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Ciência

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Você sabe o que é digissexualidade? Especialista em dependência tecnológica da USP explica

Relacionamento sexual com robôs e chats é objeto de estudo da psicologia

23 mai 2026 - 05h41
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Um dos filmes de maior sucesso em 2013 foi Ela (Her), um longa dirigido por Spike Jonze, em que um homem solitário se apaixona por uma Inteligência Artificial (IA) com voz feminina. O filme trazia uma discussão relevante, ainda que muito futurista para a época, sobre a solidão e a evolução da intimidade na era digital. A ficção científica de 13 anos atrás já é realidade em 2026.

Digissexualidade é um termo relativamente recente, ainda pouco conhecido por grande parte da população, que surgiu a partir da constatação do impacto cada vez maior da tecnologia sobre a sexualidade humana. Se em um primeiro momento a tecnologia servia como meio de acesso, agora ela já ocupa o lugar central da experiência sexual de muita gente, sobretudo com o advento da Inteligência Artificial (IA).

Professora e pesquisadora do Ambulatório de Dependência Tecnológica do Instituto de Psiquiatria da USP, Carla Cavalheiro Moura explica que "não se trata de um transtorno ou de um diagnóstico, mas sim de um termo cunhado em 2017 para explicar essas novas interações sexuais diante do avanço da tecnologia e, principalmente, da IA".

Nesta entrevista, Carla Cavalheiro fala sobre a digissexualidade, a epidemia de solidão e como isso vem afetando a sexualidade das novas gerações.

Carla Cavalheiro Moura é coordenadora do grupo de dependências tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.
Carla Cavalheiro Moura é coordenadora do grupo de dependências tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.
Foto: Fraga Alves/Estadão / Estadão

O que é a digissexualidade?

Não é um transtorno, nem um diagnóstico. É um termo cunhado por volta de 2017 para explicar essas novas interações sexuais que estão surgindo agora.

E quais seriam essas novas interações?

O professor Mark Arthur, em um artigo publicado em 2019 na plataforma "The Conversation", fala em duas ondas da digissexualidade. A primeira onda tinha a ver com a sexualidade mediada pela tecnologia, é o caso da pornografia, por exemplo, em que o universo tecnológico mediava a relação das pessoas com os vídeos. A segunda onda é mais imersiva, existe uma simulação do sexo pela realidade virtual, pela IA e até mesmo pelos robôs que estão cada vez mais realistas. O que chama atenção é que esses relacionamentos não se resumem à interação sexual: há também amor, romantismo, carinho.

Como no filme Ela (Her) de Spike Jonze?

Sim, exatamente. Temos uma confusão - ou seria uma tendência? -, eu acho que é confusão, porque as pessoas estão relatando que não se trata apenas de uma relação sexual, mas também romântica. Esse filme é bem legal para entender o que estava por vir. Um homem se relaciona afetivamente com uma pessoa...

Com uma pessoa?

Pois é, não é uma pessoa, isso é uma loucura (no caso do filme é uma IA com voz feminina). Mas a confusão acontece também por causa do espaço que a tecnologia ocupa nas nossas vidas. Tudo migrou para o digital, sobretudo depois do advento do smartphone. Não se trata de demonizar a tecnologia, há avanços muito positivos, mas outros são problemáticos. E essa dependência tecnológica se torna mais forte a partir do momento que temos aquele aparelho o tempo todo conosco. Não temos outra forma de descanso que não seja com o celular na mão. Interagimos cada vez menos de forma presencial. Isso tudo mudou muito e, fatalmente, chegaria na sexualidade.

De que forma chegou na sexualidade?

O que temos visto são pessoas se relacionando romanticamente com os chatbots. Paulatinamente, a coisa vai migrando para a interação sexual. E muitas pessoas dizem que se sentem completas, que não sentem falta do presencial, do relacional. São pessoas que dizem "tenho baixa bateria social", "estou esgotada de me relacionar com pessoas", "os homens são muito preconceituosos, machistas".

Quais as consequências desse isolamento digital?

Vivemos uma epidemia de solidão, as pessoas se sentem muito sozinhas. Elas não vão para o mundo real e, por isso, não desenvolvem certas habilidades importantes para a interação humana. A pandemia não criou a solidão nem o uso excessivo da tecnologia, mas superfaturou algo que já estava nos preocupando há algum tempo. Quando interagimos presencialmente, não temos apenas palavras, mas silêncios, olhares, o jogo corporal, isso tudo é eliminado na tecnologia. É preciso recrutar outros mecanismos de manejo de interação. É diferente do online. A gente aprende a se relacionar presencialmente; isso não vai mudar.

A senhora poderia dar outro exemplo?

Já temos estudos mostrando crianças com atraso gritante no desenvolvimento da linguagem. Uma das hipóteses é que elas estão interagindo mais com telas do que com humanos. O ser humano aprende a falar por modelo, a gente chama de modelagem, é assim que a gente aprende a falar, não há outra forma.

Mas a tela pode trazer diálogos, não?

Sim, mas não é a mesma coisa, porque não há uma interação mediada por outro ser humano como na relação presencial.

E o que acontece no "relacionamento amoroso"?

A pessoa conversa com um par romântico, criando a falsa ilusão de que aquelas respostas vêm do pensamento de alguém e não de um algoritmo. A gente ainda tem pouco acesso a esses pacientes, mas o que tentamos fazer é trazer a pessoa para a realidade, para as relações presenciais e humanas. É bem perigoso pois a pessoa vai perdendo a capacidade de se relacionar com outras pessoas.

Qual o risco?

Alguns comportamentos não podem ser extintos, como a questão relacional presencial sem intermediação da tecnologia. É importante para o desenvolvimento integral do ser humano que faça sexo com uma pessoa para ter a experiência total de troca. Pelo menos é nisso que a ciência acredita hoje.

De que forma as sensações de prazer são alteradas?

Há estudos recentes mostrando que as pessoas, sobretudo as mais jovens, estão fazendo menos sexo do que antigamente. Tenho visto jovens com prática de masturbação bastante contundente, o que é normal; mas o que não é normal é elas dizerem que está bom desse jeito, que não sentem falta de estarem com outra pessoa.

Como vocês lidam com isso?

Temos que conscientizar a pessoa do que está acontecendo. Mas é uma tendência da questão sexual. Pode ser que ocorra com mais frequente no futuro e pode até ser que a gente normalize isso. Mas precisamos ter um senso crítico sobre isso. Sempre que atendo os muito jovens digo que tudo o que eles estão ganhando com a tecnologia é muito legal, mas que precisam pensar também no que estão perdendo, no que estão deixando de fazer.

Serviço

Para entrar em contato com o Ambulatório de Dependência Tecnológica, acesse: www.dependenciadetecnologia.com.br

Estadão
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