Cheiro de cereja diminui interesse sexual feminino, diz estudo
- Sarah Kershaw
Casais cuja esperança é levar seu jantar de dia dos namorados a uma conclusão satisfatória podem se sentir tentados por um cardápio especial oferecido pelo restaurante One if by Land, Two if by Sea, em Manhattan, e especialmente por uma sobremesa conhecida como Black Forest. É uma barra de chocolate com massa de cookies e pistache, decorada por canudos de chocolate, sorvete de creme fraiche, geléia de cereja e cerejas doces.
Mas atenção: um estudo constatou que o cheiro de cerejas pode conduzir a uma severa redução no interesse sexual feminino. E existe uma segunda questão quando ao Black Forest - e os quaquilhões de outras formas de chocolate que serão consumidos neste final de semana em que o dia dos namorados será celebrado nos Estados Unidos: a reputação do chocolate como afrodisíaco é muito superestimada, dizem os pesquisadores da alimentação.
Romântico e profundamente prazeroso, sim, especialmente devido à sua tendência de derreter na boca à temperatura ambiente. E, claro, o chocolate contém produtos químicos como a feniletilamina, que produz sensações de euforia. No entanto, um estudo científico de forte repercussão calculou que uma pessoa de 59 kg teria de comer 11 kg de chocolate de uma vez para que isso afetasse as suas sensações eróticas. Mas quem estaria com vontade de namorar depois de comer o equivalente a 19% de seu peso em chocolate?
Por outro lado, o fondue de chocolate oferecido no cardápio de dia dos namorados do MidAtlantic, um restaurante de Filadélfia, vem com uma possível arma secreta para tentar colocar um homem em estado romântico de espírito: roscas doces. Mas melhor não comer depressa demais, porque um estudo científico afirma que a resposta sexual masculina só se intensificava caso o cheiro das roscas fosse combinado com o de alcaçuz, o que está longe de ser uma combinação usual.
A única combinação entre dois aromas identificada pelo estudo como potencialmente mais potente envolve lavanda e torta de abóbora, o que talvez seja um par ainda menos comum.
De todas as legiões de produtos que se pretendem afrodisíacos, foram identificadas provas científicas de efeitos libidinosos sobre outras porções da anatomia que não o estômago em apenas alguns poucos casos. Mas os últimos 10 anos propiciaram novas formas de medir a resposta sexual a alimentos, bem como um crescente volume de pesquisas por cozinheiros e cientistas, igualmente, sobre as conexões entre aroma, comida, emoções e experiências de ordem sensual.
As pimentas chili, por exemplo, aceleram o pulso e induzem suor, o que representa uma imitação do estado de excitação sexual, bem como estimula a liberação de endorfinas, um composto que desempenha um papel no prazer sexual, de acordo com Meryl Rosofsky, médico e professor adjunto no departamento de nutrição, estudos da alimentação e saúde pública, na Universidade de Nova York.
Ainda assim, a maioria das pessoas que sabem distinguir o que é e o que não afrodisíaco, de abacates a línguas de zebra, costumam admitir que seu campo de trabalho é altamente subjetivo. Como declarou a sexóloga televisiva norte-americana Dra. Ruth, em uma citação que se tornou famosa, "o mais importante dos órgãos sexuais está localizado entre as orelhas".
Cultura e tradição têm papel importante a desempenhar. Certos alimentos vistos como afrodisíacos, tais como açafrão, manjericão, alecrim, mel, uvas e pinhões eram cobiçados pelos antigos gregos e romanos e pelos europeus medievais, devido aos seus grandes poderes libidinais. Ou, como no caso do foie gras, caviar, trufas e champanhe, eles são exaltados na condição de presentes românticos devido à sua raridade e ao luxo que representam.
Outros alimentos, como figos, aspargos e pepinos, há muito são vistos como eróticos devido à semelhança que apresentam com os órgãos sexuais masculinos e femininos. Alguns ingredientes são considerados sensuais em virtude da maneira pela qual são comidos, por exemplo, "uma refeição compartilhada em um mesmo prato", como escreveu Rosofsky em seu verbete sobre os afrodisíacos para a "Encyclopedia of Food and Culture"; em outros casos, a exemplo das ostras, a condição afrodisíaca está relacionada a serem "sugadas e lambidas sedutoramente".
Os alimentos contendo nutrientes com o potencial de reforçar a fertilidade e a virilidade atraíram mais interesse de pesquisadores, cozinheiros e praticantes da medicina alternativa, nos últimos anos. Entre eles está, uma vez mais, a ostra, que contém zinco, componente vinculado a uma produção maior de espermatozóides. (No entanto, uma pessoa com deficiência de zinco teria de devorar imensas quantidades de ostras antes que sentisse qualquer diferença.) O alho contém um aminoácido que reforça o fluxo sanguíneo e poderia resultar em ereções mais longas, de acordo com Rosofsky.
Existem diferenças notáveis entre as culturas no que tange aos tipos de alimentos vistos como prazerosos. Rachel Herz, especialista em psicologia do cheiro, escreveu em seu livro, "The Scent of Desire", que "os asiáticos consideram o cheiro do queijo como repulsivo, enquanto para os ocidentais ele representa diversos valores, da comida caseira ao luxo suntuoso".
Pesquisadores identificaram elos fortes e até agora desconhecidos entre o cheiro, a emoção e a atração sexual. O cheiro pode induzir emoções que por sua vez deflagram mudanças neuroquímicas, segundo Herz. De todos os sentidos, ela diz, ele é o único que não passa pelos centros conscientes do cérebro e se conecta diretamente ao sistema límbico, a região responsável pela memória, motivação e emoção básicas.
O senso de olfato evoluiu de maneira a permitir a localização de alimentos e parceiros de acasalamento, e muitos trabalhos de pesquisa constataram que o odor corporal desempenha papel forte na atração humana. O anseio por comida funciona em larga medida como a luxúria, no centro de prazer do cérebro, e também reproduz a atividade neurológica que acontece quando um viciado anseia por drogas ou álcool.
Em uma pequena experiência sobre respostas sexuais aos aromas de alimentos, o fluxo sanguíneo para o pênis ou vagina foi medido em 31 homens e mulheres que usavam máscaras emitindo diversos aromas de comida. Foi esse o estudo que constatou que homens são suscetíveis ao aroma de roscas e alcaçuz combinados. Para as mulheres, o primeiro lugar em termos de excitação sexual foi um empate entre talco para bebês e uma combinação entre doces da marca Good & Plenty e pepinos. Em segundo lugar veio uma combinação entre Good & Plenty e pão de banana.
O estudo, conduzido pela Fundação de Pesquisa do Sabor e Aroma, em Chicago, também constatou que o aroma de cerejas fazia com que o nível de excitação feminino caísse consideravelmente; carne assada em um fogareiro a carvão tinha efeito semelhante.
Alan Hirsch, que também conduziu experiências nesse campo, disse que as respostas não provavam que o cheiro de torta de abóbora despertava uma resposta fisiológica profunda que levaria um homem médio a desfrutar de todos os benefícios de um influxo maior de sangue ao pênis. Na verdade, ele apontou, os cheiros talvez tenham simplesmente despertado lembranças poderosas entre os integrantes da pequena amostra de participantes, entre os quais por exemplo jantares de Ação de Graças que podem ter resultado em um caso passageiro no passado, ou uma experiência desagradável envolvendo cerejas.
Herz afirmou que o estudo era limitado demais para conduzir a quaisquer conclusões com bom grau de confiabilidade, mas ecoou a opinião de que as passadas experiências com um determinado aroma exercem papel fundamental. "Quando nós, norte-americanos, cheiramos odores almiscarados", ela diz, "pensamos em sensualidade. Na América do Sul, os produtos de limpeza contêm almíscar, de modo que uma mulher daquela região provavelmente associará esse aroma mais à lavagem de roupas do que a uma lingerie sexy".
Herz define o processo pelo qual os aromas se associam positiva ou negativamente a determinadas lembranças de "aprendizado associativo de aromas". O cheiro de um hospital pode resultar no que ela define como "preocupações de cirurgia", enquanto o cheiro de roscas e croissants gera uma sensação de conforto ou alegria.
Produtos confeitados apresentam associações tão positivas, para os norte-americanos, que algumas empresas, adeptas de uma estratégia para crescimento conhecida como marketing de aromas, aspergem produtos que simulam o aroma de cookies de chocolate ou outros pratos agradáveis, em seus estabelecimentos, a fim de despertar sentimentos de felicidade que, esperam, possam resultar em consumo.
As lembranças nostálgicas deflagradas por odores, conhecidas como Efeito Proustiano, foram adotadas por alguns cozinheiros que acreditam que comer deve ser uma experiência sensorial plena, envolvendo aroma, sabor e até mesmo som.
Heston Blumenthal, do Fat Duck, um restaurante em Bray, Inglaterra, convida os fregueses do estabelecimento a escrever memórias alimentícias e usa essas anotações como inspiração para futuros pratos. Grant Achatz, do Alinea, em Chicago, já serviu comida em troncos calcinados, em um leito de folhas de eucalipto e sobre almofadas infláveis cheias com ar perfumado por lavanda, café ou zimbro. Ele despeja água quente sobre a palha e usa o líquido para evocar memórias de passeios de charrete (ou de outras experiências possivelmente mais safadas que envolvam rolar no feno, a depender do freguês).
Não parece provável que esses restaurantes criem um cardápio especial para o dia dos namorados, mas aqueles que os criam fariam bem em combinar o romantismo a uma boa dose de senso comum. No Bar Americain, em Manhattan, por exemplo, o cardápio dos amantes incluirá ostras e mignonette de menta; filé mignon com molho madeira; e bolo red velvet.
Amy Reiley, uma consultora de restaurantes e autora de livros de receita que se especializa em alimentos sensuais e vinho, disse apreciar a inclusão das ostras e menta. Mas disse que "esse é o tipo de refeição que faz com que a pessoa fique com sono depois, e não inspirada para a dança horizontal".
De forma semelhante, o jantar planejado pelo MidAtlantic era "pesado demais para uma celebração pré-coito", ela escreveu em mensagem de e-mail. Além da sobremesa mencionada acima, a refeição incluía ostras, filé, batata, couve-flor gratinada e, na opinião dela, proteína e amido demais para que restasse a um conviva energia suficiente a outras atividades.
Reiley é autora de um livro de culinária que segue a estrutura do manual sexual "The Joy of Sex", e sugere que restaurantes que desejem servir pratos verdadeiramente carnais deveriam optar pelo guacamole, e não só porque o abacate é há muito considerado como afrodisíaco.
"Para mim, um dos atributos de mais sucesso em uma refeição afrodisíaca são as cores, aromas, sabores e texturas que despertam o palato e desafiam a mente", disse. "O guacamole, em sua forma usual de apresentação, reveste delicadamente as tortillas e serve como cobertura sensual para os burritos e tamales bem temperados".
Ela também gosta de usar muito açafrão, menta e baunilha, todos eles ingredientes que define como afrodisíacos, bem como as pimentas chili. E, como escreve Reiley em seu livro, "o vinho é um afrodisíaco. Isso serve como perfeito resumo". Mas qualquer pessoa que decida aceitar essa ideia deveria ter em mente o alerta feito por Shakespeare em "Macbeth": O álcool "provoca o desejo, mas impossibilita o desempenho".
Tradução: Paulo Migliacci ME