Monja Coen: 'Eu quero que as pessoas despertem e deixem de ser bobinhas'
Missionária de 78 anos, fundadora da comunidade zen-budista no Brasil e autora de livros best-sellers, é uma das palestrantes confirmadas no São Paulo Innovation Week
Em tempos de guerras, crises políticas e outras calamidades é corriqueiro encontrar quem pensa que a humanidade não tem mais jeito. Monja Coen não é uma dessas pessoas. A fundadora da comunidade zen-budista no Brasil acredita que vivemos um processo de transformação contínuo e que precisamos direcioná-lo a nosso favor.
Autora de mais de 30 livros, dentre os quais estão os best-sellers O Que Aprendi com o Silêncio: Uma Autobiografia e Zen para Distraídos, a missionária de 78 anos, conhecida em todo o País por seus ensinamentos e incentivo a práticas de autoconhecimento, é uma das palestrantes confirmadas no São Paulo Innovation Week.
O evento de inovação, tecnologia e empreendedorismo reunirá mais de mil convidados brasileiros e internacionais, entre os dias 13 e 15 de maio, na Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos.
Ela participa do painel O que é a realidade? Ciência, espiritualidade e sabedoria ancestral em diálogo ao lado de Ailton Krenak e Marcelo Gleiser na quarta-feira, 13, às 17h15.
Antes de virar uma figura religiosa de grande destaque, Cláudia Dias Baptista de Souza viveu uma juventude intensa e turbulenta. Casou-se aos 14 anos de idade e teve uma filha aos 17. Trabalhou como repórter no Jornal da Tarde, circulou no meio artístico por ser prima dos integrantes da banda Os Mutantes e chegou a fazer curso de modelo. Sofreu abusos, envolveu-se com vários homens, entrou no universo das drogas e enfrentou severos períodos de depressão.
Mas tudo isso ficou em um passado distante. Hoje, para Monja Coen, o que realmente importa é o presente. Em seu livro de memórias, ela escreve que "é inadequado perguntar a uma pessoa que fez os votos monásticos como era antes dos votos". Por respeito a essa visão, esta entrevista evita se aprofundar em tais detalhes de sua trajetória.
Leia abaixo trechos editados da conversa.
Eu gostaria de começar mencionando um episódio de sua autobiografia, no qual cita a morte de John Lennon como um momento transformador em sua vida. Aquele episódio teve um peso grande para a senhora migrar para o budismo?
Eu já estava fazendo meu primeiro retiro de 7 dias no budismo quando ele morreu. Eu sempre gostei muito do John Lennon e da capacidade de comunicação daqueles jovens. Foi bem impactante, mas o que me levou mesmo para o zen foi, em parte, o Jornal da Tarde, porque uma vez me pediram para fazer uma matéria sobre sociedades alternativas. E o Estadão tem um dos maiores arquivos do mundo. Tinha matérias de sociedades alternativas nos EUA e uma delas era sobre um grupo zen-budista. Me interessei e, depois, fui morar no exterior, quando começou a mudança na minha vida.
E nesses anos todos, qual foi a experiência mais inacreditável que a senhora teve com o budismo?
Foi o primeiro retiro intenso que eu fiz. Nós sentávamos cerca de 16 horas por dia, olhando para uma parede e, de repente, comecei a ver coisas se mexendo nessa parede. É algo que acontece em processos intensos de meditação. É como se fossem projeções mentais em forma de imagens. E não são imagens muito claras. Não é um filme com historiazinha. E aí eu comecei a tentar entender o que eram essas imagens. Percebi que há um processo de você estar em comunhão com tudo que existe, tudo que foi e tudo que será. Passei por coisas difíceis na infância, e quando vinham essas memórias, não eram lástimas, não eram traumas. Se aquilo não houvesse acontecido, eu não seria quem eu sou agora.
Uma das suas frases que me chama a atenção é 'tudo o que fazemos, pensamos, falamos, mexe na teia da vida'. Me explique um pouco melhor esse conceito, por favor.
Nós vivemos em rede. Uma das analogias de Buda é que tudo no universo é como se fossem fios luminosos, multicoloridos, onde em cada intersecção está uma joia que emite luz em todas as direções. Então, temos que ser um pouco mais cuidadosos com o que falamos e pensamos. Às vezes dizemos que a humanidade não tem jeito. Eu não acredito nisso. Estamos bem melhor do que estávamos há mil anos. Estamos num processo de transformação contínuo, mas temos que direcionar essa transformação. Saber usar, por exemplo, a inteligência artificial, para que seja útil para nós.
Vivemos uma época de muita ansiedade coletiva, ainda mais por causa dessas crises globais, catástrofes, questões políticas aqui no Brasil, que nos afetam muito. Como fazemos para não cair na indiferença nem no desespero?
O contrário do amor não é o ódio, mas é a indiferença. Se estamos no Brasil, nós vivemos a realidade brasileira. E somos tocados por aquilo que acontece. Como eu transformo aquilo que eu acho ser impróprio, inadequado? Não é só lastimar, nem brigar por isso. Esse ano vai ser um ano difícil, de eleições, e as pessoas já ficam se polarizando, quando na verdade há um grupo só: o dos seres humanos. Temos que sair do partidarismo. É preciso que voltemos a trabalhar com a ética no sentido do que é bom para o maior número de seres, não só o que é bom para mim. Eu costumo dizer: saia da primeira pessoa do singular e comece a entrar na primeira do plural.
Hoje muitas pessoas querem passar esse discurso de positividade, mas que muitas vezes é uma máscara, soa como uma hipocrisia. Há até uma frase do autor Raphael Montes: 'Pessoas que só têm pensamentos bons são perigosíssimas'. Quando nós temos pensamentos negativos, temos que aceitá-los ou eles precisam ser transformados?
Temos que observar por que isso está acontecendo de forma recorrente. Não é dizer que está tudo lindo e maravilhoso. O que nós falamos, fazemos e pensamos, modifica a realidade. O pensamento positivo é como atuar para que as coisas fiquem melhores. A agressividade existe em nós e sobrevivemos porque também somos agressivos. Não basta só pensar positivo e dizer: 'vai dar tudo certo'.
A senhora é nervosa, tem aflições?
Claro. Eu tenho grupos de pessoas que vêm praticar comigo e cabe a mim tentar orientá-las. Eu não posso forçá-las, nem educá-las, mas orientá-las que existem caminhos de prática. E o caminho da prática é o autoconhecimento. Eu sou nervosa, faço gestos. Eu quero que as pessoas despertem e deixem de ser bobinhas, que vejam o que é o real e atuem para transformar isto. Fico às vezes muito aflita quando dou um conselho e a pessoa faz o oposto. Aí eu não tenho muita paciência e já falo meio duro, mas assim vamos. No fim, elas me agradecem.
O budismo preza muito pelo silêncio. E vivemos uma era de escassez do silêncio. Excesso de informações, de poluição sonora. O que nós perdemos espiritualmente quando não conseguimos ter vazio ao nosso redor?
Podemos criar esses espaços. A minha sala de meditação atual fica na região Pompeia/Perdizes e até a madrugada ouço ônibus, caminhões e motocicletas passando. São muitos ruídos o dia todo. Mas o que fazemos para meditar nessa casa? Respiramos, nos concentramos nas pausas e o som fica como um pano de fundo. Se eu dou muita importância aos ruídos, fico desesperada. Gosto de ficar no celular, ver coisinhas no WhatsApp, Facebook, Instagram. É gostoso, mas tem um limite. Tudo que é excesso cansa.
Entende que o celular é algo nocivo?
Não, o celular é um grande parceiro para mim. Mas se eu ficar dependente do celular pra sentir prazer na vida, e só ficar sentada numa cadeira com o celular na mão, isso não vai me fazer bem. A tecnologia não é nociva, ela é neutra. Temos que educar a nós, aos nossos avós, aos nossos filhos e netos, a usar a tecnologia a nosso favor, não a favor dela mesma.
Como é a rotina da senhora hoje em São Paulo? O que gosta de fazer?
Recentemente eu fui ao teatro e fiquei muito contente. A [atriz] Priscila [Fantin] me convidou para ver a peça dela As Amantes de George Washington. Eu tenho cachorros em casa, filhotinhos que nasceram no mês de janeiro e a mãe morreu. Tive que cuidar deles com um grupo de alunos. Minha vida esse ano mudou completamente por causa desses bebês. Nós nunca voltamos ao que era antes. A nossa vida é daqui para frente. Às vezes ouço que no passado era melhor... quem disse? Ficamos fantasiando as coisas do passado como se elas fossem melhores.
Por que há essa fantasia?
Porque estamos reclamando do presente. E a minha ideia principal é para sairmos da reclamação, sair do resmungo. Por que o agora não é excelente? Todo o passado da humanidade está aqui conosco e o futuro também.
Em uma sociedade onde muitas vezes o dinheiro mede valor e sucesso, como não confundir prosperidade com identidade? Em geral, eu queria entender como é a relação da senhora com dinheiro.
É uma relação de necessidade (risos). Estou sempre precisando. O dinheiro deve ser usado para aquilo que possa beneficiar o maior número de pessoas. Mas alguns de nós ficam aprisionados com a ideia que quanto mais eu tiver, mais feliz eu serei. Há pessoas que vêm falar comigo porque trabalham tanto e não têm tempo de ficar com a esposa, com os filhos. São pessoas que não conhecem os filhos, pois não conviveram com eles.
Muitos idosos associam a ideia de envelhecer com inutilidade. Na visão budista, como transformar o envelhecimento em um processo de amadurecimento, com uma visão mais respeitosa?
A Fernanda Montenegro diz que o envelhecimento é meio solitário e nostálgico. Eu conheço isso. Olho no espelho e cada dia vejo que estou mais velha. Sei que preciso voltar a fazer atividade física todos os dias e ter alimentação adequada, ou então posso ficar inválida. A longevidade numa cama, ou dependendo de outras pessoas, não parece um futuro muito agradável. Envelhecer é da natureza do ser humano. Então como fazer para ter saúde física e mental na velhice? Um amigo meu gostava de comprar todos os livros best-sellers porque ele queria saber o que a humanidade está lendo. Acho isso de uma riqueza tão grande.
A senhora se identifica com isso?
A minha geração, acima de 70 anos, precisa de apoio para poder usar a tecnologia de forma adequada. Sinto essa necessidade para não ficar fora do mundo. Como eu lido muito com pessoas mais jovens do que eu, me esqueço às vezes de quem eu sou, de que idade eu tenho. Existem conversas que eu já não acompanho mais. Vejo que é um outro mundo e talvez seja por isso que algumas pessoas idosas vão se encolhendo. Mas eu acho que em vez de nos encolhermos, nós temos que participar e perguntar: 'o que é isso? Que gíria é essa?'.
A senhora já publicou livros com Clóvis de Barros e Leandro Karnal. Existem figuras públicas hoje que admira e que reconhece sendo pessoas que agregam ao debate?
Sim, duas pessoas que eu vou encontrar no dia 13 [no SPIW], o Marcelo Gleiser e o Ailton Krenak. Eles são muito importantes pois trazem uma visão dessa nossa comunhão com tudo que existe, de sermos poeira cósmica e ao mesmo tempo estamos interligados a tudo. Estar com esses pensadores, além de outros como Clóvis de Barros, Karnal, o Mario Sérgio Cortella e a Lúcia Helena Galvão, com os quais tenho muito contato, é bem agradável.
Quando as pessoas procuram o zen-budismo, qual é a maior dificuldade que elas têm para exercê-lo? O que é mais difícil de ultrapassar?
O ego. Aquilo: 'a minha história é diferente da sua. O meu sofrimento é diferente do seu'. Somos diferentes, não somos iguais. Essa é a benção da vida. O salto no desconhecido é difícil. A pessoa vai até um determinado lugar e aí ela quer retroceder. Alguns têm medo. Criamos personagens para nós desde bebezinhos. Mas nós não somos nenhum deles. Não há um personagem fixo e permanente. Cada experiência que passamos nos modifica. Não há nada fixo. Tudo é impermanente.
SERVIÇO: São Paulo Innovation Week - O que é a realidade? Ciência, espiritualidade e sabedoria ancestral em diálogo, com Monja Coen, Marcelo Gleiser e Ailton Krenak. Quando: 13 de maio, às 17h15, com sessão de autógrafos na sequência. Onde: Mercado Pago Hall (R. Capivari, S/N - Pacaembu).
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