Dança infantil é território pouco explorado, dizem diretores

Responsáveis por espetáculos para crianças falam das motivações e desafios de criar para os pequeninos

24 jun 2015
09h00
atualizado em 25/6/2015 às 15h24
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O bebê cresceu e se tornou uma criança que já viu teatro, shows, livros e exposições dedicadas especialmente a esse público. Mas, quando o assunto é a descoberta dos movimentos, há bons espetáculos de dança criados para crianças?

Cia. Dani Lima fez uma recriação de espetáculo do repertório para que ele dialogasse com o público infantil
Cia. Dani Lima fez uma recriação de espetáculo do repertório para que ele dialogasse com o público infantil
Foto: Renato Mangolin / Divulgação

Sim, existem. Mas são tão poucos que podem passar despercebidos na programação cultural de qualquer cidade, mesmo grandes metrópoles. Há até grupos especializados, como a paulistana Balangandança Cia., criada há 18 anos por Georgia Lengos, hoje referência na produção de dança para público infantil.

“Naquela época, o contato das crianças com dança era somente por meio de aulas. Os espetáculos eram herméticos”, relembra Georgia. Segundo ela, muita coisa mudou na sua companhia e na criançada nessas quase duas décadas. “Nós nos aprofundamos na pesquisa de uma linguagem, porém novas questões sempre vão surgindo”, explica a diretora.

No Rio de Janeiro, outra companhia com a mesma idade se lançou no desafio de contemplar a plateia dos pequenos. “Decidi criar só para crianças quando minha filha deixou de ser bebê e vi que não tinha como levá-la a um espetáculo de dança porque não existia nenhum”, revela Dani Lima, diretora da companhia que leva seu nome. “Então, fiz uma ‘recriação’ de um trabalho de 2009 do nosso repertório”, conta. Ela transformou o “Pequeno Inventário de Lugares-Comuns” em “Pequena Coleção de Todas as Coisas”, em 2013.

Já em Porto Alegre, a carência de espetáculos para crianças incomodava Airton Tomazzoni há muito tempo. “Desde 1998 penso nisto. Consegui montar uma peça em 2010, mas foi em 2012 que conseguimos fazer uma pesquisa porque fomos financiados pelo programa Rumos do Itaú Cultural”, justifica o diretor do Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre.

Essa pesquisa deu origem ao espetáculo “Guia Improvável de Corpos Mutantes”, contemplado com o Prêmio Funarte Klauss Vianna, que permitiu em 2013 a produção de figurino, cenário e temporada no teatro. O “Guia” foi apresentado neste mês em Florianópolis, no 8º Múltipla Dança, e no Sesc Santos, no litoral paulista, além de ter ido a várias outras cidades brasileiras e participado do Verdanzar, no Uruguai, festival de dança totalmente dedicado ao público infantil. Seguirá em turnê por cidades do Rio Grande do Sul, com patrocínio de O Boticário na Dança, de julho a outubro.

O “Guia Improvável para Corpos Mutantes” vai ser apresentado em cidades do interior gaúcho de julho a outubro
O “Guia Improvável para Corpos Mutantes” vai ser apresentado em cidades do interior gaúcho de julho a outubro
Foto: Marcelo Cabrera / Divulgação

Sem papas na língua e no corpo
Os diretores concordam em várias questões. Crianças são diretas, espontâneas e os espetáculos não podem perder a ludicidade, ou seja, precisam criar espaço para a brincadeira e expansão da imaginação. “É natural para elas trabalhar o corpo de maneiras inventivas”, diz Tomazzoni.

Eles também preferem indicar que seus espetáculos estão voltados para a faixa etária que vai dos 4 aos 11 anos. Mas que sempre aparecem bebês até 3 anos, além de adultos que se interessam pela proposta. Dani diz que a relação do tempo muda. “Precisa ser enxuto, pois as crianças não seguram por muito tempo a atenção.”

Georgia cita estudos científicos e divulga que sua companhia lança um olhar mais amplo sobre a infância. “Atualmente, as crianças estão hiperestimuladas. As brasileiras são as segundas no mundo em frente a uma tela. Em média, são cinco horas diárias”, pontua. A excessiva estimulação também é uma preocupação de Tomazzoni. “Trabalhamos a contemplação, quase como é feita na contação de histórias.”

Segundo os diretores, as diferentes idades da plateia promovem reações distintas. E a comunicação também se dá com os grandões. “A gente vira adulto, mas carrega um bocado da memória e dos desejos de criança. Nosso imaginário continua aberto a brincadeiras”, diz o diretor gaúcho.

“No mundo infantil, a linguagem é mais direta e mais ingênua. O que é mais bacana”, compartilha sua experiência a diretora da Cia. Dani Lima. “O adulto complica demais as coisas. Com as crianças, a gente tira a pompa e a solenidade que às vezes um espetáculo de dança contemporânea tem”, resume.

Dani também é precisa ao definir que nos últimos cinco anos a cena cresceu um pouco, com o surgimento de grupos como o paulista Lagartixa na Janela e o tocantinense Lamira Artes Cênicas. “É um mercado que se abre”, pontua.

Os entrevistados asseguram que o retorno é muito positivo e instantâneo. “Criança não tem filtro, como o adulto. Ou gosta, ou não gosta. É maravilhoso”, diz Georgia que no momento se dedica com a Balandança à pesquisa de novo espetáculo que se chamará "Cabeceiras - onde nascem os rios e repousam as cabeças". Ela acha essencial que o artista respeite as especificidades da infância. “Criança é movimento. Dança é a arte do movimento. É perfeito”, conclui.

“Pequena Coleção de Todas as Coisas”
Cia. Dani Lima
25 e 26 de julho, às 17h
Sesc Belenzinho – São Paulo
Grátis
Retirada de ingresso com 1 hora de antecedência

“Guia Improvável para Corpos Mutantes”
Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre
25 de julho, Santa Cruz do Sul
26 de julho, Santa Maria
1º de agosto, Passo Fundo
2 de agosto, Carazinho
15 de agosto, Pelotas
16 de agosto, Camaquã
5 de setembro, Ijuí
6 de setembro, Santa Rosa
3 de outubro, Canoas
4 de outubro, Gravataí
7 de outubro, Caxias do Sul
Ingressos e locais sob consulta

Fonte: Cross Content
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