antes de mais nada, fiquei muito feliz com o fato a Renata (viúva de Cakoff) ter assumido a organização, em vez de simplesmente ter falado que sem o Leon não dava mais para dar prosseguimento a ela. Para mim, a Renata é uma mulher incrível e seu trabalho, maravilhoso. Em relação à organização da Mostra, todas as pessoas com quem tivemos contato foram muito amigas, solícitas, sabem muito bem qual é a função delas ali. Leon deixou um legado para a Renata, que foi aprendendo como funciona a Mostra ao longo do anos. Ou seja, não era só a figura do Leon ali: a partir de dado momento, os dois estavam trabalhando lado a lado. Agora, não sei dizer se este ano está melhor ou pior do que o ano passado, já que essa qualidade se mede sempre por um conjunto de fatores. Tem muito a ver, por exemplo, com os filmes que são trazidos a cada mostra em particular. E são 290 filmes, então fica ainda mais difícil de dizer. O que sei, do ponto de vista de uma participante, é que tudo foi muito bem organizado, com um astral incrível.

Terra - Você acompanha a Mostra de São Paulo há muito tempo?
Estela - Sim, desde sempre. Meu pai é dentista e tem um consultório perto do Conjunto Nacional (famoso edifício comercial localizado na Avenida Paulista, onde é realizada a Mostra) que está lá há 100 anos. Pertenceu inicialmente ao meu bisavô, depois passou para o meu avô e logo ficou para o meu pai. Então o Conjunto é como se fosse um quintal para mim. Fui exposta à Mostra desde muito cedo.

Terra - Dos nove documentários finalistas na Mostra, três são nacionais, índice bastante superior ao da categoria de ficção, que tem apenas dois brasileiros entre as 15 produções selecionadas. Você vê a produção desse tipo de longa à frente dos ficcionais no País?
Estela - Eu fico muito contente por existir um bom movimento de documentários de qualidade no Brasil e acredito que isso vá continuar. Agora, não é possível fazer a comparação entre produções documentais e ficcionais. E explico: nestes últimos existe um problema de roteiro, já que comumente os filmes acabam sendo produzidos antes de os roteiros estarem amadurecidos para isso. Claro que ainda falta verba e desenvolvimento de roteiro, afinal, para você ser aprovado dentro de um trâmite de lei, precisa de um roteiro. Mas e a verba para ser gasta em pesquisa, tempo de consulta a personagens para isso? Precisamos de um incentivo nesse sentido também. Os documentários, por sua vez, acontecem porque alguém tem uma verdade para dizer, então, com o baixo preço atual dos equipamentos, os documentaristas estão conseguindo produzir seus filmes com bem menos verba, já que ninguém recebe para dar um depoimento - a grande base ética dos documentários. Além do mais, as locações também não são pagas, tampouco os figurinos. Claro, há produções mais caras, com muita imagem aérea, por exemplo, mas, com a queda nos custos produção, já que não é mais necessário filmar em 35 mm para se ter um produto de qualidade, facilitou bastante a vida dos documentaristas.

Terra - Ao mesmo tempo, está atualmente mais fácil para os cineastas fazerem seus filmes ou a questão da necessidade de incentivos e patrocínios continua sendo um grande empecilho para a realização de uma produção?
Estela - O que acontece é que, infelizmente, cinema no Brasil não dá dinheiro. Pode até vir a dar - e alguns filmes dão, como Se Eu Fosse Você -, mas existe toda uma problemática de distribuição e de competição com filmes americanos multimilionários. Até existe uma cota de cinema nacional, que obriga as exibidoras a terem um número "x" de filmes nacionais em cartaz, então, talvez, se aumentassem essa cota, melhorava. Mas não sei...Como eu disse, os roteiros começam a ser filmados antes mesmo de estarem "super-bons" e isso faz a produção chegar mais fraca ao público. E se a pessoa que saiu de casa enfrentou trânsito, pagou caro para ir ao cinema e não saiu entretida de lá, fica um pouco traumatizada para voltar. Mas os filmes nacionais estão aí e há, sim, muitos bons em cartaz. Espero que isso só aumente, com as pessoas investindo cada vez mais em cinema por aqui.

Terra - Qual é a sua expectativa para esta quinta-feira (1º), dia do encerramento da Mostra?
Estela - Puxa, ficamos muito felizes só com o fato de termos sido selecionados (risos). Por mais que esse filme seja muito importante, muito relevante, só de a Mostra ter nos dado espaço é espetacular. Tenho também acompanhado as reações do público e as pessoas - muitas delas, médicos e pais - vêm falar comigo dizendo como este é um filme de fundamental importância. Mas o mais curioso é que a maioria das pessoas nem fala muita coisa, elas simplesmente me abraçam e dizem, "obrigado por ter feito esse filme". E daí já vale o mundo, já valem os dois anos de produção, porque, poxa vida, se o objetivo do filme é transformar individualmente as pessoas, e vem um pai, uma mãe ou um educador falar isso para nós, ficamos extremamente satisfeitos. Eu amo cinema e sei das dificuldades existentes para se fazer uma ficção ou um documentário, então não importa o prêmio. Claro que a Mostra é muito importante e que, se ganharmos algo, ficaremos muito felizes, mas só de estar lá, entre os selecionados, já estamos contentes demais.

Criança no documentário 'Muito Além do Peso', de Estela Renner, que concorre a prêmio no evento de SP
Criança no documentário 'Muito Além do Peso', de Estela Renner, que concorre a prêmio no evento de SP
Foto: Divulgação
Fonte: Terra
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