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Aos 62 anos, ela decidiu bater o recorde de 15 km de corrida um ano após colocar um marca-passo: 'Não espere a doença chegar'

Elizete Santos faz parte do coletivo 'Vem Com Nóis', que incentiva a atividade física em São Paulo

23 jan 2026 - 04h59
Aos 62 anos, ela decidiu bater o recorde de 15 km de corrida um ano após colocar um marca-passo
Aos 62 anos, ela decidiu bater o recorde de 15 km de corrida um ano após colocar um marca-passo
Foto: Acervo Pessoal

Às oito da manhã, Elizete Santos bate o ponto no trabalho. Ao se despedir, às cinco da tarde, o dia ainda não acabou. A cuidadora de 62 anos troca a roupa do expediente por um look confortável, calça um tênis apropriado e sai para correr 10 km, todos os dias. Se alguém contasse essa rotina para sua versão “jovem”, ela não acreditaria. Há duas décadas, Elizete passou a fazer atividades físicas por indicação médica e hoje faz parte de uma equipe que motiva os recém-chegados em um grupo de corrida em São Paulo. 

Com a cultura wellness em alta, virar corredor se tornou trend. Basta rolar o feed para encontrar aqueles conhecidos publicando fotos durante a corrida com direito a frases motivacionais na legenda. Quando Elizete decidiu começar, não era bem assim. Em vez das redes sociais, ela encontrou indicação em um consultório.  

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‘Só tinha juventude’

Sedentária e com crises de hipertensão, Elizete foi orientada a mudar o estilo de vida por um médico há 20 anos. “A minha pressão subia muito, eu ia direto para o pronto socorro, voltava e nada de baixar. Até que eu fui ao cardiologista e ele me falou: ‘Você precisa fazer atividade física’. Para uma pessoa sedentária, foi difícil ouvir isso”, relembra em entrevista ao Terra

Foi quando conheceu o primeiro grupo de corrida, que treinava no Pacaembu, na Zona Oeste de São Paulo. Para quem estava com medo de mudar os hábitos, a parceria deu mais que certo. Elizete participou por 12 anos, até que o coletivo informou o fim das atividades. “Quando acabou o grupo, eu fiquei sem saber onde fazer atividades”, diz. O ano era 2016. 

Aos 62 anos, ela decidiu bater o recorde de 15 km de corrida um ano após colocar um marca-passo
Foto: Acervo Pessoal

A solução veio de uma amiga, que descobriu uma saída para aquela situação. “Ela falou assim: ‘Olha, Elizete, eu vi pela internet um grupo muito legal, só garotada. Vamos dar uma chegada lá para ver’”, conta. O grupo era o coletivo Vem Com Nóis, fundado no mesmo ano por Caio Bellentani.

“Chegamos lá e eu adorei, porque só tinha juventude. Nós éramos as únicas, digamos, velhinhas”, detalha, aos risos. O que atraiu Elizete foi justamente o que afastou a amiga, na ocasião. “Ela não gostou muito, não se sentiu bem no meio de tanta juventude, mas eu falei: ‘vou ficar”, afirma. 

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De iniciante a acolhedora 

Para a corredora, um fator foi importante para que ela não sentisse desconforto: o acolhimento dos integrantes do coletivo. Passados 10 anos, é justamente esse o seu papel na Vem Com Nois. Elizete é 'pacer', uma pessoa que orienta os iniciantes e os acompanha durante as corridas, dando motivação. 

“O André me fez o convite: ‘Dona Elizete, você não quer ser pacer? Porque você já faz isso antes de ser pacer. De ajudar as pessoas, de acolher, conversar’. Ouvindo isso eu falei ‘estou dentro!”, conta. 

Para quem não faz parte do universo das corridas, a palavra pode ser estranha, mas a função é essencial em coletivos como esse. Quem explica é Elizete: “A função do pacer é o diálogo, é o acolhimento para as pessoas que estão na primeira vez ou que já correm, mas que não é acolhido nos treinos.”

Aos 62 anos, ela decidiu bater o recorde de 15 km de corrida um ano após colocar um marca-passo
Foto: Acervo Pessoal

Quando chega na Praça Oswaldo Cruz para correr com o Vem Com Nóis, a corredora já observa. Entre cumprimentos e abraços, ela consegue perceber quem está ali pela primeira vez ou não é tão familiarizado com o esporte. 

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“A pessoa fica toda encolhidinha, né? Não entrosa. Eu já falo: ‘Amigo, se joga, porque aqui não tem esse negócio de ficar ali escondidinho, não. É todo mundo unido’. Aí a pessoa já abre um sorrisão", garante. 

Geralmente, o lugar do pacer no coletivo é acompanhando as pessoas que têm um ritmo mais reduzido que o resto da turma, durante todo o trajeto de 3 km. O objetivo é não deixar ninguém desistir ou ficar para trás. 

“Se você não corre, vai lá pela primeira vez e, de repente, todo mundo começa a te passar, o que acontece? Você desiste. Sai de fininho, nunca mais aparece. E nós estamos ali justo para fazer o contrário”, detalha. 

‘O senhor operou meu coração, não minhas pernas’ 

Quem vê Elizete correndo com um sorriso no rosto e acolhendo os novatos como 'pacer', nem imagina que um problema de saúde a forçou a ficar um ano parada. Ela precisou fazer uma cirurgia no coração para a colocação de um marcapasso, mas não pensou em parar de praticar atividade física nem mesmo no hospital.

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“Operei de manhã, umas 6 horas já estava no quarto e às 8 horas já estava andando no corredor do hospital. O médico falou: ‘Você está ficando louca’, mas respondi ‘O senhor me operou o coração, não foi minhas pernas. Então eu vou andar’”, lembra. 

Aos 62 anos, ela decidiu bater o recorde de 15 km de corrida um ano após colocar um marca-passo
Foto: Acervo Pessoal

Desse dia para a volta oficial às corridas, o processo foi suado. Primeiro, Elizete foi liberada para fazer caminhadas curtas, que viraram passeios mais longos com o passar do tempo. O ‘ok’ para a corrida veio somente nove meses depois do procedimento, com certo cuidado. 

A liberação para correr trechos maiores chegou um ano depois. “Já tinha feito 5 km mas queria mais. Perguntei a ele quanto eu poderia correr e ele respondeu ‘o quanto você quiser, suas pernas aguentarem e o marca-passo seguir você’”, detalha. 

“Depois disso eu fiz os 15 km na Marginal Pinheiros. Foi muito bom, mesmo. Estava frio e chovendo, e eu achei que estava ficando louca (risos). Mas pensei: ‘Pelo menos, se morrer, morro feliz, fazendo o que quero’. E foi. Foi maravilhoso, não senti absolutamente nada”, conta. 

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Para amigos e familiares que não vivem a paixão pelo esporte, tanta dedicação pode parecer exagerada. Elizete conta que já chegou a ouvir que estava louca. 

“Quem não é do esporte não entende. Isso que a gente faz, esse amor que a gente tem pela corrida é como um amor dos jogadores de futebol pelo seu time. Mas obviamente eles ganham e a gente paga, né? Nós pagamos para correr”, pondera. 

‘Correr virou comércio’

Quando Elizete começou, correr não era moda. Hoje, o esporte é o número um em feeds de redes sociais, tamanho o hype causado por influenciadores wellness e comunidades de bem-estar. Para a corredora experiente, o momento é ótimo para o mercado, mas tem seus ônus para os corredores. 

Aos 62 anos, ela decidiu bater o recorde de 15 km de corrida um ano após colocar um marca-passo
Foto: Acervo Pessoal

“As corridas nunca foram tão baratas, mas eram em torno de R$ 40, ou, quando estourava R$ 50. E corriam poucas pessoas, ninguém era muito adepto ao esporte. Hoje em dia virou febre. Não é mais saúde, é comércio. Uma inscrição da São Silvestre custa uma fortuna. Você não compra uma corrida por menos de R$ 100", critica. 

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“Como que falam que correr faz bem para a saúde, mas se eu não tenho R$ 150 para dar não posso participar?”, questiona. Elizete se refere aos eventos com estrutura, reposição de líquidos e alimentação. “Se você vai fazer a famosa pipoca, de graça, eles não te dão nenhum copo de água”, complementa. 

Longe da ideia de que para correr basta calçar um tênis e sair de casa, a atleta acredita que ainda falta incentivo ao esporte, mesmo com tanto 'hype'. “Poderiam ter mais corridas só para idosos, por exemplo, com um precinho básico ali só para poder pagar os staffs”, sugere. 

Além dos preços exorbitantes, outro fator também é uma red flag, principalmente para idosos: a condição das calçadas. “Tudo esburacado. Quantas vezes eu já caí na rua? Graças a Deus eu nunca me quebrei. Mas você pisa em cima de uma calçada, pensa que está firme, de repente o negócio levanta do seu pé e você cai de cara”, disse Elizete, que vive em São Paulo. 

Preconceito com idosos na corrida

Desde o primeiro dia no Vem Com Nóis, Elizete se sentiu acolhida. Mesmo com a garotada em maioria, a corredora nunca observou nenhum tratamento diferente vindo do grupo. Pelo contrário. O coletivo a incentivou a continuar no esporte. No entanto, ao olhar para fora, a realidade era outra.

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Aos 62 anos, ela decidiu bater o recorde de 15 km de corrida um ano após colocar um marca-passo
Foto: Acervo Pessoal

Aos 62 anos, Elizete conta que percebe um certo preconceito com pessoas da terceira idade que praticam a corrida. “No dia a dia, treinando sozinha na rua, ainda se vê isso. Não chegam a comentar, mas você vê pelo jeito de olhar, o tititi para outra pessoa.” 

Por outro lado, ela recebe muitos elogios dos colegas do coletivo e de pessoas que fazem parte de sua rotina. “Tem gente que passa, buzina e fala ‘parabéns’, sabe? Já ouvi também ‘sigo seu exemplo’”, conta, com um sorriso no rosto. 

Para Elizete, o coletivo é essencial para criar esse sentimento de pertencimento à comunidade de corredores, mesmo com uma distância geracional entre ela e boa parte do grupo. Segundo a corredora, o acolhimento também é um incentivo e tanto para os idosos.

“Tem gente que só vai ao supermercado se for acompanhado. Em grupo, tem incentivo. Seja no esporte, no yoga, na natação, onde for”, opina. “É uma alegria completamente diferente. A garotada te abraça, te beija, te levanta, te joga de cabeça para baixo, faz de tudo. Eu gosto dessa parte”, completa. 

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‘Não precisa ter vergonha de sair correndo porque tem 60 ou mais’

Dos 62 anos de vida, 20 foram dedicados ao esporte. Mesmo após tantos anos de corrida, Elizete olha para trás e não se arrepende do esforço que faz para manter a prática em sua rotina. E ela não pretende se acomodar. Após correr 15 km, sua meta agora são os 42 km e uma maratona. 

Para os idosos que querem começar a correr, Elizete tem um conselho: “A pessoa não precisa ter vergonha de sair correndo porque tem 50 ou 60 mais, 70 mais. Eu tenho 62. Não esperar a doença chegar para você poder se mexer. Não espere a coisa ficar ruim para arrumar tempo. Quando você está bem, não tem tempo para nada. Não precisa chegar a esse ponto.”

Aos 62 anos, ela decidiu bater o recorde de 15 km de corrida um ano após colocar um marca-passo
Foto: Acervo Pessoal

A corredora defende que não existe um momento perfeito nem a companhia perfeita para começar no esporte. Também não é preciso esperar ter a melhor roupa, o melhor tênis ou um evento caríssimo para testar a prática. 

“Veste uma roupa de esporte e vai lá, faz a sua parte. Não espera ninguém te chamar, porque esse dia nunca vai chegar. Só vai chegar gente para te pôr para baixo, para te diminuir e dizer que você parece uma maluca correndo”, destaca. 

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Quem quiser conhecer o Vem Com Nóis e ser acolhido pela pacer também é bem-vindo. “A gente acolhe todo mundo, seja ele de que idade for. Estamos prontos para abraçar, sorrir, dar uma palavra de conforto, de carinho para quem quiser chegar. A gente diz que a porta é aberta quando é em casa, mas como estamos na rua, digo: a rua é livre, a praça é livre para você chegar lá e ser sempre bem recebido”, garante. 

Fonte: Portal Terra
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