O que a ciência sabe sobre os riscos para a saúde dos fones bluetooth?
Associação estatística com surgimento de nódulos na tireoide foi publicada na revista Nature, mas especialistas apontam alarmismo
Pesquisa publicada na Nature aponta casos de uso de fones bluetooth com nódulos na tireoide, mas o estudo mostra apenas associação estatística, e não uma relação de causa e efeito. Médicos alegam alarmismo e dizem que faltam evidências que justifiquem mudança de comportamento.
Nas últimas semanas, criadores de conteúdo pelo mundo levantaram um alerta sobre o uso de fones de ouvido com conexão bluetooth, que poderia estar associado ao surgimento de nódulos na tireoide. Os posts dão créditos a um estudo divulgado pela revista Nature, mas um ponto central da pesquisa foi deixado de lado: ela identificou apenas uma associação estatística, e não uma relação de causa e efeito.
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O estudo foi conduzido como uma investigação epidemiológica com apoio de inteligência artificial, e analisou grande volumes de dados, que mostram a frequência de uso dos fones bluetooth junto a diagnósticos de nódulos na tireoide. Os autores destacam que os resultados não permitem afirmar que os fones sejam a causa direta dessas alterações.
Isso significa que os dois fatores podem ocorrer juntos, sem que um provoque o outro.
Para que uma relação entre as duas coisas se torne um fato, a ciência precisa de mais etapas de estudos, como o acompanhamento de longo prazo, grupos de controle e replicação dos resultados em diferentes populações. Nada disso foi concluído até o momento.
Sem pânico
“Hoje, o que a gente tem é associação, não causalidade”, explica a endocrinologista Carolina Ferraz, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Segundo ela, a pesquisa mostrou que pessoas que usam fones bluetooth apareceram com mais nódulos tireoidianos, mas isso, por si só, não permite concluir que os dispositivos sejam responsáveis pelo problema.
“Associação é quando duas coisas aparecem juntas; causalidade é quando a ciência consegue demonstrar causa e efeito. Nesse estudo, isso ainda não foi demonstrado", explica.
Ferraz afirma que a forma como o estudo vem sendo apresentado ao público é um ponto de preocupação. “Eu entendo que ele chame atenção e que vire assunto nas redes sociais, mas vejo um risco grande de abordagem alarmista”, afirma. Segundo a endocrinologista, muitas pessoas passam a interpretar a associação como confirmação científica e buscam exames sem indicação médica.
“Começa uma corrida por ultrassom de tireoide para todo mundo, e eu não concordo com isso. As sociedades médicas já têm critérios bem definidos para quando pedir ultrassom e não recomendam rastreamento indiscriminado, muito menos por causa de um estudo isolado”, diz. Para ela, o trabalho deve ser tratado como um alerta inicial, mas “com muita cautela para não transformar isso em pânico”.
Radiação não ionizante
Os fones bluetooth emitem radiação de radiofrequência não ionizante, a mesma usada por celulares, redes Wi-Fi e outros dispositivos cotidianos. Esse tipo de radiação tem baixa energia e não é capaz de ionizar átomos nem causar danos diretos ao DNA.
A tecnologia opera na faixa de 2,4 GHz, amplamente estudada e regulamentada. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há evidências consistentes de efeitos adversos à saúde quando a exposição ocorre dentro dos limites recomendados. Atualmente, não existem diretrizes médicas ou regulatórias que limitem o uso de fones bluetooth por risco de radiação.
Danos à audição
Se a ligação entre bluetooth e nódulos na tireoide ainda carece de evidências, o uso excessivo de fones sobre a audição é consenso entre médicos. O otorrinolaringologista José Ricardo Gurgel Testa, do Hospital Paulista e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), alerta que a exposição prolongada a sons acima de 80 decibéis pode causar danos permanentes.
“A exposição a sons acima de 80 decibéis, especialmente quando ocorre por períodos prolongados e sem repouso acústico, aumenta significativamente o risco de perda auditiva induzida por ruído”, afirma. Segundo o médico, não é apenas o volume que importa, mas também o tempo de uso.
O cuidado é ainda mais importante entre crianças e adolescentes, que têm um sistema auditivo que ainda está em desenvolvimento e podem sofrer os efeitos ao longo da vida.
Zumbido, dificuldade de atenção, necessidade constante de repetir informações e confusão para compreender a fala são sinais que merecem atenção. “Esses sintomas não devem ser ignorados. Quanto mais cedo o problema é identificado, maiores são as chances de evitar a progressão de uma perda auditiva”, diz o médico.