Empresa prospera criando produtos para sobrevivência
Tudo começou com redes de mosquitos. Não, com filtros contra o verme da Guiné. Ou antes disso, com mais de 900 km de lã nas montanhas da Suécia. Ou, em outra geração, com uniformes para funcionários de hotéis e supermercados.
Existem diversas fundações de caridade e agências públicas dedicadas a ajudar os pobres do mundo, muitas com nomes instantaneamente reconhecidos como Unicef ou Gates Foundation. Mas empresas privadas que tenham isso como foco único são raras. Mesmo a mais conhecida não é nem de perto muito famosa: Vestergaard-Frandsen.
Seus produtos são usados em campos de refugiados e áreas de desastres em todo o terceiro mundo: PermaNet, uma rede de mosquitos impregnada de inseticida; ZeroFly, uma lona impermeável de barracas que mata moscas; e LifeStraw, um purificador de água que pode ser carregado pendurado no pescoço.
Alguns itens não apenas salvam vidas, mas são bonitos. O LifeStraw turqueza e azul marinho está em acervos de design de museus. "A Vestergaard é diferente de outras empresas com que trabalhamos", disse Kevin Starace, conselheiro de malária da Fundação da ONU. "Eles pensam no usuário final como um consumidor ao invés de um paciente ou uma vítima". Por exemplo, eles adicionaram um compartimento para celular aos seus mosquiteiros de cama e fizeram cortinas para matar insetos, conta.
A empresa, iniciada na Dinamarca, há 51 anos, para a fabricação de uniformes de trabalho, é agora controlada por Mikkel Vestergaard-Frandsen, neto do fundador. Após terminar o colégio em 1991, disse, ele "não tinha interesse nenhum em engordar o mercado de camisas masculinas". Ao invés disso, pegou a mochila e viajou pela Índia e África, considerando ir para o Kuwait combater os incêndios de campos de petróleo ocorridos durante a Guerra do Golfo.
No Egito, ele conheceu dois nigerianos que disseram que ele poderia ganhar dinheiro em seu país com a importação de carros da Europa. "Quando você tem 19 anos, não possui um real plano de negócios", disse ele. "Assim acabei em Lagos, vendendo carros, motores de caminhões e ônibus". Mas o caos de um golpe de Estado em 1993 o fez voltar para a Dinamarca.
Enquanto isso, seu pai, Torben, conseguiu um acordo de compra de mais de 900 km de lã, velha e cinza-esverdeada, dos estoques da defesa civil da Suécia. "A Suécia tinha cavernas nas montanhas cheias de tudo que você precisaria no caso de uma Terceira Guerra Mundial, mas eles decidiram que o risco disso acontecer não era mais tão grande," disse o Vestergaard-Frandsen pai. "Era para os uniformes do Exército. A qualidade era boa, lã muito cara, mas a aparência era tão ruim que nenhuma dona-de-casa iria querê-la em seu sofá".
Mikkel concordou então em ocupar uma mesa no fundo da fábrica e trabalhar no próximo passo: fazer cobertores com o tecido e vendê-los à Cruz Vermelha. Muitos deles, ele disse, acabaram em Ruanda e Curdistão.
Enquanto isso, o principal negócio da companhia enfrentava concorrência da Ásia, e tanto ele quanto seu pai acharam o trabalho humanitário mais interessante. Exportar roupas usadas para distribuição em campos de refugiados era lucrativo. E havia mercado para armadilhas de moscas tsé-tsé; as moscas, que transmitem a doença do sono, são atraídas por certos cumprimentos de onda da luz azul, por isso a empresa tinha que fazer um tecido do tom certo que não desbotasse quando exposto à luz do sol e que não estragasse quando permeado por inseticida.
Em 1998, eles se tornaram fornecedores do Carter Center, que foi fundado pelo ex-presidente americano Jimmy Carter e liderava o esforço global para eliminar o verme da Guiné. Os parasitas começam a vida como larvas microscópicas dentro de pequenas pulgas de lagos, mas, uma vez engolidos por pessoas, se tornam um ano mais tarde animais com cerca de 91 cm de comprimento, que lembram espaguete e saem de dolorosas pústulas cheias de ácido.
O centro precisava de filtros com tramas finas o suficiente para apanhar as larvas, mas resistentes o bastante para serem esticados sobre uma jarra de água. Vestergaard fez coadores quadrados de nylon reforçados por telas. A companhia é "muito confiável e possui um bom controle de qualidade", disse o doutor Ernesto Ruiz-Tiben, diretor do programa de combate ao verme da Guiné. "Compramos milhões de dólares em produtos deles".
A companhia também recriou a idéia que Ruiz-Tiben teve com os nômades Tuareg de Mali: colocar o filtro em um curto cano de plástico para que o usuário pudesse se deitar e beber de qualquer poça. Versões posteriores substituíram o tecido por uma trama fina de metal. O cano foi a inspiração para o LifeStraw, um cilindro de plástico com 25,4 cm que filtra ou mata bactérias, parasitas e alguns vírus e pode ser fabricado por menos de US$ 3.
Versões mais antigas usavam gotas de iodo junto a um filtro de carvão para diminuir o gosto do iodo. Os novos filtros usam a tecnologia de fibra vazada. Para promover os filtros, Torben permitiu que equipes de televisão o filmassem bebendo água dos canais de Copenhagen e até de uma privada. "Foi horrível," ele admitiu. "Era um banheiro feminino, eles tinham colocado uma substância química para melhorar o odor da água, e o LifeStraw não remove substâncias químicas. E os canais tinham sal da água do mar. Isso não é filtrado, então bebi muito sal".
Agências humanitárias também compraram dezenas de milhares desses canudos após o ciclone em Mianmar e terremotos na Ásia. A companhia agora fabrica uma versão maior que filtra quase 19 litros por hora sem deixar gosto de iodo na água e que pode durar até três anos para uma família típica.
Torben disse que um comandante de vôo da transportadora de aviões Kitty Hawk perguntou se ele poderia fabricar uma versão do filtro para água do mar que seria usada por pilotos abatidos. Ele queria dizer que sim, conta, observando que muitos poços do terceiro mundo são de água salobra e que vilas empobrecidas perto de oceanos também poderiam usá-lo. Mas o sal é muito fino para ser removido sem osmose inversa, uma tecnologia que requer muita energia, disse ele.
Enquanto Torben é, às vezes, descrito como o cientista louco da empresa, Mikkel é mais que um fornecedor e ajuda a estabelecer políticas globais. Por exemplo, nas juntas de parcerias público-privadas como a Roll Back Malaria, ele é geralmente o representante oficial do mundo dos negócios.
Grandes empresas químicas como Basf ou Sumitomo, suas rivais no setor de redes tratadas com inseticidas, "enviam um gerente de produto ou um diretor-regional às reuniões da junta", disse Starace da Fundação da ONU. "Mas Mikkel é o CEO". "E também", Starace acrescentou, "ele é sempre o pensador mais audacioso da reunião. Ele está disposto a arregaçar as mangas ou até mesmo disponibilizar seus próprios funcionários para resolver um problema. Ele emprestou ao programa Roll Back Malaria seu chefe-financeiro para ajudar a fazer melhores auditorias. Ninguém mais faria isso".
Em setembro, para celebrar o 50° aniversário da Vestergaard-Frandsen, a companhia tentou algo particularmente audacioso. Pouquíssimos africanos da área rural estão dispostos a fazer testes de AIDS porque o estigma de até mesmo pedir para fazer um teste é muito forte. Mikkel decidiu tentar um tipo de suborno. Escolhendo um distrito de saúde no oeste do Quênia, ele ofereceu a qualquer um que fosse testado um pacote contendo uma rede, um purificador de água, 60 preservativos e panfletos sobre educação de saúde.
Filas imensas se formaram nas 30 clínicas do distrito, e quase 50 mil pessoas foram testadas. Em uma semana, a porcentagem de adultos do distrito que havia feito o teste passou de 20% para mais de 80%. Como os testes foram centralizados e rápidos, eles incluíram contagem de CD-4, que são mais sofisticadas e determinam quais doentes necessitam de terapia antiretroviral imediatamente.
Saiu caro ¿ custou à companhia US$ 3 milhões. "Mas para ser franco", Mikkel disse, "é a única maneira demonstrável além das visitas de porta em porta a conseguir essa resposta". Ele espera publicar os dados em um periódico médico para que os doadores considerem custear a iniciativa.
A Vestergaard-Frandsen, uma empresa familiar, não divulga dados financeiros, mas vendeu 165 milhões de redes e gera lucro, Mikkel disse. Mas ele também tem paixão pelo trabalho, disse, e pelo desafio de tentar investir em um novo produto a cada ano. "Muito poucas companhias adotam a postura de que fazer o bem dá um bom dinheiro", disse ele. "Eles fazem uma rede, ou um filtro de cerâmica, e vendem. Mas não se engane ¿ assim que provarmos que essa é uma boa idéia, outros virão. Eles estão sentados, nos observando agora".
Tradução: Amy Traduções