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Canteiros de obras se tornam campos de pesquisa após encontro de fósseis por equipes de construção

Há uma simbiose natural entre a paleontologia e a construção, profissões nas quais cavar a terra faz parte do dia a dia

29 set 2022 - 05h11
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Tudo começou com um fêmur bem grande. Quando Kevin Busscher mergulhou a pá de sua escavadeira no solo macio de Michigan no mês passado, ele sabia que o osso que ele arrancou da terra era grande demais para ter pertencido a uma vaca ou cavalo e logo concluiu que a rede de drenagem que estava abrindo teria de esperar. "Meu primeiro pensamento foi: mamute-lanoso!", disse Busscher, que relatou a descoberta às autoridades do condado que supervisionavam o projeto, as quais retransmitiram fotos a cientistas.

Como se descobriria mais tarde, ele encontrou o esqueleto de um mastodonte, fera parecida com um elefante que vagou pela América do Norte durante a última era glacial. Na manhã seguinte, uma equipe de pesquisadores se reuniu para extrair o restante dos ossos.

Quando desenterraram a enorme mandíbula do mastodonte, vários dentes brancos e brilhantes ainda estavam no lugar. Essa descoberta, poucos metros abaixo do solo entre uma estrada rural e um campo de feno, foi a mais recente de uma longa tradição de trabalhadores da construção civil se tornando paleontólogos acidentais. Ao longo dos anos, equipes de construção se depararam com dinossauros no Colorado, ossos de cavalos que datam de milhares de anos em Nevada e um cemitério de mamutes na Dakota do Sul, transformando canteiros de obras para novas casas, piscinas de quintal e prédios do governo em repentinos laboratórios científicos.

"Como paleontólogos, gostaríamos de sair com esse tipo de equipamento pesado e começar a cavar, rasgando colinas, mas realmente não conseguimos", disse Blaine Schubert, professor da Universidade Estadual do Tennessee que supervisiona o Gray Fossil Site and Museum, que se tornou uma área de pesquisa depois que trabalhadores de um projeto de rodovia descobriram um tesouro de ossos em 2000.

Há uma simbiose natural entre a paleontologia e a construção, profissões nas quais cavar a terra faz parte do dia a dia. E, como há muito mais trabalhadores de construção do que paleontólogos, faz sentido que os trabalhadores muitas vezes sejam os primeiros a descobrir os ossos.

Achados

Joe Sertich, que até recentemente era curador de dinossauros no Museu de Natureza e Ciência de Denver, disse que sempre ouvia relatos de pessoas que pensavam ter encontrado fósseis notáveis. Às vezes eram alarmes falsos ou achados relativamente menores, como fósseis de peixes comuns ou ossos tão danificados por equipamentos de construção que tinham pouco valor científico, mas de vez em quando, os trabalhadores tropeçavam em descobertas.

Ele ajudou a escavar milhares de fósseis da era glacial - incluindo mamutes, mastodontes, camelos, plantas e insetos - no local da expansão de um reservatório em Snowmass Village, Colorado. E nos subúrbios de Denver, em dois canteiros de obras diferentes, um para uma delegacia de polícia e um corpo de bombeiros e outro para um lar de idosos, trabalhadores encontraram restos de dinossauros. "Organizei grandes expedições por todo o país para passar oito semanas cavando em áreas remotas, procurando coisas como dinossauros com chifres", disse Sertich. "E acontece que alguns achados estão bem no quintal das nossas casas."

Em Hot Springs, Dakota do Sul, o trabalho em um conjunto habitacional parou abruptamente na década de 1970, quando trabalhadores encontraram o esqueleto de um mamute. Quando Jim I. Mead e outros paleontólogos foram até lá e começaram a cavar, encontraram outro esqueleto e mais outro. O local, disse Mead, revelou ter sido uma lagoa onde vários mamutes se afogaram muito tempo atrás. O dono da construtora concordou em parar de construir e, décadas depois, mamutes ainda estão sendo desenterrados na área.

"Temos muita sorte", disse Mead, hoje diretor de pesquisa do Mammoth Site, que recebe turistas, grupos escolares e cientistas. "É simplesmente fenomenal que essa pessoa tenha dito: 'Quero que tudo isso seja preservado'."

Conflito

Às vezes pode haver conflito entre ciência e construção. Ao contrário de restos humanos e artefatos culturais de povos nativos americanos, não é sempre que há exigência legal para relatar achados paleontológicos em terras de propriedade privada, o que significa que alguns ossos de animais acabam sendo vendidos para coleções particulares, em vez de entregues para estudo.

E, dados os prazos restritos que muitos projetos de construção enfrentam, chamar cientistas às vezes é visto como um obstáculo caro. No início deste ano, em Utah, equipamentos de construção em terras federais danificaram um conjunto de pegadas raras de dinossauros, gerando críticas de que os paleontólogos não estavam mais envolvidos na supervisão do local.

Quando os trabalhadores da estrada do Tennessee encontraram o que se tornou o Gray Fossil Site há mais de duas décadas, a conversão do local em área de pesquisa permanente exigiu a intervenção do governador e dinheiro para redirecionar a estrada que deveria passar por lá. Nos anos seguintes, a Universidade Estadual do Tennessee iniciou um programa de paleontologia, milhares de pessoas visitaram o museu e cientistas desenterraram ossos que datam de cerca de 5 milhões de anos, incluindo pandas vermelhos, rinocerontes, antas e jacarés, fornecendo um vislumbre único para os Apalaches pré-históricos.

"As descobertas estão nos dizendo como eram essas florestas naquela época. Nós não tínhamos ideia de como as coisas eram nesses períodos de milhões de anos", disse Schubert, que supervisiona o local, onde as escavações continuam. "Foi um esforço tremendamente caro salvar este sítio fóssil, e não sei se algo assim aconteceria hoje."

De maneira geral, os cientistas sabem onde é provável que apareçam ossos de dinossauros ou restos da era do gelo: em lugares onde sedimentos ou estratos de rochas sedimentares da idade certa agora estão próximos da superfície e podem ser expostos por erosão natural ou obras de construção. Grande parte da América do Norte se encaixa nessa descrição, e novas descobertas importantes acontecem, em grande medida, por uma questão de sorte.

Quando os fósseis aparecem, as escavações de longo prazo, como o sítio no Tennessee, são exceção. Muitas vezes, os cientistas concluem o trabalho em poucos dias ou semanas depois de os trabalhadores relatarem uma descoberta notável.

Na Califórnia, que tem leis rigorosas para alertar cientistas sobre descobertas paleontológicas, equipes de construção e cientistas geralmente coexistem em harmonia.

Peter Tateishi, CEO da Associação de Construtores da Califórnia, disse que os trabalhadores da construção muitas vezes conseguem continuar construindo outras partes de uma estrutura enquanto os cientistas são chamados para avaliar uma descoberta. "Às vezes é meio doloroso, mas as leis são escritas de tal forma que podemos continuar seguindo os cronogramas", disse Tateishi.

Dan Wagner, inspetor de construção na área de Denver, estava ajudando a supervisionar a construção da delegacia de polícia e do corpo de bombeiros em Thornton, Colorado, há alguns anos, quando encontrou um pedaço de osso onde equipes estavam fazendo buracos para pilares de concreto. O osso veio bem do fundo do solo, sugerindo que provavelmente era muito antigo. Ele se perguntou: "Será que pode ser um dinossauro?".

Quando ele cavou um pouco mais e desenterrou um osso muito maior, os gerentes do local interromperam o trabalho naquela área. Nas semanas seguintes, enquanto o trabalho continuava em outras partes do novo edifício, Sertich e outros paleontólogos escavaram um torossauro praticamente intacto em uma pequena seção cercada do canteiro de obras.

Wagner disse que às vezes acompanhava o progresso durante os intervalos e participava das escavações quando seu dia de trabalho terminava mais cedo. "Eu não gostava muito de dinossauros, mas fiquei superempolgado", disse Wagner, que fez uma tatuagem do torossauro e depois levou seus filhos para vê-lo exposto no museu. "Eu ia para a cama imaginando o que diabos era aquilo e quantos ossos tinham lá".

Acesso

Em Michigan, onde os ossos do mastodonte foram encontrados em agosto, nunca houve hesitação em dar aos especialistas acesso ao local. "Estamos aqui nesta terra, e essa criatura viveu aqui, mas nunca a vimos e nunca a veremos", disse Ken Yonker, comissário de drenagem do condado de Kent, cuja agência supervisionou o projeto de construção. "É quase um presente."

Busscher, que descobriu o fêmur e é dono da construtora, deixou os funcionários passarem o dia seguinte trabalhando na terra com os cientistas. Os proprietários do terreno onde os ossos foram encontrados concordaram em doá-los para o Museu Público de Grand Rapids, que agora está realizando um extenso processo de limpeza e secagem para preparar ossos para exibição. Eles se juntarão a outros mastodontes do museu, incluindo um esqueleto parcial conhecido como Smitty, cujos ossos foram encontrados em um canteiro de obras em Michigan na década de 1980.

Cory Redman, curador de ciências do museu, que usava uma mangueira de jardim para limpar suavemente a sujeira dos ossos do mastodonte recém-encontrado, disse que ainda não estava claro como aquele esqueleto, que provavelmente pertencia a uma jovem espécie, viera parar na beira daquela estrada ao norte de Grand Rapids. Ele disse que os pesquisadores vão analisar se os ossos - que tinham pelo menos 11 mil anos e datavam de uma época em que as geleiras cobriam partes de Michigan - mostravam sinais de terem sido massacrados por humanos.

Vários dias após a descoberta, a normalidade retornara ao canteiro de obras. A escavadeira que desenterrara o fêmur ainda estava estacionada e havia água parada no buraco onde os ossos haviam sido encontrados. Busscher e sua equipe estavam trabalhando do lado de lá da placa que dizia "estrada fechada". Afinal, eles tinham de terminar de limpar aquela rede de drenagem. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Estadão
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