Golpe do amor: o que é e como se proteger de esquema que culminou em sequestro de juiz em SP
Golpistas criam perfis falsos, principalmente em aplicativos de namoro, e constroem vínculo afetivo com a vítima para obter favores financeiros, bens ou dados sensíveis
Durante o golpe do amor, o criminoso constrói um vínculo afetivo com a pessoa por meio de aplicativos de namoro com o intuito de obter favores financeiros, bens ou dados sensíveis. Segundo a Polícia Civil, o juiz Samuel de Oliveira Magro foi a primeira vítima desse tipo de golpe em 2026. Ele foi liberado do cativeiro na última terça-feira, 20.
"Também conhecido como estelionato sentimental ou amoroso, o golpe combina confiança e urgência. Depois, apresenta pedidos disfarçados de 'ajuda', 'emergência' ou 'oportunidade imperdível'", explica Leonardo Fagundes, especialista em cibersegurança e sócio-diretor da Service Security.
Perfis falsos são criados nas redes sociais — em especial nos aplicativos de namoro — para enganar as vítimas por semanas, meses ou até mesmo por mais de um ano. Fagundes argumenta que o "golpe do Don Juan", como também é conhecido, pode ser considerado delito independente da forma de aproximação.
"A criação de um perfil fictício, por si só, não é crime. A ilegalidade surge quando há intenção de enganar, obter vantagem indevida ou causar prejuízo", explica Ana Rios, advogada especialista em crimes cibernéticos.
No Golpe do Amor, a conduta pode se enquadrar em estelionato (art. 171 do Código Penal), com pena de reclusão de 1 a 5 anos, além de multa. Quando praticado por meio eletrônico, a pena pode chegar a 8 anos. No caso específico de falsa identidade, a detenção é de 3 meses a 1 ano, ou multa.
Como se proteger do golpe do amor
No caso do juiz Samuel de Oliveira Magro, libertado do cativeiro na terça-feira após mais de 30 horas, a Polícia Civil de São Paulo afirmou que foi marcado um encontro por aplicativo de namoro. Quando esperava pelo par, no último domingo, 18, o juiz foi sequestrado.
A advogada Ana Rios explica que, para se proteger do golpe, é preciso ter condutas objetivas e não apenas desconfiança intuitiva. "Trata-se de uma fraude construída ao longo do tempo, com aparência de relação legítima", diz. Ela recomenda:
- Não enviar dinheiro, bens ou ativos digitais para pessoas conhecidas exclusivamente em ambiente virtual, independentemente do tempo de conversa com o indivíduo em questão;
- Não compartilhar dados pessoais ou financeiros, como documentos, endereço, rotina, senhas ou códigos de verificação;
- Não permitir que o vínculo afetivo evolua para dependência financeira ou patrimonial;
- Interromper o contato imediatamente diante de qualquer pedido financeiro, direto ou indireto.
Como saber se um perfil é real?
Para saber se um perfil é real, a vítima deve analisar o comportamento de longa duração para não se basear somente em imagens. Fotos, vídeos ou chamadas de vídeo não garantem autenticidade, os golpistas utilizam identidade de terceiros e conteúdos manipulados. A advogada pede atenção aos seguintes sinais:
- Identidade digital inconsistente, ou seja, sem qualquer histórico fora do aplicativo;
- Vínculo emocional exagerado, com declarações intensas e rápidas exigências;
- Pedidos indiretos de ajuda, que evoluem gradualmente;
- Incentivo ao sigilo, afastando a vítima do convívio social.
"Além do prejuízo financeiro, há risco à integridade física, especialmente em encontros presenciais realizados sem cautela. Por isso, eventuais encontros devem ocorrer exclusivamente em locais públicos, com ciência prévia de pessoas de confiança", explica.
Caí no golpe do amor, o que fazer?
Conforme instrução do presidente da Comissão de Privacidade, Proteção de Dados e Inteligência Artificial da OAB SP, Solano de Camargo, "a reação deve ser imediata e focada na preservação de provas, como gravações das conversas. A vítima nunca deve confrontar o golpista imediatamente; ele pode apagar o rastro. O ideal é preservar as conversas, fotos e áudios".
Se já houve transferência via Pix, a vítima deve acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED) no seu banco o quanto antes, para facilitar a restituição do dinheiro. A rapidez aumenta a chance de bloqueio do valor na conta de destino.
Em seguida, Camargo recomenda procurar delegacias de crimes cibernéticos. "Pela nossa experiência, o dano aqui é duplo: patrimonial e psicológico. O registro é fundamental para as autoridades mapearem as quadrilhas, que muitas vezes operam como verdadeiras empresas do crime".