O que diz a ciência sobre teorias de que homem nunca pisou na Lua? Missão Artemis II retorna hoje
Teorias conspiratórias que negam fato histórico são facilmente descartadas por evidências, segundo especialistas
Após mais de meio século da primeira chegada do homem à Lua, ainda há quem acredite que tudo não passa de uma farsa. As teorias conspiratórias que negam o feito histórico continuam circulando com força nas redes sociais, mesmo diante de várias evidências científicas acumuladas ao longo de décadas. A desinformação sobre o programa Apollo ainda encontra espaço, alimentada pela desconfiança em instituições e pela facilidade de disseminação de conteúdos enganosos.
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Não foi diferente com a missão Artemis II, que ainda nem terminou -- os astronautas devem chegar hoje à Terra -- e já virou alvo de críticas de céticos na internet. Há quem acuse a Nasa de usar imagens criadas por inteligência artificial (IA), e quem desconfie que tudo foi encenado, pelo fato dos astronautas não terem pisado no satélite natural dessa vez.
Na época da missão Apollo, a ideia de que tudo teria sido filmado em um estúdio de Hollywood, por exemplo, é uma das mais antigas fake news. No entanto, especialistas apontam que a própria dimensão do projeto já desmonta essa hipótese.
“Na época, nós tivemos 400 mil pessoas envolvidas no projeto Apollo. Então, assim, seria muito difícil fazer qualquer coisa fake na época, porque você está lidando com o trabalho de 400 mil pessoas”, afirma o astrônomo e engenheiro Cristóvão Jacques.
Evidências atuais reforçam o que já se sabia
Se na década de 1960 o feito já era acompanhado em tempo real, hoje as provas são ainda mais robustas. Missões espaciais recentes e sondas internacionais conseguiram registrar, com alta resolução, os locais de pouso das missões.
“Tem várias sondas que hoje estão em volta da Lua e tiraram imagens de alta resolução dos locais das missões Apollo”, conta o especialista.
Segundo Cristóvão, essas evidências não vêm apenas dos Estados Unidos. “Esses locais foram fotografados por essas sondas, não só sondas americanas, mas sondas da China, principalmente, sondas da Índia, que fotografaram as mesmas regiões onde o Apollo passou e lá mostrou exatamente o módulo lunar que está pousado até hoje, o rastro dos astronautas, então está tudo registrado”.
Além disso, até mesmo a antiga rival dos EUA na corrida espacial reconheceu o feito. “A própria União Soviética reconheceu que os americanos chegaram na Lua”, comenta.
Bandeiras, fotos e mitos recorrentes
Entre os argumentos mais comuns de negacionistas estão dúvidas sobre os objetos deixados na Lua, como as bandeiras dos Estados Unidos. Há quem diga que elas desapareceram ou que o estado atual delas comprovaria a suposta farsa. No entanto, a física explica o que aconteceu.
“O problema é que as bandeiras foram instaladas muito próximas ao módulo lunar. E quando o módulo saiu, esse jato de subida já derrubou um monte de bandeiras”, explica o astrônomo.
As bandeiras que permaneceram também sofreram os efeitos extremos do ambiente lunar. “Possivelmente elas devem ter até perdido a coloração devido à exposição aos raios cósmicos, até o próprio raio solar, que geralmente danifica muito esse tipo de material depois de tanto tempo”.
Por que o homem não voltou antes à Lua?
Outra narrativa comum usada para alimentar desinformação é o longo intervalo sem missões tripuladas à Lua. Para conspiracionistas, isso seria um indício de que a ida nunca aconteceu. A explicação, no entanto, é mais simples e está ligada a fatores políticos e econômicos.
“Tudo se explica por uma questão de motivação e direcionamento estratégico”, diz Jacques. Ele lembra que o contexto da época das missões Apollo era a Guerra Fria. “Os americanos queriam provar que eles eram melhores que os russos, nesse caso, eles venceram, entre aspas, essa corrida da Lua”. Após esse objetivo ser alcançado, as prioridades mudaram.
“A Nasa começou a ver as suas verbas diminuindo e redirecionou o foco estratégico para o ônibus espacial, financiou várias missões espaciais para outros planetas, que eram muito mais baratas e tinham um retorno científico muito grande”, conta o astrônomo.
Foto da Lua é IA?
Se antes as teorias conspiratórias se baseavam em supostos erros nas imagens da Apollo, hoje elas incorporam novos elementos como o uso da inteligência artificial para “validar” desinformação. “É o que mais a gente vê, são os especialistas da internet”, critica Cristóvão.
Ele cita exemplos recentes envolvendo imagens do programa Artemis. “Inclusive as fotos originais da Artemis, o pessoal consultando uma IA, ela falou que elas eram visíveis da Terra. Então a IA também precisa aprender a parar de falar besteira”, alfineta.
O problema, segundo ele, é que essas análises ignoram princípios básicos da observação astronômica. Isso porque o lado oculto da Lua não é visível da Terra, o que desmente a versão da IA.
Apesar da persistência das fake news, o conjunto de evidências sobre a ida do homem à Lua só cresce, principalmente com registros independentes, avanços tecnológicos e novas missões que voltam a colocar o satélite no centro da exploração espacial. O caso se tornou um clássico das narrativas de conspiração, mesmo diante de provas concretas, o que para os especialistas, só reforça a importância da divulgação científica.