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Ex-morador de rua se torna CEO de empresa de transporte

Hoje com 42 anos, Sérgio Brito viveu três anos nas ruas do interior de Minas Gerais após ser despejado da casa onde morava

3 jun 2022 05h00
| atualizado em 9/6/2022 às 12h10
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Sergio Brito, CEO da Te Levo
Sergio Brito, CEO da Te Levo
Foto: Divulgação

Fome, solidão, depressão e até cena de assassinato. São muitas as coisas que Sérgio Brito, de 42 anos, viveu durante os três anos que morou nas ruas de Itamogi, em Minas Gerais. "Passei por essa provação e foi a fé que me deu força", declara ele, em entrevista exclusiva ao Terra.

Graças ao apoio da família, Sérgio se tornou um empreendedor de sucesso. Hoje ele é CEO da Te Levo, software de carros por aplicativo, que atua em Araxá (MG).

Fundada em janeiro de 2022, com investimento inicial de R$ 110 mil, a empresa alcançou o break even em menos de seis meses. Ou seja, recuperou o capital investido e hoje compete com grandes empresas do mercado em seu perímetro de atividade, como a 99 e a Uber.  

De próspero a morador de rua

Essa história começa em Guaíra, no interior de São Paulo, onde Sérgio nasceu. Vindo de uma família grande, humilde e evangélica, ele lembra da infância com nostalgia.

"Foi um tempo de muitas brincadeiras, tive hoje 11 irmãos, sempre brincávamos e não tínhamos ideia que a situação era tão crítica", conta Sérgio, repetindo algumas sílabas com recorrência - sequela de quando viveu na rua e comeu carne estragada.   

Aos 18 anos e já ciente da precariedade dentro de casa, ele resolveu trabalhar para ajudar os pais. Foi nessa época que ouviu uma kombi espalhando pela cidade a notícia de que procurava-se pessoas para trabalhar na colheita de café em Itamogi.

A proposta financeira convenceu Sérgio a mudar de cidade, onde prosperou, alugou uma casa, comprou móveis e foi o suporte financeiro da família. Entretanto, um fato crucial escapou à atenção de Sérgio: embora Itamogi provesse fartura, a sazonalidade do trabalho pecuário diminui por um bom período do ano a empregabilidade.

"Hoje eu lembro que as pessoas estocavam alimentos lá, mas na época eu não tinha essa malícia", relembra.

Fora do tempo de colheita, Sérgio ficou desempregado. Sem dinheiro para pagar aluguel ou manter as contas, foi despejado da casa onde morava. Na primeira noite, ele procurou abrigo no estádio Francisco Furtado de Medeiros. Foi sob o céu estrelado, em meio à noite fria, que ele blindou a própria mente.

"Eu sentia medo, mas mentalizava que aquilo era algo passageiro, que no dia seguinte alguém me daria um emprego e isso acabaria", acrescenta. 

Apesar do otimismo, Sérgio passou três anos em situação de rua. Nesse período ele enfrentou o preconceito por causa de sua aparência e mau cheiro, engatou trabalhos de capinagem, ajudou na montagem de um circo, teve uma sequela por ingerir comida estragada e até foi suspeito de assediar e assassinar uma mulher.

"Eu a encontrei ao lado de um bar. Nunca esqueço. Estava despida na parte inferior e com arame farpado no pescoço. Chamei a polícia e desconfiaram que eu fosse autor do crime, porém, após algum tempo de investigação, perceberam que eu não tinha nada a ver com o caso", conta.

A fé como força motriz

Com a incerteza sendo sua única constante, a fé manteve Sérgio longe das drogas e do álcool durante o tempo em que esteve na rua, mas próximo da igreja. Ele frequentava o culto na Assembleia de Deus, em Itamogi, e foi a partir do elo religioso que o empreendedor conseguiu retornar aos braços da família. 

Ao notar o sumiço de Sérgio e confiante na criação cristã que deu ao filho, o pai do empreendedor, Expedito, começou a procurá-lo em igrejas de outras cidades e regiões. Após a busca, que durou meses, um pastor o alertou sobre um rapaz com características que se assemelhavam a Sérgio.

Foi a partir do intermédio do líder religioso que pai e filho se encontraram. A intensidade da gagueira entrega a emoção de Sérgio ao relatar essa parte da sua história.

"Naquele momento, senti que estava vivo, que estava salvo, que tinha um herói", conta ele, que voltou à casa dos pais. 

O caminho até o topo

Sempre antenado, o empresário Sérgio Brito foi incentivado por familiares e amigos a participar de um concurso de modelagem em Franca (SP). O prêmio para os três primeiros colocados era uma bolsa de estudos de Gastronomia na instituição de ensino que promovia o evento. Sem torcida e sem experiência na área, ele ficou em terceiro lugar.

Após concluir o curso de culinária, ele passou a trabalhar na cozinha de um hotel, mas foi demitido por causa da pandemia. Mais uma vez sem emprego, Sérgio decidiu se aventurar como motorista de aplicativo e o que poderia ser uma alternativa temporária mudou completamente a vida do ex-morador de rua.

"A taxa dos aplicativos sempre muda, além disso, o motorista nunca sabe quanto vai ganhar em uma corrida. Fui pegando essas falhas e pensando em soluções", revela. 

Ao centro: Sergio Brito, CEO da Te Levo
Ao centro: Sergio Brito, CEO da Te Levo
Foto: Divulgação

Após juntar bom capital de giro, Sérgio engatou uma relação com a Machine, empresa que lhe ajudou no desenvolvimento do software de transporte por aplicativo, batizado de Te Levo. Em apenas dois meses após o lançamento, realizou mais de 2 mil corridas, o que movimentou R$ 20 mil. Em seis meses de operação, a empresa de Sérgio bateu a margem de lucro de R$ 100 mil, alcançando o break even

Entre os diferenciais da empresa estão pontos críticos para os motoristas, como carro de apoio, caso o trabalhador passe por algum problema com seu veículo próprio; taxa fixa de 12%, convênio com marcas para descontos em postos de gasolina e, futuramente, convênio médico para condutores. A campanha de enfrentamento ao assédio ainda é embrionária, baseada em conteúdo institucional disseminado em postagens nas redes. Todavia, a postura do CEO, que já viu uma mulher ser assediada e assassinada, é direta: em caso de denúncia, o funcionário será expulso da plataforma - ainda não houve registro de casos.

Para os próximos cinco anos, Sérgio Brito enxerga apenas crescimento. Com intenção de escalar seu negócio e transformá-lo numa franquia, ele já tem planos de fazer o Te Levo atravessar as fronteiras de Araxá (MG).

A ideia é que o aplicativo já esteja operante pelo menos em Franca (SP) e Patrocínio (MG) até novembro de 2022. "No tempo da rua eu ouvi muitos 'nãos'. Agora que tenho uma empresa meu sonho é poder empregar as pessoas e dizer muitos 'sim'", estima.

Fonte: Redação Terra
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