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Asfalto que se regenera: cientistas criam estrada capaz de se reparar sozinha

Uma equipe internacional de cientistas britânicos e chilenos apresentou um tipo de asfalto descrito como "regenerativo". Veja como funciona a estrada capaz de se reparar sozinha.

5 fev 2026 - 13h33
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Uma equipe internacional de cientistas britânicos e chilenos apresentou um tipo de asfalto descrito como "regenerativo". Ou seja, capaz de reparar rachaduras microscópicas antes que se transformem em buracos visíveis na pista. A proposta chama atenção por combinar química de materiais, inteligência artificial e o problema do desgaste acelerado das estradas, que se agrava por clima extremo, tráfego intenso e manutenção cara e demorada.

O estudo, que teve a liderança de pesquisadores do King's College London, da Swansea University e de instituições no Chile, aponta que pequenas mudanças na composição do betume — a fração derivada do petróleo que age como ligante no asfalto — podem alterar de forma decisiva o comportamento do pavimento ao longo do tempo. Assim, em vez de apenas resistir ao dano, a projeção do novo material se dá para responder ao desgaste, reorganizando sua estrutura interna para "fechar" microfissuras.

O betume é a “cola” preta e viscosa que mantém unidos os agregados minerais da camada de asfalto – depositphotos.com / thefutureis
O betume é a “cola” preta e viscosa que mantém unidos os agregados minerais da camada de asfalto – depositphotos.com / thefutureis
Foto: Giro 10

Por que o betume racha e como isso afeta as estradas

O betume é a "cola" preta e viscosa que mantém unidos os agregados minerais da camada de asfalto. Com o passar dos anos, esse ligante sofre um processo de oxidação. Em especial, pela exposição prolongada ao oxigênio do ar, à radiação solar e às variações de temperatura. Assim, esse fenômeno provoca o endurecimento progressivo do material, que perde flexibilidade e se torna mais quebradiço.

Quando o betume endurece, a camada de asfalto deixa de acomodar bem as tensões causadas pelo peso dos veículos. Por isso, surgem microtrincas quase invisíveis. Com a passagem do tempo, água da chuva e partículas sólidas penetram nessas falhas, ampliando o dano. Portanto, a repetição do ciclo de tráfego, chuva e secagem faz com que as fissuras se conectem, resultando em rachaduras mais largas e, em seguida, em buracos. Esse processo está por trás de boa parte dos defeitos que afetam rodovias, ruas urbanas e pistas de aeroportos em diferentes países.

Como funciona o asfalto regenerativo e sua autorreparação?

O chamado asfalto regenerativo busca interferir justamente na etapa inicial desse ciclo de degradação. Assim, em vez de esperar que as microtrincas evoluam para falhas maiores, o material reage logo que os primeiros danos aparecem, estimulando uma espécie de "cicatrização" interna. Porém, essa resposta não envolve componentes eletrônicos ou sistemas mecânicos embutidos, mas sim ajustes químicos no próprio ligante.

Na prática, os cientistas modificaram a composição do betume, incorporando moléculas e aditivos capazes de promover a mobilidade interna do material quando submetido a estímulos como variação de temperatura e pressão do tráfego. Em condições adequadas, as cadeias moleculares do ligante se reorganizam ao redor das microfissuras, preenchendo o espaço vazio e restabelecendo a coesão da estrutura. Dessa forma, o pavimento recupera parte de suas propriedades originais de aderência e flexibilidade.

O processo de autorreparação tende a ser gradual e repetitivo. Assim, sempre que surgem pequenas falhas, há potencial para uma regeneração parcial, o que retarda o avanço do dano. Portanto, essa abordagem difere das intervenções tradicionais de manutenção, que atuam apenas depois que o problema está visível. Ao atuar na escala microscópica, o asfalto regenerativo procura estender a vida útil da camada de rolamento sem interrupção do tráfego.

Inteligência artificial no desenvolvimento do betume autorreparável

Um dos pontos centrais do projeto é o uso de inteligência artificial para mapear como diferentes combinações químicas afetam o desempenho do betume. Pesquisadores do King's College London e da Swansea University desenvolveram modelos computacionais capazes de analisar a composição molecular do ligante. Ademais, prever quais arranjos teriam maior capacidade de autorreparação, sem perder estabilidade mecânica ou segurança.

Em vez de depender apenas de tentativa e erro em laboratório, os cientistas alimentaram algoritmos com dados de espectroscopia, ensaios reológicos e simulações de envelhecimento por oxidação. A partir desse conjunto, a IA identificou padrões entre grupos funcionais presentes no betume, tipos de aditivos e respostas observadas em testes de fadiga e fissuração. Assim, o objetivo foi destacar combinações em que interações químicas específicas facilitassem a mobilidade molecular necessária para que o material "fechasse" microtrincas.

Essa etapa computacional funcionou como um filtro, reduzindo o número de formulações que precisavam ser produzidas e avaliadas fisicamente. Os candidatos mais promissores, apontados pelos modelos de aprendizado de máquina, foram então submetidos a ensaios acelerados de envelhecimento e ciclagem de carga. Portanto, os resultados iniciais indicaram que algumas dessas misturas apresentaram significativa capacidade de recuperação de rigidez e coesão após ciclos de dano controlado.

Quais são os principais benefícios do asfalto regenerativo para estradas?

Entre os potenciais benefícios do asfalto regenerativo, a redução de buracos nas pistas é um dos mais evidentes. Afinal, ao conter a progressão das microfissuras, o pavimento tende a sofrer menos quebras abruptas, o que pode diminuir o número de reparos emergenciais. Em rodovias muito movimentadas, esse aspecto tem impacto direto na segurança viária e na fluidez do tráfego, já que reduz a necessidade de interdições frequentes para tapa-buracos.

Outro ponto relevante é o aumento da vida útil do pavimento. Se a camada de asfalto permanece íntegra por mais tempo, os ciclos de recapeamento se tornam mais espaçados. Isso significa, em tese, menor consumo de materiais, menos emissões associadas à produção de betume novo e à operação de máquinas pesadas, além de redução de custos de manutenção para administrações públicas e concessionárias.

Especialistas também destacam o potencial dessa tecnologia em contextos de clima extremo, como regiões com fortes amplitudes térmicas ou grande incidência de radiação solar, onde o envelhecimento oxidativo do betume é mais acelerado. Em tais cenários, um material capaz de se regenerar parcialmente pode contribuir para manter a qualidade da superfície de rolamento em níveis mais estáveis ao longo do ano.

Entre os potenciais benefícios do asfalto regenerativo, a redução de buracos nas pistas é um dos mais evidentes – depositphotos.com / Fotorezekne
Entre os potenciais benefícios do asfalto regenerativo, a redução de buracos nas pistas é um dos mais evidentes – depositphotos.com / Fotorezekne
Foto: Giro 10

Desafios para adoção e próximos passos da pesquisa

Apesar dos resultados promissores, o asfalto regenerativo ainda se encontra em estágio de testes avançados e demonstrações controladas. A transição para uso amplo em rodovias e vias urbanas envolve desafios técnicos, econômicos e regulatórios. É necessário verificar o desempenho em diferentes condições climáticas, tipos de tráfego e métodos de aplicação, além de compatibilizar a nova tecnologia com equipamentos e processos já utilizados por empresas de pavimentação.

Outra questão importante é o custo inicial. Materiais com formulações mais complexas tendem a ter preço superior ao asfalto convencional. A avaliação de custo-benefício depende de análises de ciclo de vida, que consideram não apenas o valor de implantação, mas a economia potencial em manutenção e recapeamentos ao longo de décadas. Esse tipo de estudo tem sido incorporado às etapas de validação pelos grupos de pesquisa envolvidos.

Os cientistas apontam ainda a possibilidade de integrar o desenvolvimento de asfalto regenerativo com outras inovações, como uso de resíduos industriais, aditivos de origem biológica e sensores para monitoramento estrutural. Em conjunto, essas frentes podem redefinir a forma como o pavimento é projetado, aproximando o setor rodoviário de abordagens mais duradouras e baseadas em dados, nas quais a autorreparação do betume se torna uma peça estratégica no enfrentamento do desgaste crônico das estradas.

Giro 10
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