Polícia usa 'hackers do bem' para entrar na deep web e desmontar quadrilhas de crimes digitais
DCCiber monitora fóruns clandestinos, rastreia criminosos e transforma investigações virtuais em prisões no mundo real
A DCCiber de São Paulo utiliza inteligência cibernética para monitorar a deep web, identificar criminosos digitais e desarticular quadrilhas através de combinações de tecnologias avançadas e investigações tradicionais.
A investigação de crimes digitais começa, muitas vezes, longe das delegacias e dos métodos tradicionais de polícia. Segundo o delegado e divisionário da DCCiber, Paulo Barbosa, o trabalho tem início em ambientes como a deep web e a dark web, onde criminosos trocam informações, combinam golpes e recrutam comparsas sem que os alvos, cidadãos comuns, possam imaginar.
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Na DCCiber, o monitoramento acontece através do Centro de Inteligência Cibernética, um núcleo técnico formado por policiais especializados. “A gente brinca que são os nerds da polícia, os hackers do bem”, diz Barbosa em entrevista ao Terra. Esses agentes produzem relatórios técnicos bem detalhados, que começam com a observação de fóruns clandestinos, trocas de mensagens, scripts e protocolos.
Depois, através do mapeamento, o setor de inteligência da polícia mostra os caminhos para os locais de acesso, provedores e possíveis conexões na vida real, fora da internet, entre os criminosos.
“Eles puxam o fio da meada”, explica o delegado Barbosa. É a partir desses dados que a investigação passa a acompanhar os suspeitos ao vivo. Em caso de suspeitas mais concretas, a polícia pede quebras de sigilo e monitora rotinas até que os responsáveis sejam identificados.
Artifícios do crime na internet
Os criminosos normalmente tentam se camuflar usando ferramentas como mascaramento de números de telefone, VoIP e até inteligência artificial para mudar vozes. “Atrapalha, mas não impede”, afirma o delegado, reforçando que a polícia sempre consegue formas de identificar os criminosos, ainda que usem esses recursos.
Os golpes, por exemplo, ficam cada vez mais sofisticados com auxílio dessas tecnologias. “A gente prendeu em 2025 uma quadrilha que aplicava golpes em clientes de um banco. Eles faziam a ligação, mascaravam o número do telefone e usavam o número da agência real da vítima”.
Barbosa diz ainda que, às vezes, a voz usada nas ligações era idêntica à do gerente do banco com quem o cliente estava acostumado a conversar. “Através de inteligência artificial, eles conseguiram clonar a voz do gerente”, revela.
As informações eram usadas para comunicar uma falsa invasão à conta bancária. Um link era enviado e o cliente precisava preencher com seus dados bancários. Ao inserir a senha, a quadrilha tinha acesso aos dados e poderia entrar na conta da vítima.
Segundo Barbosa, a combinação entre inteligência cibernética e investigação policial tradicional tem permitido à DCCiber desarticular grupos e efetuar prisões, mesmo quando os crimes começam em ambientes virtuais considerados “terra de ninguém”.