Crime se reinventou e viu que online era mais lucrativo e menos arriscado, diz delegado
Delegado da DCCiber detalha como a falta de educação digital e sofisticação dos golpes dificultam o combate aos crimes cibernéticos
Criminosos têm migrado para o ambiente virtual devido à lucratividade e menor risco, impulsionados pela digitalização e pela falta de educação digital no Brasil; apesar de recursos limitados, a DCCiber de São Paulo tem avançado no combate a esses crimes.
Os crimes virtuais no Brasil ganharam força nos últimos anos, especialmente após a pandemia, o que expôs fragilidades no uso da internet, além da capacidade de investigação do Estado. Por causa disso, em 2020, a Polícia Civil de São Paulo criou a Divisão de Crimes Cibernéticos (DCCiber), do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), voltada para combater esse tipo de crime.
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Ao Terra, o delegado da DCCiber, Paulo Barbosa, contou que o período de isolamento social marcou uma virada no comportamento das organizações criminosas. “A gente tem um ponto de inflexão no aumento dos crimes cibernéticos a partir da pandemia, em 2020, 2021, que mudou a vida de todo mundo, mas também mudou a vida do crime”.
Segundo o delegado, os criminosos perceberam rapidamente as vantagens do ambiente virtual. “O crime também teve que se reinventar e ele começou a entender que seria mais lucrativo, menos arriscado praticar um crime pelo computador, atrás de uma tela, do que na rua”, diz. O movimento levou a uma migração em massa das atividades ilícitas para o meio digital, impulsionada pela digitalização de serviços públicos e privados.
A DCCiber fechou o ano de 2025 com 353 casos solucionados, o que representa uma média de quase uma ocorrência esclarecida por dia no estado. De janeiro a dezembro, a DCCiber realizou 138 operações, cumpriu 632 mandados judiciais e efetuou 325 indiciamentos. No mesmo período, foram apreendidos 402 celulares e 727 outros dispositivos e materiais eletrônicos, fundamentais para a produção de provas e identificação dos autores, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP).
'Crime pegou todo mundo de calça curta'
Para Barbosa, a falta de educação digital da população brasileira contribuiu para esse cenário. “Não tem uma educação cibernética. Então, o crime pegou todo mundo de calça curta”, afirma.
Com muitas as atividades do dia a dia migrando para a internet, desde compras e consultas médicas a conversas em aplicativos de mensagens, o volume de dados circulando online se tornou um campo fértil para golpes cada vez mais sofisticados.
'Malha viária para o crime'
O delegado chama atenção para o alto número de dispositivos conectados no país. “O brasileiro tem uma média de 2,4 dispositivos”, comenta, ao citar dados de uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Segundo ele, isso representa cerca de 550 milhões de equipamentos aptos a gerar fluxo de informações. “Isso é uma malha viária para o crime”.
Um crime solucionado por dia
Apesar da complexidade do cenário, a DCCiber tem registrado avanços na elucidação dos casos. A divisão, criada em 2020, soluciona quase um crime por dia, mesmo com limitações estruturais. “As nossas dificuldades são de recursos humanos. A nossa divisão tem menos de 80 policiais para cuidar do estado todo de São Paulo”, destaca Barbosa.
O resultado vem, principalmente, do trabalho feito pelo Centro de Inteligência Cibernética da DCCiber, um núcleo técnico especializado. “É um órgão 100% técnico. A gente brinca que são os nerds da polícia, os hackers do bem”, revela. Ele explica que esses policiais atuam em ambientes como a deep web e a dark web, onde crimes são planejados abertamente.
É através do trabalho de inteligência que a polícia consegue localizar criminosos online primeiro, para depois seguir com as investigações e prisões em campo.
“Antigamente, o crime batia na porta de cada um. Quem queria assaltar, assaltava na rua, ou tinha que invadir uma casa. Hoje, o criminoso entendeu que consegue multiplicar de forma instantânea uma ação dele", conclui.