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TDAH: quando a distração não significa um transtorno

Sintomas comuns podem ser confundidos com TDAH nas redes sociais; especialistas explicam por que o diagnóstico exige avaliação clínica

7 set 2026 - 08h02
Resumo
A popularização de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais tem gerado uma onda preocupante de autodiagnósticos de TDAH. Especialistas alertam que comportamentos comuns, como distração e procrastinação, frequentemente decorrem de estresse, privação de sono ou do excesso de telas, e não de um transtorno neurobiológico. Para evitar rótulos precipitados e a patologização da rotina moderna, o diagnóstico do TDAH exige uma avaliação clínica criteriosa e individualizada da história do paciente.

Entre vídeos de TikTok, reels e listas de sintomas, especialistas alertam para o crescimento dos autodiagnósticos e para o risco de transformar comportamentos comuns em transtornos

Você se distrai facilmente? Procrastina tarefas? Perde objetos com frequência? Tem dificuldade para manter o foco em atividades longas? Se respondeu "sim" para algumas dessas perguntas, talvez já tenha visto alguém afirmar nas redes sociais que você pode ter TDAH.

Foto: Revista Malu

Nos últimos anos, conteúdos sobre saúde mental passaram a ocupar espaço cada vez maior em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube. Ao mesmo tempo, aumentou significativamente o interesse da população por temas relacionados ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), especialmente entre adultos.

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Mas, junto com a ampliação do debate, surgiu um fenômeno que preocupa especialistas: o crescimento dos autodiagnósticos.

Segundo o psiquiatra Luís Carlos Murari, nunca tantas pessoas chegaram ao consultório acreditando já saber exatamente qual é o seu diagnóstico. "É cada vez mais comum receber pacientes que dizem: 'Doutor, eu tenho certeza de que tenho TDAH'. Muitas vezes essa conclusão foi construída a partir de vídeos curtos, relatos de influenciadores ou listas genéricas de sintomas encontradas na internet."

O problema é que identificar-se com alguns comportamentos não significa necessariamente possuir um transtorno neurobiológico.

Quando a informação ajuda; e quando atrapalha

O aumento da informação sobre saúde mental trouxe benefícios importantes. Mais pessoas passaram a reconhecer sinais de sofrimento emocional, buscar ajuda e falar abertamente sobre temas que antes eram cercados por preconceito.

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Por outro lado, a popularização do assunto também criou um ambiente onde experiências humanas comuns passaram a ser frequentemente interpretadas como sinais de transtornos mentais.

A dificuldade de concentração, por exemplo, pode estar relacionada a diversos fatores: falta de sono, estresse, ansiedade, excesso de telas, sobrecarga profissional, problemas emocionais, rotina desorganizada.

E até mesmo hábitos de consumo digital cada vez mais acelerados. "Vivemos uma época em que somos interrompidos o tempo inteiro. Recebemos notificações constantemente, alternamos entre várias telas e consumimos conteúdos cada vez mais rápidos. Isso afeta a capacidade de atenção de qualquer pessoa", explica Murari.

O que é sintoma e o que é transtorno?

Sentir-se distraído em alguns momentos não significa ter TDAH. Esquecer compromissos ocasionalmente também não. Da mesma forma que ficar triste não significa depressão e sentir ansiedade antes de uma apresentação não caracteriza necessariamente um transtorno de ansiedade.

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O diagnóstico de TDAH exige uma avaliação cuidadosa, considerando histórico de vida, impacto funcional, frequência dos sintomas e outros critérios clínicos.

O que preocupa os especialistas é que, em alguns casos, a busca por respostas rápidas pode levar pessoas a ignorarem outras causas para aquilo que estão sentindo.

A geração que perdeu a capacidade de se concentrar?

Outro aspecto que chama atenção é a transformação da própria relação da sociedade com a atenção. Nunca fomos tão estimulados. Nem recebemos tantas informações ao mesmo tempo. E nunca passamos tantas horas diante de telas.

Muitos comportamentos que hoje despertam suspeitas de TDAH podem estar relacionados a um fenômeno mais amplo: a dificuldade crescente de manter foco em um ambiente construído para disputar nossa atenção a cada segundo. "O fato de uma pessoa ter dificuldade para se concentrar não significa automaticamente que ela tenha TDAH. Precisamos entender o contexto, a rotina e a história daquela pessoa antes de transformar um sintoma em diagnóstico", afirma o psiquiatra.

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O risco dos diagnósticos apressados

O alerta não vale apenas para os autodiagnósticos. Especialistas também chamam atenção para a necessidade de avaliações criteriosas. A pressão por respostas rápidas, somada à alta demanda por atendimento em saúde mental, pode favorecer processos diagnósticos simplificados e conclusões precipitadas.

Isso é especialmente importante porque diferentes condições podem apresentar sintomas semelhantes. Ansiedade, depressão, privação de sono, burnout e até situações de estresse prolongado podem afetar atenção, memória e desempenho cognitivo.

Por isso, reduzir uma pessoa a um único rótulo pode significar deixar de compreender aquilo que realmente está acontecendo.

O verdadeiro desafio

Para Murari, a discussão não deveria ser sobre desacreditar diagnósticos, mas sobre aprimorá-los.

"O TDAH existe, é um transtorno sério e pode causar impactos significativos na vida das pessoas. Mas nem toda distração é TDAH, assim como nem todo sofrimento emocional precisa ser transformado imediatamente em um diagnóstico."

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Em uma era marcada por vídeos de poucos segundos e respostas instantâneas, talvez o maior desafio seja justamente aquele que as redes sociais não conseguem oferecer: tempo para ouvir, investigar e compreender a complexidade de cada indivíduo.

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